DISCOS
São Paulo Underground
Sauna: um, dois, três
· 27 Jul 2006 · 08:00 ·
São Paulo Underground
Sauna: um, dois, três
2006
Aesthetics / Submarine Records / Flur


Sítios oficiais:
- Aesthetics
- Submarine Records
- Flur
São Paulo Underground
Sauna: um, dois, três
2006
Aesthetics / Submarine Records / Flur


Sítios oficiais:
- Aesthetics
- Submarine Records
- Flur
Desde sempre que a perspectiva documental da civilização Amazónica foca os rituais que levam a cabo pequenas congregações de nativos em preze colectiva por fertilidade, prosperidade e diversidade. O espectador externo pasma perante a estranheza dos comportamentos exibidos, enquanto gratina no micro-ondas uma refeição rápida pronta-a-comer. O que lhe serve o National Geographic equivale, tal como o almoço de super-mercado, a substituto meramente demonstrativo das propriedades exactas da real thing. Porque ainda falta à televisão a capacidade de reproduzir à ocasião filmada tudo aquilo que realmente a move: os odores, o atrito e electricidade produzidos pelos corpos, tudo o que não capta a abordagem bidimensional. Ciente de que é essencial o contacto directo com a fonte de inspiração, Rob Mazurek – extraordinário cornetista e figura insuperável da Chicago potencializada em elasticidade musical – optou por partir para o Brasil (mais propriamente, São Paulo) em busca de renovadas soluções criativas e estímulos “tropicais” para o seu púlpito que já conheceu infinitas possibilidades na cidade ventosa (multiplicado pelo Chicago Underground Duo, Isotope 217 e tantos outros projectos paralelos). Para provocar em Mazurek reacções químicas inéditas, quem mais se não o abençoadamente prodigioso Mauricio Takara – habitualmente requisitado pelos Hurtmold, Otto e Nação Zumbi - e o seu estilo rítmico vigoroso e trabalhado. O combo não só é perfeito, como absolutamente complementar entre si.

A própria designação adoptada para o projecto pode ser lida como uma variante para Chicago Underground (o mais emblemático dos projectos de Mazurek) ou como símbolo da união criativa entre as duas metrópoles empenhadas na feitura do disco. Sim, porque para este bacanal de jazz, improviso q.b. e electrónicas diversas foi convidada a melhor nata de São Paulo e Chicago – num esquema quase semelhante à daquela campanha publicitária onde os dois miúdos escolhem vedetas para as suas equipas. À medida que cito os envolvidos convocados para o disco, tente agora sustentar a saliva quem acompanha de perto a evolução às cenas das duas cidades aliadas. Em representação de Chicago, Wayne Montana e Damon Locks dos Eternals oferecem os sintetizadores trémulos à climática “The Realm of the Ripper”, além da masterização de que se ocupa o primeiro e o design citadino a cargo do segundo. Os conterrâneos Josh Abrams e Chad Taylor, em representação dos admiráveis Town & Country, protagonizam fulcrais e incisivos “cameos” instrumentais. Ao serviço da capital paulista e do parceiro Mauricio Takara, os Hurtmold Fernando Cappi, Guilherme Granado e Marcos Gerez merecem a liberdade exacta para que sejam pertinentes ao preenchimento da amálgama sonora do SP Underground sem que este se assemelhe a um projecto secundário dos autores de Mestro (que já foram entrevistados aqui no Bodyspace). Apesar de envolto em densidade urbana, Sauna: um, dois, três reúne tão variada quantidade de fragrâncias, que o perfume que emana sente-se invariavelmente fresco - e isto mesmo quando atrofia em algum experimentalismo mais masturbatório que se verifica a cada vez que as vozes fragmentadas inundam o disco.

Apesar de em certas alturas alcançar uma atractiva aparência quase universal o jazz que sopra Mazurek , não deve o mesmo temer por soar fácil ou tarefeiro no cumprimento da coolness caracteristicamente canarinha que usurpa caricaturalmente a Ivete Sangalo para vender cervejas. Não se sabe ao certo se será mais exigente o rubor suave que mantém estável a versátil corneta do milagroso “Pombaral” (que também mete ao barulho um estilizado batuque maracatu) ou a complexidade de um delírio free. “Pombaral” que, talvez por ser o exercício que maior número de participantes reúne, serve exemplarmente de amostra às maravilhas alquímicas que reserva o vapor composto da sauna internacional. Sauna essa que merece música adequada ao seu ambiente relaxante em “Olhossss...”, exclusivamente creditada ao núcleo duro Mazurek e Takara que provam ser auto-suficientes ao estabelecimento de um balsâmico ideário de electrónicas circulares e precursão lúcida (respectivamente).

Sauna: um, dois, três serve essencialmente como prova de que uma aventura pode, ao reunir condições magistralmente favoráveis, realmente ser aproveitada como pretexto para um grandioso happening , que só o passa a ser quando o disco conhece comercialização e então ostenta a sua amplitude de recursos. No cumprimento de um êxodo geográfico e, por consequência, criativo, Rob Mazurek conseguiu fundir o que de mais excitante são capazes de produzir as escolas de cidades musicalmente tão ricas como as infinitas Chicago e São Paulo. O infinito multiplicado pelo infinito resulta em convergências de proporções cósmicas. Por isso e pela proximidade iminente a que se encontra do estatuto de lenda, Rob Mazurek merece ser recebido por comité estipulado quando no primeiro sábado de Agosto próximo trouxer até nós toda a imensidão free do seu colectivo Mandarin Movie (que exibirá o Jazz em Agosto na Gulbenkian). Até lá, há que controlar a euforia e entusiasmo que produz a entrega demonstrada por Muzarek na associação criativa ao underground de uma das maiores metrópoles do país-irmão. Se existir realmente um subgénero que se possa designar de cross-over (miscelânea de dois universos musicais distantes, mas magnéticos), esta Sauna será das mais colossais e conseguidas propostas que esse ofereceu nos últimos anos. Muito cruel será pensar que 2006 lhe passará ao lado.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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