ENTREVISTAS
Rita Braga
Uma cereja em cima do bolo
· 07 Dez 2011 · 02:41 ·
© Barbara Anastacio
Depois de editar os EPs Valsa Sangrenta, Meet Me Tonight In Dreamland e Her Home Recording Vol.3, Rita Braga lançou finalmente o seu disco de estreia. Cherries That Went To The Police é um disco que engole coisas tão distantes como o imaginário de Bollywood, a folk sérvia, polaca e russa, jazz e pozinhos dos anos 20. De braço dado com o seu inseparável ukulele, Rita Braga foi ao baú buscar canções de outras décadas, cantadas em português, inglês, russo e grego e abriu mão do seu próprio universo, acrescentou-lhes o seu próprio ADN – e reclamou um lugar justíssimo na música portuguesa: não existe mais nenhuma Rita Braga em Portugal. Já não falávamos com Rita Braga desde 2007 e achamos que esta era a altura certa para o fazer. E com isso, numa entrevista sumarenta, descobrimos o antes, o durante e o depois de Cherries That Went To The Police. E conhecemos um pouco melhor o admirável mundo de Rita Braga.
Entrevistei-te há uma data de anos. O que é que mudou na tua vida entretanto?

Foi em 2007 e ainda hoje é dos primeiros links que aparece no Google, é engraçado que as pessoas muitas vezes pegam em coisas que eu disse na altura que já nem me lembro. Muita coisa mudou mas a direcções são as mesmas, continuo a fazer o mesmo tipo de música e a arranjar colaborações e a minha rede foi-se alargando na Europa e nos Estados Unidos. Entretanto acabei a licenciatura em Ciências Musicais, tirei uns cursos de cinema de animação nas Belas Artes, trabalhei uns meses na Animanostra... Tudo sempre intercalado com concertos e pequenas tours, em Portugal, na Europa e na América. Mas desde meados do ano passado a música passou a ocupar a maior parte do meu tempo, passei na maioria dos casos a marcar os concertos, fora uns convites que vão surgindo e a gerir quase tudo.

© Barbara Anastacio

Tanto quanto sei tens fartado de viajar. Fartado como quem diz, porque deve ser difícil isso acontecer. Isso tem alimentado a tua alma?

Sim... O que tinha feito na Sérvia em 2006 e até tinha referido nessa outra entrevista (ficar três meses em que me envolvi numa série de eventos ligados à música e à banda desenhada com artistas locais) repeti agora nos Estados Unidos, fiquei lá três meses à experiência com muitos concertos que marquei previamente, e outros que foram surgindo enquanto lá estava (foram quase 30 actuações entre Nova Iorque, Chicago, Los Angeles, São Francisco, Fresno, Modesto - em Central Valley na Califórnia - e Seattle). Foi muito rico, senti muito feedback e conheci pessoas muito criativas e músicos incríveis, houve muita troca de experiências, recebi muito daquele país. Também recentemente tive oito datas entre Bordéus, Paris, Berlim, Leipzig e Madrid e correu muito bem, gosto de ir viajando sozinha e ir dando concertos, conheço muitas vezes pessoas com quem me identifico.

Como é voltar a Lisboa a cada vez que isso acontece?

Depende. Às vezes no fim de uma tour muito intensa como a que tive em Setembro (França, Alemanha e Espanha, muitas datas seguidas em cidades diferentes com aviões e comboios pelo meio) sabe bem voltar a casa e pôr um travão, mas quando voltei da América demorei muito tempo a habituar-me, senti um vazio enorme ao chegar aqui no Verão e de repente não ter quase nada para fazer depois de três meses em que estava muito activa.

As viagens despertam-te canções ou é o contrário? Sentes-te especialmente criativa quando estás numa cidade que não é tua?

