José Cid
Royal Maxime Cabaret, Lisboa
02 Abr 2006
"Faço 29 anos e tenho esta prenda belíssima à minha frente", dizia um rapaz qualquer a meu lado. Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins, também fazia anos. Decidiu passá-los na casa de Manuel João Vieira (alguém que, curiosamente, quando se candidatou à presidência da república, prometeu "proibir a edição do novo disco dos Delfins"), a ver José Cid, alguém que o considera um sobrinho. 60 anos e tal, 50 e tal dedicados à música, senhoras e senhores, o único, o incomparável, o singular José Cid. Duas noites de celebração numa "casa de alterne", como lhe chamou, o Maxime, cada vez mais a afirmar-se como sala de espectáculos carismática da noite lisboeta.

O José Cid que apareceu nesse tal cabaret não foi o José Cid que fugia de casa nos anos 50 para ir tocar, um dos pioneiros do rock'n'roll em português em Portugal. Foi o José Cid dos clubes, das casas de má fama, mestre do piano bar, peçam um cocktail, exímio nas piadas, mas com reportório próprio e extenso. Porque há vários Josés Cid em José Cid. Há esse tal miúdo que fugia; há o José Cid do Quarteto 1111 que se dedicava a trazer a vanguarda da pop dos anos 60 e 70 e a transpô-la para Portugal, dando um cunho português à pop beatlesca ou, no final, ao rock progressivo, com reis, rainhas e castelos, ou não fosse monárquico; há o José Cid maníaco por teclados vintage e o rock progressivo dos Yes, dos Pink Floyd e dos King Crimson, como mostra 10000 Anos Depois entre Vénus e Marte, que foi redescoberto há uns tempos e cuja edição original em vinil vale muito dinheiro; há o José Cid dos festivais da canção, que cantava canções dele e de outros e representava o país (“Um grande amor”); há o José Cid da tradição popular portuguesa (“A Anita não é bonita”); há o José Cid que escrevia canções a mando das editoras para vender (“Como o macaco gosta de banana”) e agora as renega (“A Pouco e Pouco”, que se recusa a cantar); entre muitos outros Josés Cid.

Mas Portugal não vê estes Josés Cid todos. Aquando do boom do rock português dos anos 80, todos se pareceram esquecer do trabalho do Quarteto 1111 na criação de um rock português. Isto deve ter feito com que José Cid se tenha sentido maltratado e injustamente esquecido. E deve ter sido isto que o fez dizer frases como “Se Rui Veloso é o pai do rock português, então eu sou mãe”, entre outras coisas. Porque José Cid é um Big Fish, como no filme homónimo de Tim Burton. Sim, fez muito daquilo que diz ter feito, mas não, não fez assim tanto, mesmo que mereça o reconhecimento que não lhe é dado. Este é o José Cid reivindicativo e até um pouco desiludido que vemos nas entrevistas e noutros sítios. Tal como Tarzan Taborda, o lutador de luta livre português, José Cid é conhecido por esticar um pouco da verdade, mas é compreensível que o faça tendo em conta estes factores.

José Cid é infelizmente visto como o compositor de música popular kitsch e até foleira, mas mesmo aí mostra que tem talento para escrever canções inesquecíveis (no bom e no mau sentido), já que é virtualmente impossível haver habitantes de Portugal que não conheçam de cor pelo menos uma das suas canções. Mas essas canções populares são de uma abrangência tremenda, tanto pode ir às raízes da música popular portuguesa como à pop kitsch europeia, passando pelo Tin Pan Alley americano e os cabarets franceses. O próprio nega algumas das canções desses tempos, dizendo que ao longo dos anos escreveu muitas canções muito más, mas que provavelmente todos os portugueses conhecem, sendo esse um dos seus maiores feitos. Não há praticamente ninguém em Portugal que não conheça pelo menos duas ou três canções de José Cid.

