Ao Vivo The Weatherman

publicado em 16 Fev 2006 - 08:00

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The Weatherman
O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, Porto
16 Fev 2006

No chove-não-chove, faz-sol-e-não-faz-sol da tarde de Gaia do dia 16 de Fevereiro do ano que corre, pouco depois das 17 horas, fez-se notar nos céus um arco-íris (metade para ser mais correcto, a outra metade estava encoberta pelas nuvens) com tons de exuberância. A natureza tem formas estranhas de exibir os seus pressentimentos – parecia saber que mais tarde (umas seis horas mais tarde), Alexandre Monteiro (a.k.a. The Weatherman), natural de Gaia, entraria com a sua banda em palco d’O Meu Mercedes é Maior Que o Teu com a sua banda para a estreia do projecto que viu ser editado em Janeiro de 2006 o disco de estreia, Cruisin’ Alaska. Para os mais desatentos, The Weatherman é a certeza pop para 2006 com bilhete de identidade nacional – e será complicado destrona-lo. Cruisin’ Alaska era então apresentado pela primeira vez numa sala cheiíssima, repleta. Canções multicolores solarengas para gente feliz.

© Carlos Oliveira

O desafio para este texto é grande; evitar repetir demasiadas vezes as palavras “solarenga” ou “solarengo”. O desafio de Weatherman era igualmente grande. Alexandre Monteiro escreveu e tocou o disco sozinho (com a excepção de uma ou outra voz aqui e ali) e agora, mesmo tendo uma banda a acompanha-lo, tinha de trazer para os concertos o som cheio e detalhado de Cruisin’ Alaska; as canções com travo a Beatles e Beach Boys, com brilho, canções que resultam por vezes do corte e costura de várias secções (à boa maneira dos Beatles). Para isso, ao longo dos últimos tempos, Weatherman recolheu aqui e ali André Tentúgal (na voz e na guitarra eléctrica), Rui Valentim (voz e baixo), Pedro Marques (nos teclados), Tiago Fontes (bateria e voz). Após alguns momentos para ultimar os preparativos, arrancou-se para “About Harmony” e logo ali se percebeu que, apesar do nervosismo inicial (que tardou em desaparecer), as canções sobrevivem perfeitamente ao vivo. Com um extra: a inocência da primeira vez.

Logo a seguir, “Keep up the Good vibes” – em terrenos positivamente Beach Boys – continuou o teste que o final de “About Harmony” mostrou seriamente pela primeira vez: as vozes. E muito vivem as canções de Weatherman das vozes. “Looking for guarantees” mistura pianolas de tom clássico, vozes de soldados e ambiências um pouco mais intimistas. Em “I Sustain” ganha revelo a percussão quase tradicionalista (a fazer lembrar Fausto no seu último disco), o piano e a capacidade melódica. Mas se é de melodia que se trata, “If you only have one wish” (onde se pode ouvir a frase “If you only have one wish, better make it big”, gentilmente cedida por Timothy Leary) leva o prémio para casa. Além de ser uma das melhores faixas de Cruisin’ Alaska, foi uma das melhores canções apresentadas ao vivo. Começam as minudências electrónicas, depois vem um “one, two, three, four” de arranque e depois surge um riff diabólico que para depois mas apenas para voltar mais tarde. Pelo meio as guitarras assumem papel de relevo e dá quase vontade de acompanhar com palmas.

© Carlos Oliveira

Pouco depois Weatherman apresentaria três novas canções (uma delas sozinho, na guitarra acústica). “Floating Downwards”, “Dragonfly” e “Anyway” deixaram a sensação que uma nova colheita de canções para próximo disco não ficará atrás de Cruisin’ Alaska. E porque de Cruisin’ Alaska só a curta “”Intermission (Lead me out) e “Sierra del Sol” não conheceram roupagens live na estreia, Weatherman havia ainda de apresentar “The Meaning of Soul” (que mesmo sem as iniciais ambiências hipnotizantes que surgem no disco disco faz lembrar os Led Zeppelin acústicos de “The Rain Song”), “Down to the bits”, “One of us is the observer” (com final em crescendo apoteótico), a cadente “Cosmic Life” , “People Get Lazy” (o single orelhudo que apesar de apresentado sem a voz feminina que surge na versão original respira mais do que saudavelmente em concerto) e, a fechar, “In front of me”, cool as cool can be - tanto que se abre a excepção para usar pela segunda vez a palavra solarenga.

Foi tal e qual como referiu o próprio Alexandre Monteiro (chamam-lhe homem do tempo, dizem que prevê o tempo através dos seus dotes e conhecimentos de meteorologia) a dada altura do concerto: “apertem os cintos; vamos cruzar o Alasca”. Foi uma viagem experimental (com bilhete a 3 euros) pelos terrenos da pop na mão dos cinco músicos. É imprevisivelmente nacional, mas logo perfeitamente apreciável. Pop fresca e descomprometida. Como há pouca em Portugal.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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