Também depende. Para escrever canções (vão saindo umas de vez em quando, há pouco tempo voltei-me de novo para o piano) é melhor estar isolada num sítio para trabalhar e faço isso bem em Lisboa onde tenho um poiso fixo. Mas para colaborações (tais como fazer vídeos e coisas que requerem trabalho de equipa, tocar com outros músicos) foi óptimo estar rodeada de pessoas como o Chris Carlone que para além de tocar comigo realizou o vídeo para a “Ramblin´ Man”, ou o Claude Cardenas, com quem fiz a curta metragem Wander, ou o Chris Wagganer em Hollywood que montou um cenário incrível para a minha versão da música do David Lynch (esse ainda não está montado). Se bem que tive a sorte de rodar em Lisboa o vídeo para o “Under The Moon” com o Paulo Abreu (filmado em super , que entre todos ainda é o meu preferido, adoro o trabalho do Paulo. As versões das músicas antigas vão surgindo em qualquer lado, às vezes em viagens, outras vezes a ver filmes... Acabei por falar agora mais dos vídeos porque para mim são uma forma de expressão muito criativa e como sou muito visual, para além da música estou a encarnar outras personagens, cenário e guarda roupa incluído e gosto muito disso, englobam tudo e são uma boa forma de apresentar a música que estou a fazer.

Acho que nunca te perguntei isto. Como nasce e se desenvolve esse teu amor pelas novelty songs dos anos 20?

Não sei muito bem... Acho que todos trazemos certas coisas na memória. O vaudeville, o entretenimento ligeiro nas feiras, canções humorísticas, com números musicais aliados a números de circo... Acho que tenho esse imaginário presente e foi muito estranho (no bom sentido) como fui parar a esse tipo de eventos a decorrerem ainda hoje nos Estados Unidos, tal como na Maker Faire em San Mateo, a maior feira “DIY” da América, vê-se de onde vem aquela cultura toda: pegar numa guitarra ou no que for e atrair pessoas que se movem pela curiosidade e param para ver o que a pessoa lhes vai mostrar, é um jogo de atenções. Nessa feira conheci por exemplo um senhor que é palhaço e inventor e tinha uma maquinaria enorme em que pôs um piano mecânico antigo a tocar accionado por engrenagens de locomotivas de comboios a vapor! Para mim foi como uma viagem no tempo, pensava que era o tipo de situações que iria encontrar na América de há 100 anos atrás e afinal continua presente. Ou os Variety Shows - participei em 4 noites de variedades e burlesco em São Francisco em que me senti em casa - entre dançarinas e engolidores de facas parecia que as minhas músicas dos anos 20 ali encaixavam muito naturalmente, alguns performers tocavam o mesmo tipo de repertório, eles adoraram e espero lá voltar. As Cockettes, um grupo de performers de São Francisco cantavam essas mesmas coisas nos anos 60. Quando ouvi certas músicas desse tempo pela primeira vez era como se já as conhecesse de cor. Não é o que costumo ouvir por hábito mas há qualquer coisa nelas que me era familiar.

© Claude Cardenas

Achas que foi importante o que conseguiste nos EPs Valsa Sangrenta, Meet Me Tonight In Dreamland e Her Home Recording Vol.3? Deram-te todas as pistas para este novo disco?

Sim. Desde início que ambicionava um disco como este. Nada de luxo (falando em custos), nem aqui tive estúdio, mas com a ajuda do Bernardo Devlin que além de me gravar, misturou e produziu o disco, e de todos os músicos que participaram, consegui apresentar a minha música de outra forma mais elaborada, acho que ninguém diria que o disco foi gravado em casa. Neste caso em várias casas, nem que as colaborações foram feitas à distância. Os EPs foram outro tipo de experiência, feitos com o mínimo e sozinha, com softwares muito básicos como o Garage Band, um processo muito DIY, como se fossem fanzines, o último com capa pintada à mão... Também consigo sons engraçados nesse registo, como a versão da “Hey Jude” ou a “Stairway to the Stars” e provavelmente vou manter as duas sonoridades, entre discos mais produzidos e com mais pessoas envolvidas quando tiver oportunidade (obviamente leva muito mais tempo) e essas gravações mais caseiras que vou compilando em EPs ou disponibilizo na internet.

E o que é que nos podes contar acerca de Cherries That Went To The Police?

