ENTREVISTAS
Live Low
Por este Portugal acima
· 06 Dez 2016 · 22:31 ·
Em constante metamorfose, de Ghuna X para Live Low, Pedro Augusto transformou o seu mais recente projecto em banda fazendo-se agora acompanhar permanentemente de Gonçalo Duarte (Equations), Miguel Ramos (Torto, Naco) e ainda Ece Canli, jovem turca que entoa re-interpretações de parte do cancioneiro tradicional português. Toada é o título do novo LP de Live Low, editado pela Lovers & Lollypops, que desenha um dia de trabalho através de cantigas desde o amanhecer até ao lusco-fusco. Dos originais (e de onde vêm os tradicionais?), muitas vezes recolhidos por Armando Leça, Lopes-Graça ou Giacometti, pouco resta senão a cadência. Parte-se sobretudo de uma ideia de música e jamais de uma composição musical rígida. O que é isto da música portuguesa? O que é isto de ser português? Como é que se pensa, através da própria música, a música tradicional portuguesa hoje?
© Tiago Frois
Como surgiu Live Low em formato banda?

Primeiro foram duas canções. São assim dois pequenos EPs, que têm configurações diferentes e têm participantes diferentes. Portanto, à partida já não era só eu que estava ali na equação. Eu já queria fazer uma coisa que envolvesse outros músicos. Nos primeiros EPs, a participação é maioritariamente minha, obviamente, e as outras pessoas participaram enquanto convidados, não estiveram envolvidos propriamente em todas as decisões que foram feitas sobre aquilo. E aqui, no Toada, claramente a coisa é feita a quatro cabeças de início a fim. Portanto, a relação foi super diferente. Uma coisa foi eu ter maquetes de música feitas como aconteceu nesse primeiro EP e convidar alguém (Ricardo Miranda, por exemplo) para entrarem. Outra coisa é nós começarmos o disco, o Toada, que começamos os quatro há dois anos. Não me lembrei de repente de convidar o Miguel ou o Gonçalo para entrar numa música. Foi elaborado desde o início pelos quatro.

Quais as principais diferenças que sentiste?

É completamente diferente e era esse o desafio. Eu queria delegar, queria ser surpreendido também, não queria ser totalmente responsável por uma coisa. Havia uma ideia com este disco, uma ideia na mesa, e a ideia partiu de mim, mas agora como é que ela ganha forma, qual é a evolução dessa ideia? A partir do momento em que ela está lançada, foi feita pelos quatro, e foi feita maioritariamente no tempo em que nós estávamos juntos. Não estávamos propriamente a experimentar coisas, estávamos à procura mas não estávamos propriamente a planificar. Isso é um processo que implica discussão, estar em actividade mental constante, em debater como é que as coisas se vão concretizar.

Optaste por fazer uma aproximação à música tradicional portuguesa ou ao imaginário tradicional português. Fizeste algum tipo de recolha nesse sentido?

Sim.

Essa ideia parte de ti?

Sim, essa sim. Foi um desafio que eu propus. Tentar perceber qual é a identidade da música portuguesa no geral mas também como é que nós, enquanto quatro músicos do século XXI, olhamos para essa herança. Estou a falar do cancioneiro da música tradicional portuguesa, do Armando Leça, do Michel Giacometti, mas quisemos incluir outras coisas que para nós tinham o mesmo significado do cancioneiro: o Zeca Afonso, o José Mário Branco ou o Fausto.

No fundo, esses próprios autores já vão beber ao cancioneiro...

Exactamente. Tenho sido um consumidor frenético de música portuguesa nos últimos anos mas desta música portuguesa, desde que há gravação, desde que o Armando Leça foi para o Alentejo gravar até ao Giacometti correr o país inteiro, até à segunda fase de música regional portuguesa que é trabalhada pelo Grupo de Acção Cultural, pela Brigada Victor Jara, pelo Vitorino, pelo Fausto, pelo Zeca. Portanto, nós não quisemos só ocupar-nos do que é o repertório tradicional na sua essência mas também olhar para outras coisas e dar-lhes o mesmo valor, dar-lhes importância. Coisas que aconteceram nos anos 70, coisas que aconteceram nos anos 80.

