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Sound Of Lapland Scapes

2019
Only In Lapland


Já muito se escreveu sobre o papel que a música tem na psique e no físico humanos: ajuda-nos a reduzir o stress, leva o corpo a produzir mais anticorpos, reduz a ansiedade, leva a uma sensação de relaxamento e bem-estar, faz de nós pessoas mais felizes - tudo isto, por seu turno, levando-nos a viver mais tempo e de forma mais saudável. Este é um resumo simples; aspirantes a psicólogos ou neurocientistas poderão perder algum tempo das suas vidas a ler artigos como os aqui descritos.

Quem diz a música, diz também o som - porque a primeira não poderia existir sem o segundo, como é óbvio. Um determinado som leva a uma determinada reacção. Giz a arranhar um quadro deixa uma grande parte da população (especialmente a que nunca ouviu discos de noise) com os cabelos em franja. Máquinas a labutar no asfalto deprimem-nos e oprimem-nos. Bebés a chorar em aviões despertam pensamentos omnicidas. Et cætera, et cætera.

Mas os sons também podem ser um modo de alívio. A água a escorrer, o vento soprando nas árvores, um grupo de crianças a gargalhar. Coisas às quais associamos imagens de conforto e distracção. Irv Teibel percebeu isto - e lançou uma série de álbuns que granjearam alguma popularidade, há várias décadas. O departamento de marketing e comunicação da fria Lapónia, em parceria com o Visit Finland, quer agora seguir-lhe os passos.

Certo: Sound Of Lapland acaba por ser não um disco, mas um isco: uma forma de querer levar as pessoas a visitar a Lapónia, especialmente se tiverem dinheiro suficiente na conta bancária para encetar essa empreitada. Mas é, também, para os menos afortunados financeiramente uma forma não de conhecer a região mas de a imaginar, em todo o seu esplendor natural - nada de buzinas, de luzes de candeeiros, de duendes a trabalhar com afinco nos presentes que entregarão aos milhões de milhões de putos que por todo o mundo ainda acreditam neles.

Ouvem-se passos na neve e as mãos sentem o mesmo frio que sentiriam se ali estivessem. Ouve-se um regato, o som do gelo a partir-se na Primavera, e com jeitinho até se escutam as auroras - basta imaginá-las, já que nem todos podemos ir para o Canadá fazer disso vida (We love you, Cristiano Pereira). Ouve-se o fogo a crepitar na lareira e o cheiro a biscoitos de gengibre iguais aos que a vovó fazia. E ouve-se - o que é mais importante - o cérebro a dizer-nos: trava. Pára para não pensar um bocadinho. Oh, não, isto não é música. É algo ainda melhor que isso.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
20/11/2019