DISCOS
peixe : avião
40.02
· 23 Out 2008 · 09:32 ·
peixe : avião
40.02
2008
Rastilho


Sítios oficiais:
- peixe : avião
- Rastilho
peixe : avião
40.02
2008
Rastilho


Sítios oficiais:
- peixe : avião
- Rastilho
A banda bracarense alimenta-se de um punhado de influências anglo-saxónicas, mas consegue assinar um primeiro disco auspicioso.
Falar dos peixe : avião obriga a que se aborde a “questão Radiohead”. Para não perder tempo, arrume-se desde já o tema: para quem não sabe, os peixe : avião vêm de Braga, e criaram um considerável burburinho (à escala indie) no ano passado, com o EP de estreia Finjo a fazer de conta, feito peixe : avião. Desde logo, foi-lhes atribuído o epíteto de “Radiohead portugueses”, mas a insistência na comparação é algo exagerada. É verdade que há uma reminiscência dos falsetes de Thom Yorke na voz de Ronaldo Fonseca, bem como alguns pontos de contacto com os dois últimos trabalhos da banda inglesa, nomeadamente no que diz respeito a um certo tom dramático e à escolha da guitarra eléctrica como meio primordial de composição, com uns pozinhos electrónicos à mistura. Mas, em 40.02, os peixe : avião piscam o olho a muito mais nomes: para o bem e para o mal, são uma amálgama de influências, essencialmente pescadas ao indie rock e ao revivalismo pós-punk dos anos 2000.

Numa boa parte do álbum, é notória a sombra dos Interpol (os riffs incisivos, a bateria nervosa) ou dos Stereolab. Mas o que sobressai ainda mais é uma vontade de fazer bem, de evitar soluções fáceis dentro do caldeirão de influências, de procurar canções limadas e trabalhadas até á perfeição possível, mas com picos de intensidade. Apesar de haver estruturas diversas nas dez faixas de 40.02 (que é o tempo de duração do disco), os peixe : avião definiram um caminho claro a seguir, e por isso é possível apelidá-los de banda de composição. Logo, neste longa-duração de estreia, acertam em algumas faixas, e noutras atiram ao lado (mas sem chegar ao extremo de atirar para o ar). De uma maneira geral, isto sucede quando, mesmo que subconscientemente, o colectivo bracarense parece incapaz de se afastar de alguns dos seus arquétipos.

Claramente acima da média estão, por exemplo, a hipnótica “Frio bafio”, um belo exemplo de aproveitamento até ao limite de um riff de guitarra viciante, e a nostálgica “Camaleão”, com a voz da convidada Ana Deus. Do lado oposto, “Nortada” é uma boa ideia a que falta mais algum arrojo (o tandem de guitarras final “tresanda” a Interpol) e “Sabujo” (que poderia ser um original dos Muse) repete matéria dada. “Barbitúrica luz”, um tema vocal que parece vindo de um coral tradicional português, é um ovni e uma pérola do disco. Como já se percebeu, o vocalista dos peixe : avião canta em português, e fá-lo de uma forma, no mínimo, eficaz: a métrica é irrepreensível e as letras são um dos pontos fortes do álbum. A sua escrita dificilmente pode ser interpretada narrativamente, e funciona primordialmente por imagens, que nos dão belos nacos poéticos.

Quem espera ver nos peixe : avião a salvação do rock português está claramente equivocado, até porque ele não parece precisar de salvação. Por exemplo, reconhecemos nos dois álbuns de Linda Martini (de quem a banda bracarense é uma espécie de reencarnação mais pop) um maior número de momentos entusiasmantes do que em 40.02. E, ao vivo, ainda falta muita rodagem aos seus autores. Mas, indubitavelmente, estamos perante um projecto que vale a pena seguir com muita atenção.
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
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