São canções que já vêm de há muito tempo. Nasceram há muito tempo, eu também já as cantava há alguns anos. Queria apresentá-las num registo “como deve ser” (músicos fantásticos incluídos que enriqueceram muito o disco). Sentia mesmo necessidade de finalizar este disco e apresentá-lo antes de me virar para outras músicas, e depois deste disco que é tão abrangente acho que qualquer coisa pode surgir a seguir. Foi um disco feito de forma muito independente, feito com pessoas de quem gosto, e acho que as pessoas na música e na arte só têm de fazer o que gostam e de se expressarem como lhes apetecer e no fim até agora tem recebido muito bom feedback por parte do público e dos media. Mas melhor do que falar sobre o disco, nada como ouvi-lo (por exemplo em streaming na minha página do bandcamp).

Fala-nos dos convidados deste disco. São muitos? O que traz cada um a este disco?

São... Oito convidados. O Bernardo Devlin teve o papel de produtor como mencionei anteriormente, e se ele não se tivesse envolvido o resultado seria de certo muito diferente, tanto pelo lado técnico do som como pela produção artística. Por ordem da ficha técnica, tenho a Chris Carlone Orchestra (que toca oito instrumentos, mais o chicote na “Katyusha” que nem me lembrei de incluir). O Chris é a pessoa que conheci com quem mais me identifico a nível criativo e acho que isso se sente quando tocamos juntos (também temos a dupla Chips and Salsa). Adorei o que ele fez na “Katyusha”, na “Shanty Man´s Life” ou na faixa que fecha o disco, “Ua Like No A Like”. Todas muito diferentes mas cheias de personalidade. O Nik Phelps, também de São Francisco, está muito por dentro do jazz dos anos 20 e toca com imensa fluidez, no meu disco gravou clarinete em dois temas e tem no currículo nomes como o Tony Benett, ou o Tom Waits ou o Frank Zappa. Tinha o Sprocket Ensemble em São Francisco, um grupo que tocava música ao vivo para filmes de animação (composições do Nik), muito giro. O Rui Dâmaso, dos Loosers, gravou baixo eléctrico em 4 temas. Deu uma contribuição muito original por exemplo na música grega, com um efeito quase percussivo, já que não há acordes. O Hernâni Faustino (toca por exemplo com os RED trio), o Jef Hogan (toca por exemplo na banda da Amanda Jo Williams de quem sou fã) e o Ignatz B são os três contrabaixistas que aparecem no disco, respectivamente de Lisboa, Los Angeles e Buenos Aires. O som do Hernâni está muito bonito, gravou por exemplo no single “Under The Moon”. O Jef agarrou muito bem a “You´re The Cream In My Coffee” e a “Ramblin´ Man”. O Ignatz já o tinha convidado para gravar contrabaixo uns meses antes quando o conheci num squat em Roma (onde toquei no ano passado no festival de BD Crack), mas tinha vindo sozinho para a Europa só com a guitarra e teve dificuldades em arranjar um contrabaixo emprestado para gravar, só quando voltou para a Argentina é que conseguiu e então ainda gravou na River of No Return, que acabou por ter um duo de contrabaixos, do Hernani e dele o que gerou um efeito curioso. E finalmente a Yvette Dudoit que tocou guitarra slide na “Lira”, é das melhores guitarristas que conheço (não falo apenas no feminino). Conheci-a no ano passado em Los Angeles, toca com os Fort King e acompanhou-me em vários instrumentos nos concertos que lá dei e depois revolveu vir um mês a Portugal em Novembro passado, em que fizemos uma pequena tour.

© Claude Cardenas

Cantar em português, inglês, russo e grego é um desafio que envolve que tipo de esforços? Falas essas línguas fluentemente?

Domino bem o inglês. Sei ler e tenho alguns conhecimentos de russo (e de sérvio, a faixa escondida no disco). De grego não sei nada mas ouvi a gravação em que me baseei com muita atenção e uma amiga ajudou-me com a pronúncia de algumas palavras. Para mim não é um grande esforço. Acho que tenho boa memória auditiva e assimilo bem outros sons, tenho alguma facilidade para aprender outras línguas (mesmo pelas “notas” de escola, na licenciatura em ciências musicais nunca tive grandes resultados mas no russo ou no polaco tirava 19. [risos] Gravei há pouco tempo uma música cantada em sueco e um nórdico disse-me que o meu sueco estava perfeito!

Que cerejas são estas que foram à policia? Queixam-se de quê?

Dores nos ovários! Ou insuficiência renal... Na verdade não sei do que se queixam. Deviam estar contentes.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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