ENTREVISTAS
Katabatic
Welcome to my nightmare
· 17 Jul 2014 · 20:49 ·
Catábase - palavra de múltiplas utilizações que significa, sobretudo, a descida, e que no caso do pós-rock se afirma paradoxal; afinal de contas, muito do que se ouve dentro do género é composto por subidas graduais de tom e de som, por momentos enfáticos distintos. Os Katabatic, mesmo que sejam muitas vezes englobados nesta categoria musical, não são, assim, uma banda de pós-rock: a sua sonoridade é muito mais directa, bebendo muito mais ao hardcore que ao cinema e idealismo dos GY!BE ou às brincadeiras dos primordiais Disco Inferno. Chamem-lhes rock instrumental. Ou então chamem-lhes, apenas e só, rock. Do bom. Falámos com o baterista José Ferreira sobre o quarteto lisboeta e seu mais recente EP, Weighs Like A Nightmare On The Brains Of The Living, e o resultado foi este.
© Luís Martins
«A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo». Sentem o peso das bandas deste género que vieram antes de vocês? É este novo EP uma forma de definirem de uma vez por todas a vossa identidade?

Essa frase surgiu entre ensaios, numa conversa sobre o que queríamos retratar neste EP, e pareceu-nos servir como metáfora para essa representação. É a frase certa para ilustrar uma relação entre a experiência do nosso passado ou o passado das gerações antecessoras à nossa e o momento presente. Não está necessariamente ligado ao universo musical mas antes ao cenário geral dessas vidas, quer seja no trabalho, na família, entre amigos ou naquilo que vemos acontecer no resto da sociedade. Acima de tudo, este título está ligado à perseverança da banda, à sua estética, "peso" e importância que estes conceitos têm na nossa vida. Em relação à nossa identidade, sentimos que tudo foi feito de forma autêntica, espontânea e, acima de tudo, de forma progressiva e sustentada. Neste momento (e após a fase de composição do Heavy Water), sentimos que tudo está mais sólido e coerente. Temos definido um caminho que pode ir tendo variações criativas e isso é, de facto, importante para marcar a nossa identidade e intemporalidade. Não queremos fazer isto para marcar uma época que se esgota e se torna descartável. Queremos fazê-lo como um todo que tenha uma continuidade.

© Luís Martins

Dois EPs e um disco, em dez anos de existência. Fazem as coisas ao vosso próprio ritmo ou são a banda mais preguiçosa de sempre?

Fazemos as coisas quando achamos que existe uma lógica para serem feitas. Nunca quisemos lançar um EP ou LP só porque já passou um, dois ou três anos desde o último registo discográfico, mas porque aquilo que entregamos às pessoas tem um verdadeiro sentido. Não cabe nas nossas cabeças investir tempo, dinheiro e suor para criar algo sem valor para quem vai ouvir, algo em que não acreditamos e que não representa a estética deste projecto. Fazê-lo só porque sim? De qualquer forma, como já foi dito na resposta anterior, a partir do Heavy Water o nosso mindset ficou mais definido e isso ajuda-nos muito no processo criativo e a percebermos que conseguimos construir universos musicais mais consistentes. Assim, é provável que os próximos registos discográficos sejam mais regulares. Contudo, existem várias condicionantes colaterais à nossa vontade de produzir mais coisas. Infelizmente não estamos exclusivamente dependentes da nossa vontade, mas também da vontade das editoras, do público, das salas onde podemos tocar e das próprias flutuações do universo musical.

O Weighs Like A Nightmare... surge dois anos após o vosso primeiro LP. Como decorreu o processo de composição? Considerando que é tão curto quando comparado com o Vago e que as malhas soam(-me) mais agressivas e directas ao invés de melancólicas, será este o vosso EP hardcore?

Essa diferença entre o Vago e o Weighs Like A Nightmare... existe pela tal consolidação da nossa identidade. Neste momento, temos uma base onde percebemos que existe alguma coisa do Vago mas que foi evoluindo e originando diferentes variações criativas. Neste último EP, essa variação foi ao encontro a ambientes que são mais intensos, dinâmicos e pesados, mas é possível que no próximo registo o caminho seja diferente, com outras explorações. Essencialmente o que nos interessa é perceber que o resultado final é Katabatic, mas que estamos a entregar uma experiência nova.