O que nos traz ao Maxime, casa de má fama, representante de uma Lisboa antiga, casa que não esconde a nostalgia por outros tempos tanto com as imagens da parte de fora como com os singles de 7 polegadas que estão dispostos em vitrines, havendo até espaço para "Romântico mas não trôpego" e a sua capa, que mostra José Cid em tronco nu com vestimentas de verão do início do século XX, acompanhado de uma senhora. Cid ia dar um concerto dia 1 de Abril naquele espaço, os cartazes não enganavam, "Ontem, hoje e dia 1 de Abril", "Entre Vénus e Marte, o maior". Os bilhetes custavam 10 €. Mas cedo os responsáveis pelo espaço perceberam, talvez pelas sucessivas tentativas de reservas de bilhetes (as reservas de mesas - que são poucas - esgotaram dias antes), que havia público para duas noites. Assim, o preço subiu para 12 € e José Cid actuou duas noites seguidas no Maxime, sábado e domingo. Consta que sábado estava esgotado, com muita gente que ficou à porta. Muita dessa gente transitou para domingo.

O mestre-de-cerimónias/porteiro, com cartola e fato, irrompe pela cortina e apresenta, entusiasticamente mas com ar aborrecido, o artista. Antes, podia-se ver pelo espaço entre as cortinas uma sombra, umas pernas, etc. Seria ele? Logo José Cid entra em palco, de t-shirt e casaco preto, com a sua imagem de marca: os seus óculos de sol. Com o sorriso de orelha a orelha, conhecido de todos e a pose, senta-se ao piano. E toca uma canção adequadíssima ao espaço. É sobre uma prostituta que veio do Porto para Lisboa e "chulou" (sic) muitos homens. Nas mesas estão sentadas algumas figuras públicas, do mundo do espectáculo, do mundo da música e o presidente da Câmara de Lisboa. José Cid agradece a sua presença, não esconde a admiração por Carmona Rodrigues e comenta que deve ser a primeira vez que este visita uma "Casa de alterne". Durante as próximas três horas (com intervalo no meio), José Cid será a estrela maior de um cabaret que envolve alguns quatro vocalistas convidados que vão subindo ao palco de vez em quando. Desfilará por muita da sua carreira, pelas canções mais queridas do público.

O mesmo público que enche a casa, curioso para ver José Cid, o mito, o homem, pode estar lá pelo gozo de ver o José Cid. Para dizer a toda a gente no dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte "Eu vi o José Cid num cabaret." Está a rir-se, a divertir-se, a gostar do espectáculo. Mesmo que se ria do artista, o artista ri com o público. E, como que para provar que ninguém escapa ao homem, conhece de cor metade das canções.

"20 anos" pede para o público cantar em coro, a voz de Cid está rouca (o homem tem mais de 60 anos, acabou de dar um concerto na noite anterior) mas não desafina, mostra-se capaz de entreter, mostrando a sua competência no piano, que, não estando no seu melhor, nunca é de se deitar fora, faz scat em quase todos os temas iniciais, conta umas piadas e mostra-se genuinamente feliz por estar ali, com tanta gente, a tocar. Diversão é a palavra-chave, e existe por aqui a rodos. Afinal, estamos num cabaret, numa casa de má fama, não há nada a fazer.

Canta Rui Veloso (é bom ver que deixou de ter problemas com o tipo, mesmo que os resultados musicais disso não sejam nada de especial) e Luís Represas (em espanhol, com uma cantora galega), canta Delfins (Miguel Ângelo, que passa a noite a cantar praticamente todas as letras de Cid, tenta esconder-se quando começa a ouvir “Nasce Selvagem”, e Cid diz que a pessoa que escreveu aquela canção se encontra naquele espaço, que a canta muito melhor – Miguel Ângelo não sobe ao palco, o que parecia ser a intenção de Cid - e que é o seu aniversário, procedendo a cantar-lhe os parabéns), canta Paul Anka (em português), toca Gershwin com Dora Fidalgo, claramente a melhor voz convidada que passou por ali, a cantar, no que seria uma óptima versão de “Summertime” se não fosse a insistência de José Cid em usar um teclado com um som, não o neguemos, foleiro, toca Amália Rodrigues com um fadista de Guimarães pouco versado em mexer num microfone, que canta também “Na Cabana Junto à Praia” do próprio Cid e toca e canta sempre, confortavelmente, as suas próprias canções. Aquelas que todos conhecem, dizendo mal de algumas delas, como “Como o Macaco Gosta de Banana”, explicando que escreveu muita coisa má ao longo dos tempos, e fecha com uma canção nova, já no segundo encore, em que agradece a uma mulher por, inadvertidamente, lhe dar os melhores tempos da sua vida, adicionando que este, o do concerto, é um dos melhores momentos da sua vida e da sua longa carreira, já depois da repetição apoteótica de “20 Anos”.