Mas como é que chegas a esta ideia?

Havia a proposta de encontrar uma identidade da música portuguesa. Como é que soa a música portuguesa? Como é que são as vozes da música portuguesa? Qual é a cor geral da música portuguesa? Isso era o primeiro ponto. Idealmente era criar uma peça que traduzisse mas não vale a pena ser presunçoso… Olhando para todo este espólio, pegar nesta coisa do Giacometti, que nós achamos simbólica, nesta coisa do Fausto que achamos simbólica, fazer essa pré-selecção e colocar as mãos nesse material. A segunda parte passou por perceber como é que nós, num contexto sócio-cultural político em que estamos (montes de coisas tinham um intuito político) e com os instrumentos da nossa época, trabalhamos isto. Primeiro houve uma parte de selecção e depois houve outra parte do processo de criação.

O surgimento da voz em segundo plano foi uma opção consciente?

Eu acho que há tendência em olhar para a voz como segundo plano porque ela não surge da maneira convencional, o que não é necessariamente uma delegação para segundo plano. Ouves uma música como o Sol em que a voz é claramente o elemento principal, se tivermos que estabelecer uma hierarquia. Mas essa hierarquia não existe de maneira nenhuma, não podes dizer que a guitarra é predominante no disco ou a voz.

Mas adquire formas muito distantes, se quiseres, daquilo a que estamos habituados, naquilo que seria uma versão mais corrente dessas canções e isso é propositado.

Isso é propositado. A música do Fausto, que é equivalente para os quatro, é uma música super especial e é do género à portuguesa. Quando estás a mostrar alguma coisa a alguém percebes até que ponto é que aquilo tem um impacto nessa pessoa e a gente deixou-se totalmente levar pelo Por Este Rio Acima e por essa música em particular. Sobre essa música, eu nunca pensei que aquilo pudesse ter a letra porque não achei que fosse preciso. A essência da própria música do Fausto não é só a letra. Ou por outra, claro que é, eu acho aquilo brilhante porque aquilo parece uma declaração de amor a uma seara. É um conceito muito especial. Mas muitas vezes as ideias não têm que ser tão literais. Não é o facto de eu dar o nome a música por exemplo "Tu és o meu amor", não é por isso que a música que vai ser feita tem que ser uma música de amor. Outro exemplo, se eu chamo uma música “Coca-cola”, não vai ser, por isso, uma crítica ao capitalismo. Não é por aí.

© Tiago Frois

Estava a falar mais a nível estético, havia uma proposta, apesar de vocês partirem deste cancioneiro há um desvio...

Se pensar na voz começo a ver os momentos do disco em que a vejo e nessa música do Fausto [Lembra-me um Sonho Lindo] a voz aparece como um instrumento. Claro que podia ser uma flauta, -há até uma parte da música que a voz substitui a flauta da música original-, mas o modo como estão articulados a voz e o registo último daquilo… É uma espécie de plano etéreo que a música também tem. Ou seja, não é só um arranjo, é também uma maneira de fazer. Aquela maneira de fazer foi escolhida porque era a que se adequava mais ao mood, ao espírito, à magia da música.

Há pouco perguntava-te como é que pessoalmente encontras o cancioneiro tradicional português, ou quando é que existe esse confronto, quando é que te apercebes da importância que ele pode ter, até no teu processo de criação. Quando é que existe esse confronto? Apesar de tudo é menos conhecido e reconhecido do que seria suposto.

Hum… Não sei bem quando é que foi. Uma coisa é tu encontrares esse material, isto é estares a ler um livro e alguém te fala deste tipo ou estás na internet a ver alguma coisa no Youtube e aparece como sugestão Giacometti, etc. Outra coisa é estares no momento espiritual para isso ter algum efeito sobre ti e tu pensares “espera lá... agora finalmente olhei para isto com uma atenção especial, com outros ouvidos”. Isso provavelmente surgiu momentos antes de decidir fazer um disco.

No outro trabalho, partes do cinema, de um filme, para a criação do disco, neste aqui partes da própria música...

