ENTREVISTAS
James Blackshaw
Movimentações incorpóreas
· 09 Nov 2005 · 08:00 ·
Apesar de viver em Londres, James Blackshaw é herdeiro legítimo do legado de John Fahey e Robbie Basho – audições atentas aos seus discos dirão o mesmo. É mais um dos nomes a ter seriamente em conta no que diz respeito ao fingerpicking que se anda a fazer por aí em jeito de seguimento e recuperação dos ensinamentos dos mestres. A maneira como James Blackshaw trabalha e se funde com a guitarra de 12 cordas em Celeste e em Lost Prayers and Motionless Dances (ambos editados em 2004 via CD-R) já chamou a atenção de muita gente e agora o guitarrista britânico tem previsto para 2006 o lançamento de O True Believers pela Important Records, disco onde se espera confirmar tudo aquilo que se prometeu até aos dias de hoje. Certo é que o seu nome fica já muito bem junto de nomes como Glenn Jones, Jack Rose e Ben Chasny e os seus discos não envergonham ninguém se ficarem junto dos discos dos seus parceiros. A conversa com James Blackshaw revela o inicio da sua ligação com a música e com o fingerpicking, assim como a sua imagem que tem do seu próprio país e até de Portugal (James Blackshaw actuou este ano no Porto, em Famalicão e em Lisboa com Josephine Foster). Aconselha-se por exemplo Celeste do próprio como companhia de leitura. Ou The Falconer's Arm, Vol. 1 de Robbie Basho. Ou The Transfiguration of Blind Joe Death de John Fahey. Ou o silêncio.
Quando é que se deu o teu primeiro contacto com a música? Estudaste guitarra?

Os meus pais compraram-me uma guitarra eléctrica barata quando eu tinha 10 anos – foi a melhor prenda de aniversário que alguma vez tive. Gostava de muitas cenas de rock dos anos 60 e de cantautores que a minha mãe e o meu pai tinham na colecção de LPs deles, como os Rolling Stones e Harry Nilsson. Nunca tive lições de guitarra, mas tive uma mão cheia de lições de piano quanto tinha cerca de 8 anos de idade. Achei aquilo terrivelmente aborrecido e desisti muito rapidamente! Passávamos horas a estudar música de pautas e a aprender escalas que eu há muito tempo esqueci. Havia um poster de um gato na parede que dizia ”Practice Makes Purr-fect”. Acho que queria escrever as minhas próprias canções já na altura.

Como e quando é que a inclinação em direcção ao fingerpicking e a guitarras de 12 cordas teve efeito? Presumo que pessoas como o John Fahey, Robbie Basho e Leo Kottke e as gravações da Takoma tenham sido uma inspiração para ti…

Um amigo meu mostrou-me o John Fahey quando eu tinha 16 anos. Foi uma daquelas coisas vindas do nada e, nem vale a pena dizê-lo, nunca tinha ouvido nada como aquilo na altura. Mas como alguém que tocava guitarra, achei muito interessante a forma dele de tocar e tive a sorte suficiente de o ver a tocar ao vivo um pouco antes de ele morrer. Alguns anos depois, o meu interesse no fingerpicking surgiu de novo e eu dei por mim a mergulhar no catálogo da Takoma e a ouvir discos antigos de country-blues. Quando ouvi o Robbie Basho fiquei simplesmente maravilhado – ainda fico – e comecei a treinar como um doido. O meu interesse nos blues nessa altura desvaneceu-se de certa forma e dei por mim a extrair a maior parte das minhas influencias de compositores clássicos modernos, música Koto japonesa, ragas da Índia do Sul, música folk iraniana, psicadélia e do meu amor pelos drones!

John Fahey, Robbie Basho, Leo Kottke e Peter Lang, Glenn Jones, Jack Rose e Ben Chasny são todos da America e tu és de Londres – só o Steffen Basho Junghans é da Alemanha. Na tua opinião, quais são as implicações desse facto?

Não tenho a certeza. Acho que me sinto um outsider em certos aspectos. Não acho que os meus arredores imediatos – que são completamente suburbanos – tenham um efeito tão grande na minha música, embora eu possa estar enganado. Quero dizer, a minha música não vem certamente da tradição de música folk britânica e, para ser honesto, nunca me interessou muito. Mas há certamente um grau de distância que eu sinto que, tenho a certeza, outras pessoas também podem sentir enquanto ouvem os meus discos.