A história de “A Anita não é bonita” é simples e José Cid conta-a. Na aldeia onde cresceu as raparigas não existiam em abundância. Desta forma, na sua infância e/ou adolescência, teve duas namoradas com o nome Anita. Acontece que, e nas suas próprias palavras, eram mais feias do que uma versão feminina do próprio Cid, uma delas lembrando Odete Santos e a outra lembrando Manuela Ferreira Leite. “Lá vai o Zé da Anita / chegou a noite e o Zé lá vai / a Anita não é bonita / mas acredita que a noite cai” E ambas acreditavam que a noite caía, na mata atrás do cemitério ou atrás da repartição das finanças (é aqui que Manuela Ferreira Leite entra).

“Nasci Prá Música” e “Um grande amor” (que, diga-se de passagem, perde um bocado sem o riff de guitarra no refrão) são talvez os temas que mais puxam pelo público. Não há ninguém que não os conheça, como talvez “No dia em que o Rei Fez Anos”, ou “A Lenda D’El Rei D. Sebastião”, do Quarteto 1111, que traz um teclado a emular de forma algo foleira um cravo. Todos pedem “favas com chouriço”, uma parte da letra de “A Pouco e Pouco”, segundo o próprio a sua pior canção de sempre, que ganhou novos adeptos depois de um programa de rádio e um posterior podcast de Nuno Markl a dissecá-la, mas Cid recusa-se a compactuar com aquilo e a tocar a tal canção.

Mesmo que a ordem das canções não seja esta (há misturas com temas da primeira e da segunda parte do espectáculo, mas isso tem a ver com toda a gente conhecer os seus temas), é assim que tudo se passa. Um homem de 60 e tal anos está sentado ao piano a debitar as suas canções, o seu repertório, vai contando piadas, histórias, agradecendo a toda a gente por estar ali. Por exemplo, fala da presença de Paulo Gonzo e elogia o seu último trabalho discográfico, ou explica como Portugal faz um intercâmbio cultural intenso com o Brasil (“Eles mandam-nos a música, nós mandamos-lhes o dinheiro”). O seu piano está bom e recomenda-se, do rock’n’roll ao blues e ao jazz, com bocados de honky-tonk, nada melhor para uma casa daquelas, mesmo que o som não seja o melhor (ou do facto de não haver luz nas teclas, o que torna difícil para um homem com deficiências visuais estar no seu melhor, acabando José Cid por abusar um pouco da força nas mesmas), bem como a sua voz. Ignoramos os maus sons do teclado sintético, que estragam muita coisa, ignoramos o mau gosto evidente em alguns momentos, ignoramos os erros de português em algumas das suas canções (“chamar de amor”, entre outros), mas não podemos ignorar o aborrecimento que trazem algumas das suas (e de outros, como os já referidos Rui Veloso e Luís Represas) baladas mais xaroposas.

Quer nos estejamos a rir dele ou a rir com ele, José Cid está genuinamente feliz quando está em palco, e todos se divertem, mesmo os que estão lá ironicamente, tirando nos momentos onde a falta de bom gosto é demasiado evidente, seja nos sons do teclado, nas baladas ou nas vozes convidadas. Lá no fundo, Cid deseja apenas mostrar a sua música (aquela para a qual nasceu), a música que todos conhecem, enquanto procura mostrar às pessoas a importância que teve no passado, na formação da identidade musical popular portuguesa. É um sexagenário que quer ser reconhecido, apreciado como é, que tem perfeita consciência de como é visto por Portugal, que se recusa a ser posto num saco com Tony Carreira e Quim Barreiros, que sabe que muitos se riem dele e não com ele e não quer saber. É um senhor simpático, que gosta do que faz, fá-lo bem, e só quer ser lembrado. Não quer ser esquecido e sabe que não andará cá por muito tempo. E para lá das baladas, dos pormenores foleiros, dos programas da manhã, de todas as frases absurdas que diz neles e em entrevistas, é impossível não gostar dele.
· 02 Abr 2006 · 09:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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