O filme era não só motivo para o EP mas também para o próprio projecto. Aconteceram várias coisas com as quais eu me deparei que pesaram, que podem mudar a tua vida e que pode ser desde leres um livro, veres um filme, etc. Neste caso foi pensar neste filme, foi ouvir o disco do Lomax. É saíres à rua um dia e olhares para o teu mundo e achares que é horrível, que não há esperança ou que não há futuro. Isso foi claramente o elemento gerador do projecto. Depois o projecto tinha que ganhar forma e para começar a ganhar forma decidi escolher materiais. O Toada é esta mesa aqui que está ao nosso lado, que tem determinados elementos, tem determinados materiais: um deles é o cancioneiro, outro é Portugal e outro somos nós os quatro. E é assim que se dá. Já a mesa de materiais para o primeiro EP é constituída por elementos concretos, reais, que são pedras, madeiras, canas. Coisas que eu tenho e que relaciono com o trabalho. Coisas que vêm do campo para a cidade. Vivo num contexto claramente citadino mas tenho aqui acesso, como sempre tive desde a minha infância, a materiais que não são deste universo mas que me despertam interesse e me fazem querer fazer alguma coisa com eles. A ideia do Toada é mais espiritual e a do primeiro EP é mais concreta e empírica de certo modo. A diferença deve estar aí.

A emergência de projectos que cruzam a música portuguesa tradicional e que vai ter um bocado ao que nos estamos a falar, com a música experimental. Como se olha para o tradicional a partir do contemporâneo? Como é que se cruza estas formas aparentemente tão diferentes?

Há aí várias coisas. Uma delas tem a ver com uma pergunta que me fizeste há bocado. Foi muito engraçado durante o processo, quando nós estávamos a escolher as músicas ou as peças que íamos fazer, já estávamos a fazê-las na verdade. Procurei mais um bocado e encontrei versões de outros artistas das mesmas músicas mas numa fase posterior. Percebi que o Adriano tinha feito uma versão da Rosa… Não! O Zeca tinha feito uma versão da Rosa, o Adriano tinha feito uma versão de uma outra música qualquer, o Vitorino tinha feito uma Laurinda e foi muito engraçado perceber o que é que este músico fez com o mesmo material, que era totalmente diferente.

Porque tu neste caso foste mesmo aos originais… Quando tu trabalhas sobre a Laurinda é sobre a original e nunca sobre a Laurinda do Vitorino.

Sobre a Laurinda original que é do Giacometti, Laurinda algarvia. Outra possível diferença entre aquilo que nós fizemos no Toada e aquilo que é feito por esses projectos que misturam o tradicional com o contemporâneo foi o facto de nós não usarmos o material em si, não usamos o repertório, não usamos samplagem, não usamos um bocadinho da voz original. Foi sempre pensar na nossa versão da coisa.

© Tiago Frois

As estruturas não têm nada a ver com composição original? A vossa base é mais uma vez conceptual, sobre as músicas, e menos ou nunca sobre a estrutura composicional em si?

Sim.

Mas dizias que foste descobrindo versões de outros autores...

Descobri versões que são muito aproximadas ao original, com arranjos, que vou menosprezar mas são mais óbvios, que usam elementos tradicionais e que tornam a coisa mais complexa mais orquestrada mas que não se afastam muito do original. Não criam harmonias mais estranhas, não criam tempos mais estranhos. São trabalhadas com outros elementos paralelos, com contemporâneos do mesmo imaginário. Nós não, nós quisemos fazer versões das coisas à imagem das nossas personalidades, dos nossos gostos, e também com os materiais a que nós temos hoje acesso.

Por isso falava dessa ideia de pensar a música fazendo música. São as vossas ideias sobre determinados temas… São as vossas ideias sobre aquela música.

Sim. Por exemplo, é muito estranho tu pensares fazer uma versão de uma música tradicional com um sintetizador modular. São universos completamente distantes e esse também era o desafio. É quase como quando a Wendy Carlos fez um disco que é só Bach tocado em sintetizadores MOOG.

O Giacometti grava sobretudo canções de trabalho. Essa ideia de trabalho foi importante para vocês?

