Deerhunter / Liars
Club Lua, Lisboa
26 Set 2006
Os Liars parecem ter-se juntado por partilharem um amor por vestidos de mulher, homoeroticismo e percussão. Se há melhores razões para fazer música, ainda não foram descobertas (“a música pela música” não vale). Faz sentido, apenas, e o mundo é um sítio melhor por causa disso.

Depois do começo dancepunk, descobriram a percussão, as bruxas e dois amigos: Drum e Mt. Heart Attack. Isso trouxe-nos, e ainda bem, três discos: They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top, They Were Wrong, So We Drowned e Drum’s Not Dead, para além de capas com pornografia homossexual. E reza a lenda que trouxe a Lisboa três concertos, todos diferentes entre si, caóticos, belos e intensos, todos perto do rio.

O Club Lua é grande, tem capacidade para 1400 pessoas e, mesmo que a cerveja não seja grande espingarda, é um espaço simpático, com fotografias de gente do jazz por lá espalhadas, não se sabe bem porquê. Não parece fazer muito sentido receber um concerto com duas bandas barulhentas. Primeiro, dos Deerhunter, o orgulho dos Liars, que gostam tanto deles que os trouxeram para a Europa pela primeira vez. São uma banda de putos com t-shirts de Cramps e de Cult e um vocalista tão claramente subnutrido que faz a Etiópia parecer um país com graves problemas de obesidade, que gosta de pilhar os anos 80 mas injectá-los com drones e reverb, entre riffs de guitarra indie típicos dos anos 90, vocalizações espásmicas à Suicide e explosões de barulho que lembram a malta do noise. Segundo, dos próprios Liars.

Angus Andrew, que cortou recentemente o cabelo e também o descolorou, entra em palco com um fato-macaco branco muito sujo e uma meia branca e uma azul. Tudo começa com uma batida, são os próprios que o dizem, já que foram descobrindo que dá para afinar os instrumentos de percussão - aqui há duas baterias, tocadas pelo baterista e pelo guitarrista, Julian Gross e Aaron Hemphill, respectivamente - e, usando dois kits diferentes, dá para ter harmonia e melodia através deles, uma herança tirada do legado dos This Heat. É isto que acontece em Drum’s Not Dead, a percussão é estranhamente orelhuda e pop, acompanhada por uma muralha de drones na guitarra - herança de Brian Eno, que os Liars ouviam enquanto se preparavam para o concerto, horas antes, num I-Pod nos bastidores - e pela voz de Angus Andrew, que não tem medo de um bom falsete de vez em quando.

E é assim que quase tudo funciona ao vivo, mas com caos e loucura à mistura. O alinhamento centra-se nos dois últimos discos, como se nunca tivesse havido um primeiro disco, e isso faz sentido. Começa tudo muito disperso, uma amálgama de som, de batidas (a certo ponto Angus diz que é o seu coração a bater), de vozes, de uivos, de gritos, de espasmos, de entretenimento, donde se podem discernir, a pouco e pouco, as canções (se é que se pode chamar-lhes isso) dos discos. Angus Andrew tira o fato-macaco para revelar um imaculado fato cinzento, com direito a camisa e gravata, e passa o resto do concerto assim. Até, claro, ao encore, que insiste em fazer com um vestido vermelho.

Horas antes, em entrevista ao Bodyspace, depois do fotógrafo de serviço avisar Angus Andrew de que não é um profissional, este respondeu: “Não te preocupes, eu também não.” Os Liars podem não ser profissionais, mas fazem uma festa igualmente barulhenta, feia, bonita, dançável, triste, alegre, mas que possibilita dança e bater o pé a todos os momentos. Entre versões anormalmente barulhentas dos Nirvana, riffs de duas ou três notas, temas irreconhecíveis, distorção no limite, poucas paragens entre cada canção e o puro monstro de palco que é Angus Andrew, de cigarro no canto da boca, a saltar ou a fazer as caras mais inacreditáveis, os amadores mostram o que sabem fazer.
· 26 Set 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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