Sunburned Hand of the Man / Loosers
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
19 Set 2006
Ouve-se, vindo de um velho rádio de pilhas, uma ladainha blues. Quatro homens barbudos decoram o pequeno palco da Zé dos Bois com papel dourado, pedaços de um manequim de esferovite, um espelho fosco e convexo e outras minudências. "Cabaré decadente", pensamos. Já não há música. Agora, ouve-se um choro de criança, djambés são agitados e atirados ao chão, um prato equilibrado sobre um pau de chuva gigante e vozes saturadas. Um dos homens, o de fita na cabeça, vai cambaleando, empunhando a perna do manequim. Repito, não há música, apenas sons desconexos. A intensidade aumenta e, quinze minutos depois, há ritmos intercruzados, apontamentos de saxofone e vozes esquizofrenicamente berradas: “If you wanna shoot some dope”, ouve-se. Depois, há psicadelismo a roçar o stoner, guitarras ácidas, baixo e baterias e o omnipresente saxofone. Por momentos, temos funk, directamente do Centro de Observação Alienígena do Deserto do Arizona.

A performance, não encenada, celebra a espontaneidade e o excesso. Depois, as luzes apagam-se e projecta-se o histórico The Invasion Of Thunderbolt Pagoda que Ira Cohen realizou em 1968. O filme, um dos mais dopados de sempre, é acompanhado pelo colectivo (os Sunburned Hand Of The Man são responsáveis por uma das peças que sonoriza a nova edição, devidamente remasterizada por Tim Barnes, em DVD). Subitamente e devido a um problema técnico, passa-se a Brain Damage (Ira Cohen, outra vez) e a viagem recomeça. As imagens são ilustradas por um mantra xâmanico. Aborrecemo-nos. “You're some of my favourite colonizers”, diz-se.

Antes da trupe norte-americana, os "nossos" Loosers oferecem-nos alguns dos trinta minutos mais entusiasmantes que podemos ouvir este ano. Com génese num fraseado de guitarra desenvolvido sobre um ritmo quebrado, os três músicos constroem, em crescendo, uma peça extremamente coesa e intensa. A tónica centra-se nas densidades das vozes e na pulsação dos ritmos. Ainda assim, o baixo, praticamente não é utilizado. Textura sobre textura, o ambiente psicadélico torna-se, cada vez mais, intenso. Há ritmos intercruzados, jogos proporcionados pelas percussões acústicas e electrónicas. Gritamos. Finalmente e ladeado por um drone de saxofone (sente-se a força bruta de Bormetagus), desenvolve-se um rimos pulsante, a roçar o metal mais extremo. Quando acaba, sabemos que estamos perante um dos mais inventivos e surpreendentes projectos da actualidade.
· 19 Set 2006 · 08:00 ·
Sérgio Hydalgo
sergiohydalgo@gmail.com
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