© Luís Martins

Mesmo sendo de Lisboa, encontram mais público e dão mais concertos no Porto. Será isto um claro sinal de que tudo é melhor lá? Como surgiu a ligação com a Amplificasom? O que retiram dessa ligação após estes anos?

A nossa ligação à Amplificasom não surge por acaso, é algo que já vem desde 2007 e grande parte do nosso crescimento como banda foi sendo acompanhado e partilhado com eles, porque cedo percebemos que tínhamos ideias comuns em relação ao que pretendemos entregar ao público que nos ouve e qual a melhor forma de o fazer. Em relação a estarmos mais vezes pelo Norte, pode ser por vários motivos: desde os promotores acreditarem mais no nosso projecto, a termos mais público. Não é algo intencional ou provocado, acontece porque as oportunidades surgem desta forma.

Sempre me pareceu que o estilo que tocam é mais apropriado para se ouvir num contexto de concerto do que em casa, numas colunas ou headphones. Concordam? De que forma tentam transpor as canções gravadas para um palco? Há mais espaço para improvisação?

De uma forma geral, os concertos podem ser mais intensos possivelmente pela demonstração da nossa devoção e dedicação ao projecto. Sentimos mesmo aquilo que tocamos e isso passa de forma pura e genuína para quem nos vê. Isso nunca pode ser substituído por um registo discográfico, porque falta sempre o lado humano e orgânico. Essa energia só se encontra num palco, onde nunca nada é igual de um concerto para o outro. É cru e real, acontece à tua frente, muitas vezes a um metro de distância e isso nunca pode ser comparado a ouvires em casa, na tua zona de conforto, onde podes controlar volumes, tempo entre faixas e o dispositivo que estás a utilizar. Exactamente por isto, os nossos concertos são preparados considerando que certas músicas funcionam ao vivo e outras não. São ecossistemas diferentes e não vamos para palco simplesmente replicar o que foi gravado em estúdio, não faz sentido. Em resumo, sabemos que existem pessoas que preferem ouvir em casa e outras em concerto, mas definitivamente o projecto só ganha a sua verdadeira dimensão em palco.

© Luís Martins

Imagino que, enquanto banda, o vosso desejo seja o de crescer cada vez mais. No entanto, e pegando no vosso nome, existiu algum momento mais catabático ao longo da vossa existência, algum momento em que se tenham tido de recompor e/ou focarem-se mais no vosso trabalho?

Enquanto sentirmos que existe espaço para criar coisas novas, vamos querer partilhar o que construímos, mas nunca em função de algo que não seja unicamente a música. Se a partir desse ponto conseguirmos mais público, mais oportunidades para tocar e demonstrar o que criámos, será gratificante. De qualquer forma, nem sempre é fácil conciliar as várias áreas das nossas vidas com o percurso da banda. Isso exige o sacrifício e perseverança de todos. Estamos juntos há muito tempo e, naturalmente, existiram momentos menos bons; no entanto, todos resistimos a todos os obstáculos e continuamos com este compromisso entre os quatro e com vontade de fazer mais.

Na altura em que surgiram despontavam igualmente os Lemur, que já disseram ser numa entrevista uma das vossas influências. O que significa para vocês o reeditar recente da discografia completa deles?

Na altura em que surgiram os Lemur, nós e outras bandas, a influência foi partilhada entre todos porque musicalmente algo aproximava os projectos em certos elementos que os caracterizavam. O reeditar da discografia dos Lemur significa que acima de tudo para eles a experiência que partilham ainda faz sentido e isso é o mais importante. Conhecemos por experiência própria a problemática de resistir ao tempo com um projecto musical e é sempre de elogiar quando bandas como eles voltam a acreditar.

O que é que se seguirá na vida dos Katabatic?

Estamos a agendar concertos para os últimos 4 meses do ano, a preparar a produção do formato físico do novo EP e a continuar a compor para um próximo registo.

Voltando à frase que serve como título para o vosso disco: para além de Marx, andam a ler mais alguma coisa?

Apesar de Katabatic ser um projecto comum nas nossas vidas, somos pessoas com personalidades distintas (e ainda bem) que trazem um pouco dessas diferenças para a banda. Assim sendo, as leituras de Katabatic são: Velocity - The Seven New Laws For A World Gone Digital, o meu, O Último Desejo - As Crónicas De Geralt De Rívia, (Andrezej Sapkowski), do Hugo, Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman), do João e Bicycle Diaries (David Byrne), do Tiago.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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