ENTREVISTAS
Dear Telephone
Balada mas cinematográfica
· 30 Mai 2013 · 09:59 ·
© Sérgio Moura
Há dois anos nascia o primeiro EP Birth of a Robot, hoje nasce o primeiro CD, Taxi Ballad. Muito se mudou de há dois anos para cá, desde a sonoridade à formação. Os caminhos percorridos até aos Dear Telephone foram diversos mas o tempo quis que resultassem num “todo”, apesar de haver uma “soma das partes”. Desde 2011 subiram ao palco de algumas salas emblemáticas e de vários festivais portugueses como Barco Rock Fest ou Milhões de Festa. No novo trabalho, editado pela igualmente minhota PAD, há menos espaço, pois é assumidamente “interior”, mas há mais experimentalismo. Há continuidade em relação ao EP, mas também há ruptura. A sétima é fonte de inspiração e a balada é puramente cinematográfica. Já as viagens de táxi são metáfora para o conceito do álbum. O intimismo dos Dear Telephone expande-se ao palco do Primavera Sound, no Porto, já no próximo fim-de-semana.
Dois anos depois de "Birth of a Robot", o que mudou?

André Simão: Sentimos mudanças em vários níveis. Das personagens que as vozes encarnam, cada vez mais complexas e rebuscadas, até um lado mais exploratório e denso, expresso nas guitarras, no processamento dos teclados, nas arritmias das percussões. Depois há a questão fundamental de nos conhecermos melhor e de conseguirmos respirar muito mais naturalmente o universo estético que perseguimos.

Sentem que há uma continuidade na sonoridade da banda, do EP para o álbum?

Graciela Coelho: Há continuidade e há ruptura. Persistimos na aridez dos arranjos e num discurso sónico muito directo e simplificado. Por outro lado, no novo álbum, há uma faceta live, experimental, mais à solta.

© Sérgio Moura

No próprio álbum há alguma linha narrativa conducente entre as canções?

AS: Uma narrativa linear, não. Existem, naturalmente, relações líricas e musicais entre temas e encadeamentos que parecem sugerir um lado mais conceptual na construção do disco, mas na verdade o único eixo transversal ao álbum é a ideia de espaço interior, arquitectónico e não só.

Há uma faixa do EP repetida no disco. O que vos levou a regravar "Hardly the kind of stuff to inspire social chroniclers"?

GC: O facto de o tema ter amadurecido conforme o fomos tocando ao vivo. Foi o primeiro que compusemos e sentíamos que tínhamos com esta canção uma dívida de a levar mais além, de a vestir doutra forma.

O vosso background musical é bastante variado. Até que ponto e que de que forma é que este projecto poderá ser uma convergência?

AS: Não creio que seja, nesse sentido. A ideia de formar este projecto era, aliás, uma forma de divergirmos do nosso habitat natural. Trabalhar com novas regras, abandonando outras. Claro que agora, dois anos depois, as afinidades foram-se desenvolvendo e definiu-se uma identidade que resulta da soma dos nossos passados e vontades de futuro. Ou seja, o todo já é, por esta altura, muito mais importante que a soma das partes.

© Sérgio Moura

Como é para vocês a experiência ao vivo? Que desafios sentem em cima do palco?

GC: O facto de assumirmos uma vocação muito live nas canções, com poucos arranjos e enleios, faz com que seja relativamente simples transpô-las para o palco. O nosso grande propósito acaba por ser a ideia de amplificar o colorido dos temas, de os levar mais longe, de afastar ainda mais os opostos em termos de intensidade, dinâmica, tensão, etc.

Querem descortinar um bocadinho o conceito do design do interior da capa do disco? E, já agora, do próprio título…

GC: Colocamos a própria banda na capa do disco, numa contraluz dramática e num espaço interior. A ideia é evocar a forma como nos queremos mostrar musicalmente, sem artifícios. Há uma certa ideia de nudez, nesse sentido. No interior do álbum ensaiamos uma composição fotográfica utilizando objectos utilitários ou quotidianos, que fazem parte da lírica dos temas. No nome disco – Taxi Ballad – volta a ideia de espaço fechado. Balada, muito mais no sentido cinematográfico do que musical. Os ambientes entrelaçam-se, a toada é fluída e relaxada. O táxi evoca a ideia/cliché de um espaço interior onde viajamos, entregues a nós mesmos, pela confusão inspiradora do ambiente urbano.

Como receberam a notícia de que iriam tocar no Primavera e o que representa para vocês enquanto banda? Têm surpresas preparadas?

AS: Ficamos muito contentes, claro. É um concerto com particularidades muito especiais. A expectativa vem fundamentalmente do facto de nos expor a um universo de público mais alargado. E será curioso ver como funcionam os temas do disco num espaço aberto e contexto de festival. Vamos tentar criar espaço para que surjam surpresas, em vez de as levarmos prontas de casa.

Ao disco editado, o que se segue? Já há digressão planeada?

GC: Sim. Segue-se o palco. Entretanto revelaremos mais uma série de datas e esperamos poder finalmente deixar as canções crescerem, ao vivo.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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