DJ Shadow
Lux, Lisboa
14 Jun 2006

Houve um tempo em que os putos indie achavam que DJ Shadow era deles. Tinha temas com Thom Yorke, fazia música instrumental, era branco e não soava nada como aqueles grunhos rappers que gostavam imenso de dinheiro e eram todos iguais e virtualmente indistinguíveis. Só que esse tempo nunca existiu, DJ Shadow é e sempre foi aquilo a que se chama em inglês hip-hop head. Não partiu do rock, não partiu do jazz, não partiu de lado nenhum que não do hip-hop (o exemplo máximo da confluência de influências e sonoridades num só estilo) para criar a sua música. Isso e sempre trabalhou com rappers, no colectivo Quannum Projects.

Portanto, é um bocado estranho ver toda a gente incrédula quando Shadow faz provavelmente a manobra mais arriscada e menos comercial da sua carreira e se vira para o hyphy, movimento da sua área da Califórnia – Bay Area. Não, não é o hip-hop da MTV, apesar de ter os mesmos valores deste (“putas, dinheiro, drogas e crime”), é algo muito mais cru e geograficamente confinado. Hyphy é uma mutação de hyperactive, e é, segundo o próprio Shadow, um “movimento cultural.”

Dj Shadow © Francisco Nogueira

Não faz sentido algum, assim, haver gente ultrajada e desiludida pelo espectáculo apresentado por Shadow no Lux. O próprio bilhete dizia “DJ Shadow presents Hyphy Movement” e não “DJ Shadow plays Endtroducing…” Desta forma, metade das pessoas que estão a vê-lo no Lux não são, de todo, fãs de hip-hop e de rap, e se se deixam levar pela vibrante loucura hyphy, é por causa de Shadow e mais ninguém, nunca estariam lá se não fosse ele, o único DJ do mundo. O Lux está insuportavelmente cheio, está um calor que não se aguenta, a noite está totalmente esgotada. Aquilo que devia ser uma festa é um concerto, facto evidenciado pelo preço alto dos bilhetes (20 €).

Shadow entra uma hora e pouco depois da hora marcada, vestido com a parte de cima de um uniforme de basebol com algumas manchas e um boné do mesmo desporto, com a sua mesma pêra irritante de sempre. É capaz de ser uma das pessoas mais mal vestidas de sempre. Começa a falar sobre o hyphy e explica que é um género que nunca foi ouvido fora dos Estados Unidos (esta é a primeira data da sua tournée), ignorando que existe uma invenção chamada “Internet” (e não “MTV”, como muita gente diz) e que essas coisas viajam com facilidade. Mas, de certa forma, tem razão, e chega a dizer no final que os MCs que traz – Keak the Sneak, Fab, Turf Talk e Nump – nunca saíram dos Estados Unidos até agora. Começa a pôr a tocar alguns dos êxitos do movimento e Nump aparece, com uma máscara muito má de Darth Vader e começa a rimar por cima da sua própria voz pré-gravada. É extremamente irritante, fala do seu amor por ecstasy e é apenas competente como MC.

As batidas, que não são de Shadow, este limita-se a passar música, são fortes e algo minimais, havendo alguns pontos de contacto com a snap music do sul dos E.U.A., obrigando a flectir os joelhos e a estalar os dedos para marcar o tempo, mas com alguma sofisticação diferente e com samples de soul de vez em quando, num género mais variado e mais hiperactivo, mais rápido que a snap music. O resto dos MCs entra depois, Nump cala-se para nunca mais se ouvir, funcionando como Bez dos Happy Mondays e, tirando o freestyle de Fab no final, sobre quererem fazer dinheiro como Donald Trump ou assim, nenhum deles é particularmente bom, interessante ou inteligente. Mas isto é música de clube, para dançar, e as palavras não interessam muito e, para o que estão lá a fazer, os MCs servem perfeitamente.

Para provar que o hyphy é hip-hop a sério, os MCs e o DJ passam, entre outros temas, “C.R.E.A.M.” dos Wu-Tang Clan (um deles diz ser uma das suas canções favoritas e aquilo que o fez pegar num microfone pela primeira vez) e “Juicy” de Notorious B.I.G., mas nunca é uma boa ideia rimar por cima das rimas de Raekwon ou de Biggie Smalls. O Lux é uma discoteca, isto nunca devia ser um concerto – devia ser algo que durasse a noite inteira, as pessoas podiam chegar e ir-se embora, passear, voltar, como fazem todos os miúdos nos concertos das séries americanas faux-indie como The O.C. ou Gilmore Girls quando vão ver os Modest Mouse ou os Shins, não é suficientemente interessante para duas horas como concerto, mas tem momentos muito bons -, pois não é, Shadow limita-se quase sempre a passar música com um scratch aqui e ali – mas sempre mostrando quem manda e como domina os pratos com uma mestria sublime -, chegando ao famigerado single de avanço do seu novo álbum, “3 Freaks”. Não é uma má canção, não é nada de realmente especial, tem um bom refrão, muito viciante, com gritos de “We need freaks!” como palavras de ordem. Toda a gente diz que esta é uma manobra comercial da parte de Shadow, ignorando o facto óbvio de que venderia muito mais discos se fizesse o Endtroducing…2.

O que temos é um DJ excepcional e quatro MCs competentes excitadíssimos por estarem fora dos E.U.A., a tocar em Portugal para um público surpreendentemente receptivo àquilo que não passa de uma experiência, nas palavras do próprio DJ. No final, Shadow verbaliza aquilo que todos estavam a pensar: que não tocou “Midnight in a Perfect World” nem “Walkie Talkie”, mas descansa todos dizendo que voltará daqui a 3 ou 4 meses para um concerto “a sério”. O que temos é uma festa interessante que durou talvez demasiado, com MCs que se nota que nunca saíram do seu país de origem, com gritos de “bitches” e “ecstasy” e outras palavras feias que apenas demonstram misoginia e toxicodependência inconsciente e ignorante. Temos um som divertido que soa ilegal e desregrado, como se todos estivessem a fugir da polícia (mais ou menos como todas as vezes que Ghostface Killah abre a boca para rimar ainda hoje e como a maioria dos membros dos Wu-Tang Clan fazia no primeiro disco do colectivo). Também ajuda à festa a alta definição do sistema de som do Lux (diz quem sabe que é dos melhores da Europa). E é relativamente fácil apreciá-la, é só flectir os joelhos e estalar os dedos ao som da batida. É bem melhor que ficar à espera do Endtroducing…2.

· 14 Jun 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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