ENTREVISTAS
Casiotone For The Painfully Alone
Sair da toca em quatro tempos
· 29 Mai 2006 · 08:00 ·
Poucos nomes serão tão ilustrativos quanto aquele que Owen Ashworth escolheu para ser o seu cognome musical. Transparente, auto-suficiente, altamente e democraticamente indie, e com emotividade suficiente para não ser esquecido por entre outros escolhidos puramente ao acaso. Casiotone for the Painfully Alone funciona como um espelho. E é sob este pseudónimo que Owen Ashworth, em tempos estudante de cinema, lançou já quatro discos entre 1999 e o ano que agora corre. Os três primeiros obedecendo a uma estética muito própria (que sempre pareceu suscitar opiniões distintas) onde os teclados são as figuras principais; o quarto e último, Etiquette, partiu dessa estética para ampliar a palete sonora (a produção é também mais ampla), naquilo que é o passo em frente que provavelmente se esperava que Owen Ashworth desse – sair da toca e mostrar os dentes. De seguida, Owen Ashworth, o próprio, responde a algumas perguntas por demais legítimas.

Estudou cinema e depois saiu da escola. Quando e como decidiu que queria fazer música em vez de cinema?

A música era muito mais barata de fazer do que os filmes e eu podia fazê-lo por mim próprio. Fiquei cansado de esperar por dinheiro e actores e editar e tudo o mais para fazer com que as minhas histórias fossem contadas. A música era espontânea e disponível e intima e os meus únicos compromissos eram as minhas próprias limitações.

Acha que os seus conhecimentos em cinema trouxeram algum valor acrescentado à sua música?

Eu escrevo canções a partir de uma perspectiva muito visual, e o cinema é o meio pelo qual eu estou mais inspirado. Talvez seja mais interessante para mim fingir que as minhas canções são filmes.

Casiotone For The Painfully Alone é um nome autobiográfico?

Não, é Casiotone for the Painfullly Alone, e não by the Painfully Alone. É suposto ser reconfortante e não confessional.

É um coleccionador de teclados? Porque eu sei o quão loucas as pessoas podem ficar por teclados…

Eu tenho provavelmente uns vinte teclados diferentes, e talvez dez desses funcionem realmente. Tenho um mau hábito de comprar novos teclados para substituir os estragados e nunca me livrar dos estragados. Vou no meu sexto SK-1.

Os seus três primeiros discos foram feitos apenas com teclados e electrónica gravados para 4-pistas. Como é que essa aproximação à música começou pela primeira vez?

Foi uma experiência. Estava a tentar a ensinar-me a mim próprio como ser um bom escritor de canções ao usar todo o tipo de regras rigorosas e limitações para, com esperança, inspirar alguma ingenuidade. Adivinha? Resultou!

Algum do trabalho inicial do Devendra Banhart foi gravado num 4-pistas. Ariel Pink’s Haunted Graffitti gravou sempre dessa forma, e provavelmente sempre o fará. Aprecia ambos
?

Eu tenho o primeiro álbum do Devendra Banhart e gosto dele. Tenho um duplo CD do Ariel Pink e gusto dele também. Não ouvi muito mais vindo desses tipos, apesar de tudo.

Há algo nas gravações 4-pistas e nas gravações lo-fi que me remete directamente para o Jandek. Há algo de solitário e de reclusão nisso. Concorda?


Gosto da ideia de intimidade como uma estética, e eu sempre me senti atraído a gravações que soem claustrofóbicas. Adoro gravações que definem uma imediata relação espacial com o ouvinte. Nebraska do Bruce Springsteen, Suicide dos Suicide, Young Marble Giants dos Young Marble Giants e There’s a Riot Goin’ On pelos Sly and the Family Stone todos têm uma dimensão e uma dinâmica que eu tentei repetir nas minhas próprias gravações.

No seu quarto álbum, Etiquette, decidiu expandir o seu som e ter uma produção mais ampla. É Etiquette o álbum que nunca tinha tido a coragem de fazer?

Era o meu plano fazer três álbuns usando o mesmo conjunto de regras e restrições. Fiz um bocado de batota pelo caminho, mas quando acabei Twinkle Echo, estava satisfeito por ter acabado a experiencia e por poder fazer aquilo que me apetecesse. Flautas! Pedal Steels! Batidas house patetas! O melhor amigo a cantar em vez de mim!

Etiquette conta com a produção e música de gente como Jherek Biscoff e Jason Quever. Presumo que esta tenha sido a primeira vez que aceitou convidados nos seus discos. Qual é a contribuição deles para este novo disco?

Todos os álbuns tem tido convidados. O Jason tocou no segundo álbum e o Jherek tocou no terceiro álbum. Eu teria adorado ter o Jherek a tocar em muito mais faixas do Twinkle Echo, mas simplesmente não havia suficiente tempo e dinheiro para fazer isso. O Jherek e eu discutimos bastante os arranjos para o Etiquette, e muitas das canções foram escritas com a amizade musical com o Jherek em mente. Acho que ele foi de certa forma a minha musa. O Jherek e o Jason foram ambos óptimos a apresentarem novas ideias e desafios e fizeram muito para moldar as minhas melodias e progressões de acordes e batidas da bateria em jams cheias. O Jherek e o Jason admiram muito o trabalho um do outro, também. Eles estavam ansiosos por ouvir aquilo que eu tinha trabalhado com o outro, e eu acho que havia uma competição saudável entre eles. Gostava muito de leva-los comigo para o estúdio para o próximo disco. Eles são ambos grandes músicos e produtores com estilos totalmente diferentes.

Tem também contribuições de voz de Sam Mickens, Jenn Herbinson e Katy Davidson. Porque a escolha de dar voz a tantas pessoas?

Ao usar diferentes cantores reforça a ideia de usar diferentes personagens. Eles são como actores, representando partes diferentes. Além disso, eles podem chegar a certas notas que eu não consigo. Além disso, é divertido. Adoro escrever para outros cantores.

Gosta realmente de Creedence? Porque faz todo o sentido e explica de alguma forma a sua sensibilidade pop…

Se eu adoro a banda Creedence Clearwater Revival? Sim, adoro. Eu cresci com os Creedence Clearwater Revival. O John Fogerty tocou no regresso a casa do meu pai. A canção “I Love Creedence” é sobre, entre outras coisas, a forma como o Saul Zaentz e a Fantasy records roubaram as canções do John Fogerty para longe dele.

Casiotone For The Painfully Alone é mais sarcástico ou mais dramático? Como é que concilia ambos?

Eu não utilizaria nenhuma dessas palavras para descrever a minha música. Em especial não sarcástico. Sarcástico soa horrível.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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