DISCOS
Devendra Banhart
Cripple Crow
· 12 Nov 2005 · 08:00 ·
Devendra Banhart
Cripple Crow
2005
XL


Sítios oficiais:
- XL
Devendra Banhart
Cripple Crow
2005
XL


Sítios oficiais:
- XL
Uma barba, cabelo grande e ondulado, uma tendência para andar em tronco nu, uma maravilhosa trémula e frágil voz e uma guitarra tocada de forma despreocupada e tosca foi tudo o que bastou para fazer de Devendra Banhart uma super estrela folk em 2004. Já estamos na recta final de 2005 e, dois meses passados desde a edição de Cripple Crow, o sucessor tanto de Rejoicing in the Hands como de Niño Rojo, os dois álbuns que lhe trouxeram o reconhecimento, Devendra está, definitivamente, inserido no "mainstream do alternativo" (expressão de Nuno Proença do Bodyspace). Consegue, contudo, ainda manter o público underground e da vanguarda. Isto quer dizer que em 2004 não teve problemas em encher o Cine-Teatro António Lamoso em Santa Maria da Feira, aquando do Festival para Gente Sentada, e não teve também problemas em 2005 a encher o palco secundário do Festival Sudoeste.

O sucesso que Devendra tem em Portugal traduz-se num amor por esta terra, o que poderá levá-lo a um dia ocupar o lugar que anteriormente pertenceu a "ilustres" como os Lamb, os Guano Apes ou o Ben Harper: artistas que passam cá a vida. Aliás, Devendra gosta tanto de Portugal que até tem um tema chamado "Santa Maria da Feira" neste Cripple Crow, onde rima "pêra" com "Santa Maria de la Feira", na melhor rima latina desde que Manuel João Vieira (como Dr. Lello Minsk) decidiu rimar "álcool" com "sol" nos seus Corações de Atum. Posto isto, Cripple Crow difere dos seus dois antecessores directos na medida que é o trabalho de muita gente junta, da "Família" – expressão que Banhart encontrou para evitar a designação "free-folk" -, e não de um tipo com alguns convidados. Viajante, vagabundo, Devendra não foi à Índia, mas foi beber da música indiana, tal como o fez a banda que de facto foi à Índia e que é aquela cujo espírito este disco faz lembrar: os Beatles. Mas, ao invés de seguir os caminhos dos Oasis (que mimetizavam uma faceta específica do som dos Beatles) ou de Elliott Smith (que partia de uma faceta específica do som dos Beatles para as suas canções), Devendra segue espiritualmente os Beatles não copiando o seu som, mas sim encarnando o espírito de abertura e eclectismo que caracterizava os Fab Four pós-Rubber Soul.

Há temas onde isto é mais evidente, como por exemplo "Heard Somebody Say", um hino anti-guerra que faz lembrar os momentos mais reivindicativos de John Lennon, com um refrão que diz simplesmente "It's simple / we don't wanna kill". É um desvio das letras abstractas que são normais em Devendra Banhart, uma influência de Vashti Bunyan, que cantava sobre a natureza e os pássaros, etc. "The Beatles" só por algum tempo é que encarna os rapazes de Liverpool, com "Paul McCartney and Ringo Starr are the only Beatles in the world", mas cedo se transforma numa espanholada com flauta e namedropping de gente como Donovan, Marc Bolan e Ben Chasny (um membro da Família), acabando por se afirmar "A Six Organs me gusta a mi". Depois há brincadeiras com as vozes, ora como nos Beatles mas em espanhol ora muito infantis. "Lazy Butterfly" tem sitar e toda a vibração indiana.

Muitas das canções giram à volta de crianças. Brent DiCrescenzo, da webzine Pitchforkmedia, ligou isso a uma recente revelação de Devendra Banhart ao NME numa entrevista. Em vez de continuar com a mesma atitude infantil de falar de uma forma fantasiosa, Devendra saiu da sua personagem e confessou que tinha sido abusado pelos pais em jovem. Sabendo isso, letras como “I see so many / little boys I wanna marry” em “Little Boys”, um tema com um riff blues que depois passa pelo rock'n'roll, a soul e a pop, supostamente escrito sob a perspectiva de um hermafrodita esquizofrénico, ganham um novo significado. É que há, de facto, uma fixação por crianças, em temas como “Chinese Children”, “Long-haired Child”, “I feel like a Child”, etc. Não quer isto dizer que Devendra é pedófilo, mas talvez haja algo nele que nos esteja a escapar. De qualquer forma, é melhor ficarmo-nos pela música.

O facto de este ser um disco de uma “banda” e não de um artista pode trazer alguns detractores. Aliás, tirando algumas partes, pode-se argumentar que a magia e a intimidade que faziam Rejoicing in the Hands e Niño Rojo não existem em Cripple Crow. Mas o que se perde em intimidade ganha-se em diversidade. Ao longo de 75 minutos, há piscares de olhos a muitos estilos. Já se falou dos blues, da música indiana, mas há também folk, bossanova, rock psicadélico, pop dos anos 60 e muito mais. Há flautas, há kazoo, há sitar e percussão indiana. Há, sobretudo, um espírito ecléctico.

Cripple Crow confirma Devendra Banhart como um artista a ter em conta, mas não podemos nem devemos dar-lhe demasiada atenção. É incompreensível como é que, com tanto espaço, Devendra foi deixar a meio “Dragonflys”, uma das canções que mais se aproxima ao registo dos discos anteriores, dueto de voz masculina-feminina e guitarra. A frase “Dragonflys appear” merecia muito mais do que apenas uma repetição, porque é das melhores canções do disco e há muitas menos boas que podiam ser dispensadas. A longevidade é um problema, algo que pode retirar algum prazer da audição do disco. Mas, se aquilo que quisermos for um disco de 70 e tal minutos de um neo-hippie com ar de quem toma banho poucas vezes a cantar sobre paz com um espírito infantil, Cripple Crow é a escolha certa para qualquer dia da semana. E, mesmo que lhe demos demasiada atenção, o pior que poderá acontecer é ele voltar cá mensalmente. Os fãs do “mainstream do alternativo” rejubilarão e nunca ouvirão mais nada. Podia ser pior, podia ser muito pior...
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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