Marc Ribot - XXV Festival de Jazz Colegio Mayor San Juan Evangelista
Colegio Mayor San Juan Evangelista, Madrid
05 Nov 2006
O cenário é um pouco estranho. Um colégio algo afastado do centro da cidade, ambiente tipicamente estudantil, residências dormitório. Mas era mesmo ali que se celebrava a XXV edição do Festival de Jazz Colegio Mayor San Juan Evangelista, certame que se realiza desde 1981 e que em outros tempos nomes como Miles Davis, John Coltrane, Albert Ayler, John McLaughlin ou Tete Montoliu. Hoje em dia, o Festival de Jazz Colegio Mayor San Juan Evangelista faz parte do Festival de Jazz de Madrid, apesar de este ser dois anos mais novo. A estreia desta edição do festival deu-se com um concerto de Dave Douglas Quintet, e no fim de tarde de domingo continuava com o guitarrista Marc Ribot. Para além de nomes do jazz espanhol, o cartaz do festival conta ainda com a presença do duo húngaro Akosh Szelevenyi & Tildas Etevenard e de Dave Holland.

Na sala pré-auditório mostravam-se orgulhosamente cartazes das edições anteriores do festival e era possível confirmar-se o prestigio que detém em Espanha e não só. A este mesmo festival Marc Ribot trazia a sua particular homenagem a Albert Ayler. E com ele vinham Chad Taylor na bateria (mais conhecido pelo seu trabalho com Chicago Underground), Roy Campbell no trompete e Henry Grimes no contrabaixo (que fez parte do colectivo original de Albert Ayler, em 1960, e que logo estava mais do que apto para fazer parte da homenagem), o ‘colectivo Spiritual Unity’. Depois de Grimes ter regressado ao jazz em 2003, Marc Ribot teve aí a sua hipótese de concretizar o seu desejo de formar um colectivo para esta tarefa. Em Maio de 2005 surgiaSpiritual Unity, um disco que inclui quatro temas de Ayler e um original de Ribot.

Marc Ribot © Angela Costa


Marc Ribot © Angela Costa

Ao vivo, a recriação da obra de um dos maiores colossos do free jazz parecia, à partida, complicada, mas Marc Ribot esteve sempre bem e certeiramente acompanhado. A sala estava quase cheia e quando a banda entrou, atrasada mas não muito, pouco demorou a dar inicio à viagem. Cedo se notou uma ligação especial entre o trompete e a guitarra de Marc Riot e, noutro capítulo, entre a bateria e o contrabaixo – os maiores momentos de improvisação foram de uma grande intensidade. No meio de todo o processo impressiona sobremaneira a capacidade de Marc Ribot de, com a sua guitarra, dosear o peso das investidas, criar as mais diversas situações e sensações, gerir o esforço. "Truth Is Marching In" foi um longo e perfeito momento, bonito de se assistir.

Marc Ribot © Angela Costa

Para Marc Ribot, tocar a música de Albert Ayler é “um processo ritual, através da improvisação, de experimentar e apresentar o momento mais cru da criação musical”. Além de isto parecer muito óbvio em palco, também parece evidente que toda a banda retira daí muito prazer e orgulho. Mais tarde ou mais cedo este projecto teria de acontecer para estes músicos – em especial para Marc Ribot e para Henry Grimes. Em disco ou ao vivo, o projecto ‘Spiritual Unity’ parece estar destinado ao sucesso.
· 05 Nov 2006 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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