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KK Null
Kosmos Incognita
· 15 Fev 2006 · 08:00 ·
KK Null
Kosmos Incognita
2005
Thisco


Sítios oficiais:
- KK Null
- Thisco
KK Null
Kosmos Incognita
2005
Thisco


Sítios oficiais:
- KK Null
- Thisco
É habitual apontar o progredir lento e romantizado de O Tigre e o Dragão como principal razão para o seu parcial fracasso comercial junto do grande público asiático. A impaciência e fome de tareia não cedem margem de manobra ao enriquecimento das personagens flutuantes de Ang Lee. Os necessitados da dose diária de dieta marcial, desejam, tão imediatamente quanto possível, assistir ao despoletar de pancadaria de fazer comichão. Sendo que raramente os filmes de kung-fu puro revelam as consequências hospitalares de outro envolvido que não o herói – a esse tem mesmo de ser filmado o sangue e nódoas negras com a maior proximidade possível, como quem frisa as feridas enquanto chagas honrosas. Os acontecimentos sucedem-se com outro andamento no Japão dos filmes saídos dos estúdios Toho, celebrizado pela interminável série Godzilla. Nesses, os afectados pela tragédia dispõem de um tempo intermédio para avaliar a gravidade dos destroços. KK Null sabe exactamente onde inserir os abrigos propícios à recuperação de fôlego. Muito deve a eficácia de Kosmo Incognita ao timing exacto das suas detonações de ruído.

Estamos, pois, perante um ataque sónico cronometrado com uma astúcia metódica, um bicho virtual calibrado por um experimentalismo hostil ao ponto de provocar repúdio. Não surge isolado. A Thisco – hoje e sempre, sinónimo de risco – tratou de acasalar os lançamentos de dois colossos do noise nipónico, ao lançar num mesmo ano Dust of Dreams, assinado por Merzbow, e este Kosmos Incognita, a cargo de KK Null, que já premeditava sobre ocasos apocalípticos enquanto Zeni Geva – projecto onde a guitarra tem um papel mais predominante. Estabeleça-se Mezbow como Godzilla e KK Null como Mothra, o monstro-larva que, numa fase evoluída, passa a ser borboleta. Assim é Kosmo Incognita: uma mutação faseada de acordo com os limites do suportável (que variam de pessoa para pessoa). Entre outras impurezas, vai acumulando estilhaços recuperados a dois anos de performances que tiveram Tóquio como berço maldito. Há lugar para tudo o que for útil aos seus propósitos de mind fuck.

Mothra – KK Null - avança sem particular preocupação perante encaixe narrativo – como se o material filmado estivesse já enlatado mas por editar de forma ordenada (ainda que se encontrem delimitados os espaços para repouso cerebral). Os primeiros minutos de Kosmo Incognita encontram o computador-entidade de 2001, Odisseia no Espaço, HAL-9000, a masturbar-se sem pudor perante o aspecto curvo de um planeta por desintegrar. A partir daí a direcção sonora das texturas toma um rumo tão imprevisível quanto o da ponta da cauda do Godzilla em ritual de acasalamento: atacam destemidamente manipulações digitais saturadas, trechos de industrial totémico ocupam o lugar da ponte entre movimentações, permite ao tal recuperar de fôlego o tempo em que se mantém equilibrada uma frequência trémula de sons esparsos. Sem nunca desocupar o corpo do bicho aterrorizante, Kosmo Incognita medita sobre a desolação e morre sufocado por um curto circuito de ruído que será das coisas mais violentas que alguma vez escutei a um disco lançado por uma label nacional. Ideal para quem prefere os finais de Lars Von Trier ou Michael Haneke aos suavezinhos twists de Shyamalan.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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