Como é que as pessoas no Reino Unido vêm a tua música?

Acho que provavelmente sou menos conhecido no Reino Unido do que noutros países, mas as pessoas são sempre simpáticas e parece haver um crescer de consciência em relação a esta esfera de música. Mesmo há um ano ou dois atrás, seria impossível andar em tour pelo Reino Unido fazendo o que eu faço e apenas um pequeno grupo de pessoas muito dedicadas tinham ouvido falar das pessoas que mencionaste. São tempos bastante excitantes para se viver, mas há algo de desconcertante acerca desta nova tendência “weird folk” que parece estar a acontecer – está destinada a morrer mais tarde ou mais cedo.

Além de tocar guitarra, nos teus discos, usas também o órgão farfisa, címbalos e outros instrumentos. Sentes a necessidade de expandir o teu som recorrendo a outros instrumentos?

Na maior parte as vezes é intencional – e eu apenas usava o que quer que estivesse pelo estúdio. Apercebi-me rapidamente o quanto apreciava o processo e o quanto podia adicionar ao sentimento geral de um disco. Primeiro e antes de mais sinto-me como um compositor e enquanto a guitarra é o meu instrumento principal, espero não estar constantemente ligado ou restringido de alguma forma por isso.

O teu próximo disco vai ser lançado em 2006 pela Important Records. Como é que isso aconteceu? Quais são as tuas expectativas para o disco?

O John da Important Records enviou-me um e-mail do nada no inicio deste ano a perguntar-me se podíamos trocar alguns CDs. Pouco depois de lhe ter enviado alguns meus, ele escreveu-me e perguntou-me se eu queria gravar um disco para ele. A resposta foi sim, claro! Passei alguns meses a escrever o disco e fui para estúdio em Setembro de 2005 durante um par de dias. Chama-se O True Believers e não vou dizer muito acerca daquilo que significa para mim a não ser que foi escrito em tempos particularmente tempestuosos na minha vida. Acho que é o meu melhor disco ate à data, apesar de o achar bastante difícil de ouvir. Parece ligeiramente assombrado de certa forma.

Que instrumentos usas neste novo disco para além da guitarra?

O True Believers é um disco provavelmente mais baseado na guitarra do que qualquer um dos meus discos anteriores, apesar de tocar também tamboura, harmónio, sinos e uma pequena cítara de origem da Europa oriental chamada cymbala no disco, escassamente.

Os teus primeiros discos foram lançados em CD-R mas agora as coisas são um pouco diferentes. Como é que reages a esta mudança súbita?

Estou bastante contente por os meus discos serem lançados num formato mais amplamente disponível, apesar dos CD-Rs terem definitivamente o seu espaço. Eu ouço tantas coisas boas que são lançadas em edições ridiculamente pequenas, precisamos de mais pessoas com bom gosto à frente de editoras decentes!


Como é viver em Londres?

É porreiro. Eu vivo nos subúrbios mesmo fora de Londres, mas trabalho lá e a minha namorada vive lá, por isso acho que visito a cidade com bastante frequência. Tal como a maior parte das grandes cidades, pode ser um pouco claustrofóbica e cansativa por vezes – não me imagino a viver aqui para o resto da minha vida. Mas parece que estou a conhecer cada vez mais pessoas amigáveis e interessantes de Londres recentemente e a descobrir coisas fantásticas aqui que eu não sabia que existiam antes.

Para gravar Celeste, decidiste deixar a cidade e rumar ao campo. E em relação aos outros discos? Sentes a necessidade de, de certa forma, fugir ao barulho e ao caos da cidade para escrever a tua música?

Todos os meus discos, com a excepção de algumas peças, que foram gravadas em casa num quatro-pistas merdoso e a morrer, foram gravadas com o meu amigo John no estúdio dele, que fica no meio de uma quinta. Sim, acho que o John, o estúdio e o ambiente à sua volta tiveram todos um grande papel na forma como as minhas gravações acabaram por resultar. Parece simplesmente mais conducente com a forma como toco. Estou mais relaxado e separado da minha vida do dia-a-dia. Toda a experiência é mais transcendental.

Vais dar três concertos em Londes e em Cheltenham em Dezembro. É fácil para ti arranjar concertos em Londres, mostrar a tua música em concertos?