A cena do trabalho é a relação formalmente mais directa na música, que é a pulsação da música. São sempre ritmos muito lentos e já desde o primeiro EP que existe isso. Pode ser o paralelismo com caminhada, com andar, é aquele tempo. É a pulsação da tua corrente sanguínea e é também o ritmo do trabalho. O ritmo do trabalho é muito espaçado… Se tu pensares em alguém a cavar um terreno acontece assim. Não é regular porque é feito por humanos, tem sempre ligeiros atrasos e isso traduziu-se em ritmo. Acho que a cena do trabalho está lá, claramente.

É curioso falares disso do trabalho, da pulsação, do caminhar. Recuperas uma ideia de performance que também existe no primeiro EP.

Sim. Houve montes de escolhas que foram feitas durante o processo do disco, que em termos de edição nós podíamos corrigir. Gravamos takes muito longos que estão sujeitos, se estiveres a tocar a mesma coisa, a montes de flutuações que nós mantivemos porque isso tem muito mais a ver com o que é, na prática, o trabalho, com o que é ritmo humano contrariamente ao mecânico.

Nos concertos vão tocar o disco integralmente?

Sim, tocamos o disco integralmente. Só não tocamos um e isso obrigou-nos a fazer ajustes porque, por exemplo, há temas que não têm guitarra, outros que não têm voz. Com os ajustes tentamos contemplar todos os elementos do grupo para todas as músicas.

No CCOP e no Musicbox tocaram com convidados também.

Também tocamos com convidados para fazer outros arranjos. Por exemplo, a música do Fausto tem mais do que quatro instrumentos, então convidamos alguém que faça o quinto ou sexto instrumento. E também para nos sujeitarmos a experiências novas, a criar relações, porque o disco não está fechado. É um organismo vivo e nós não temos que cumprir nenhum protocolo.

Uma das canções é uma apropriação do poema do Alberto Pimenta, lida pelo Nuno Moura. Qual é a relação com a poesia e como é que entra neste disco?

Sou responsável por isso. Achava interessante ter o lado etnográfico, como tens na música Sol, que é uma coisa super singela mas muito datada, e confrontar isso com material literário mais actual. O Alberto Pimenta é um escritor que pode ser contemplado neste universo porque é único, é tão único como aquele outro texto do tema Sol. Passou também por uma tentativa de ligar universos temporais, traçar quase desde os anos 50 até aos anos 00, passando por várias fases. Já tinha trabalhado com o material do Pimenta em projectos com a Ana Deus, com o Nuno Moura. Já era recorrente de algum modo. Conheço o Nuno há muito tempo e estava à procura de um texto para aquela música. Encontrei este e achei que fazia sentido. O disco é uma espécie de barra cronológica, temporal. Como se começasse no Amanhecer. Portanto, levanta-se, trabalha-se, regressa-se para descansar e depois deita-se. O original da última música, que é a Deus te Salve ó Rosa, não tem nada a ver com ir dormir mas a forma que aquilo ganhou com a voz da Ece, com aquele sussurro, torna-a numa música de embalar. Antes dessa vem também a música que tem o texto do Pimenta que fala sobre o Amanhã, que vai ser a mesma coisa portanto é circular. Tentamos criar o ciclo do dia.

Que questões é que este disco te trouxe e que podes vir a trabalhar?

Primeiro, o confronto. Uma coisa muito técnica que consiste em confrontar baixo eléctrico, voz, electrónicas. Esse confronto e essa mistura não são muito fáceis de fazer e para mim, um gajo que trabalha com som há muito tempo, aquilo é interminável em termos de possibilidades. Pode ser muito explorado e é um desafio chegares a algo que seja harmonioso em termos de combinação de registos. Outra coisa tem a ver com o facto de ser incrível trabalhar com outras pessoas e nenhum ser o elemento ditador na resolução das peças e dos temas. Não estar só em ti a decisão de escolha. Há dois desafios agora para mim: primeiro é ter mais material, continuar o Toada, ir buscar algumas referências mas se calhar procurar outras ou colocarmo-nos à prova e vamos ver o que é que surge. Outra coisa é fazer um disco partindo de composições propostas por músicos convidados e sobre as quais nós vamos trabalhar a seguir.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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