Sunn 0))) / Earth
Casa da Música, Porto
14 Mar 2006

No final do concerto dos Sunn 0))) um conhecido meu, habituado a música extrema, dizia-me que o que tinha acabado de ver fora “entediante”. O adjectivo não ficaria mal ao cerimonial negro que a banda de Stephen O’Malley armou na Casa da Música, não fosse o facto de as habituais apreciações musicais esbarrarem na tábua rasa que os Sunn 0))) fazem da noção de “espectáculo”. Explique-se o aparente disparate: não estivemos perante música para ouvir, mas antes ruído bruto em figuras monstruosas, montanhas de décibeis e subgraves com efeitos físicos no público. A beleza surgiu por vias erradas e quase pecaminosas, na vertigem do horror instalado.

As raízes metal dos Sunn 0))) mostravam-se um pouco por todo o lado: nos hábitos monásticos que os dois membros (O’Malley e Greg Anderson) e os três convidados (Tos Niewenhuizen, dos Beaver e God, no moog: Mark Deutrom, ex-baixista dos Melvins; e Malefic, dos projectos a solo Xasthur e Twilight) envergavam; na boa fatia de público colorido de preto misturada com a facção indie/avant; nos chifres e gestos ameaçadores que a banda fazia compassadamente; nos gritos black metal de Malefic, uma das vozes do último “Black One” (2005). A banda homenageia o metal e simultaneamente subverte-o, gerando uma das experiências mais interessantes e verdadeiramente experimentais dentro da cena avant mundial.

Sunn 0))) © Organização da Casa da Música

A hora e meia de concerto dividiu-se em duas partes. Na primeira, os Sunn 0))) surgiram mais descarnados, ainda sem Malefic. Foi o momento mais belo do concerto e uma das mais intensas experiências sonoras de que há memória no Porto (Hototogisu e Merzbow também estão nesse top): “riffs” lentíssimos, saturadíssimos por uma paleta de graves, construíram uma atmosfera densa e impenetrável, propícia a imagens mentais como o som da matéria no espaço em ebulição ou ao magma da Terra.

A entrada do vocalista mudou bastante o som do grupo, que passou a centrar-se mais na voz, apesar da abstracção global da peça. A interpretação de Malefic, que gritava imperceptivelmente, à boa maneira do black metal, acabou por tornar-se desinteressante ao fim de longos minutos. No final o grupo ergue uma parede de feedback (beleza extática) que cai abruptadamente: fica o silêncio e uma sensação de alívio estranha nos ouvidos, como que a avisar-nos da pressão a que estiveram sujeitos.

Antes dos Sunn 0))), estiveram os “pais” da onda drone da qual os Sunn 0))) são os máximos e mais interessantes representantes. Os Earth, de Dylan Carlson, editaram no ano passado um bom disco de regresso - Hex; Or Printing In The Infernal Method, mas não souberam transpor a placidez instrumental Ry Cooder/Neil Young para o palco.

Earth © Organização da Casa da Música

Foram interessantes em alguns momentos, sobretudo quando se libertavam do esqueleto do tema (quase sempre um riff repetido vezes sem conta), mas não evocaram nem a beleza de Hex ou dos primeiros tempos do grupo (nem sombra do soberbo Earth 2). Serviram de curioso aperitivo para os Sunn 0))). A noite demonstrou um dos raros casos em que o aprendiz ultrapassou o mestre.

· 14 Mar 2006 · 08:00 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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