Apenas recentemente é que se fez sentir assim e ainda agora ainda se sente que há uma espécie de mentalidade em que os promotores apenas marcam concertos quando há uma banda ou artista americanas em digressão ou que quer tocar. É uma espécie de grande concurso para ser fixe e para alcançar credibilidade e não há pessoas suficientes a correr o risco de organizar concertos para actuações mais pequenas. In the Pines, as pessoas que estão a organizar o concerto em Londres em Dezembro e um espectáculo que vou dar com o Simon Finn e com o Sharon Kraus em Janeiro de 2006, são fantásticas apesar de tudo. Estão genuinamente interessadas na música e interessam-se bastante por aquilo que fazem.

Como é que vês a música feita no Reino Unido?

Há umas cenas pequenas e boas em Leeds e em Glasgow e uma mão cheia de outros artistas que eu creio serem bastante subvalorizados, alguns mais conhecidos do que outros: Liberez, Wooden Spoon, Birds of Delay e Sharon Kraus para nomear alguns. Mas a música mainstream aqui é entediante como em qualquer outra parte do mundo e acho que não vou conseguir aguentar com outra banda pós-punk falsa com “The” no nome.

Achas difícil fazer música instrumental e acústica a solo? Alguma vez pensaste em convidar outras pessoas para tocarem nos teus discos?

É difícil em alguns aspectos – difícil manter-me motivado por vezes. Mas a sério, acho que trabalhar num grupo é muito mais difícil e eu sou um terrível freak do controlo no que diz respeito a escrever música que eu nunca conseguiria estar numa banda o tempo todo. Posso vir a ter algumas pessoas a tocarem no meu próximo disco, talvez um amigo meu que é um violinista fantástico. Apenas nunca senti a necessidade até agora.

Nos teus concertos tocas apenas guitarra. Qual é a tua abordagem à tua própria música quando tocas ao vivo?

Gosto da sensação quando não há muito uma barreira entre a audiência e eu próprio. Tocar sozinho é de certeza a mais pura expressão de mim mesmo, um ritual muito íntimo, e eu apenas dou novos arranjos às canções de uma tal forma que esperançosamente resulte… E depois entro noutra dimensão. Não estou sempre na minha forma mais confortável de tocar ainda, mas isso pode mudar com o tempo.

Contribuíste também com o tema “No Ghosts” para uma compilação tripla chamada Gold Leaf Branches, lado a lado com gente como Six Organs Of Admittance, Marissa Nadler, Wooden Hand, Charalambides… O que é que nos podes contar acerca disso?

Tem sido mesmo um trabalho de amor para o Brad Rose, que dirige a Digitalis Industries e que orquestrou todo o projecto colossal. Há tantos grandes artistas na compilação. É verdadeiramente um privilégio por estar envolvido, apesar da faixa com que contribui ser bastante velha já, outra experiência de 2004 num quatro-pistas enferrujado. É uma das minhas melhores gravações desta natureza gravada em casa e acho que é perfeitamente ajustada.

O que é que achaste do Porto e de Portugal quando cá tocaste com a Josephine Foster?

Quem me dera ter tido mais tempo para passar no Porto – é uma cidade fantástica. Eu sei que a Josephine sentiu da mesma forma também. Lembro-me que a Josephine comprou um colar de sinos e usou-o à volta da cintura, por isso ela tilintava como um gato quando ela caminhava. Levaram-nos a um restaurante fantástico de peixe e ficamos fascinados por uma estranha estátua de Jesus em madeira lá em baixo no rio. Mas do que eu me lembro melhor da nossa experiência em Portugal foi da natureza quente e vibrante e generosidade das muitas pessoas que tivemos a sorte de conhecer. Não sei como é que a minha música foi recebida, mas senti que as pessoas que relacionaram com ela a um nível que talvez tenha transcendido a barreira da linguagem. Sinto igualmente que as pessoas portuguesas como um todo são mais abertas a novas coisas, estão mais ligadas profundamente à música através das suas emoções e podem ter havido algumas familiaridades com o estilo no qual eu toco – estou a falar da maravilhosa guitarra de Carlos Paredes agora! Fui apresentado à sua música durante a nossa estadia e bastantes pessoas fizeram uma comparação – em retrospectiva, esta foi a mais alta forma de elogio que eu alguma vez podia pedir. Tenho também de mencionar os meus amigos João, Vítor, os dois Paulos e a Chiara pela sua bondade em particular. Espero voltar em breve!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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