ENTREVISTAS
You Can´t Win, Charlie Brown
Uma banda desenhada com seis elementos e muitas cores
· 13 Out 2011 · 02:11 ·
A banda que foi buscar o nome a um livro dos Peanuts (que a Charlie Brown juntava personagens tão carismáticas como Snoopy ou Linus) esteve recentemente a tocar na cidade de Londres, em três datas que se seguiram à apresentação do álbum Chromatic na discoteca Lux, em Lisboa. Com esta desculpa na algibeira, fomos falar com Afonso Cabral e David Santos (que a solo responde pelo nome de Noiserv) sobre as ideias e o percurso ainda curto – mas que se preconiza brilhante após um EP e um álbum de estreia que arrancaram fortes elogios dentro e fora de portas – de uma das bandas portuguesas que importa seguir com bastante atenção. E ainda ficámos a saber, entre outras revelações, que Afonso Cabral nunca ouviu um disco de Fleet Foxes, banda à qual os You Can´t Win, Charlie Brown já foram comparados.
Como correu o regresso a Inglaterra, depois de terem apresentado o Chromatic no Lux? A Márcia também participou nos concertos de Londres?

Afonso Cabral: Foi um bom regresso. Depois de ter enchido o Lux, foi uma sensação diferente voltar a salas mais pequenas e ter que convencer um público que não nos conhece, apenas com a nossa música, mas acho que fomos bem sucedidos. A Márcia não nos acompanhou nesta pequena aventura, pode ser que fique para outra vez.

Nestes concertos havia algum Mário Feliciano ou alguma Peggy por perto, ou desta feita não ocorreram felizes coincidências desse género?

Afonso Cabral: Que saibamos não, mas quem sabe... se calhar até estava lá alguém, mas ainda não se acusou.

© Pedro Gaspar & Nuno Sousa Dias

Vocês acabaram de fazer estas datas em Londres; há outras bandas portuguesas a tocar pelo Brasil, Leste europeu, EUA… Será que o período fértil que se vive em termos criativos na música portuguesa começa a ver algumas portas abrirem-se no exterior ou isto ainda é tudo um bocado esporádico e incipiente?

Afonso Cabral: Não vou arriscar dizer que as portas para o mundo já estão abertas para a música portuguesa, mas há bandas e músicos a fazer um bom trabalho em mostrar o seu trabalho lá fora. A pouco e pouco vai-se espalhando a palavra de que se faz boa música por cá. Ainda é muito cedo, mas com trabalho e um bocadinho de sorte pode ser que se consiga qualquer coisa de significativo.

A vossa música é complexa, cruza elementos orgânicos e digitais, tem travos de electrónica e folk. O som de YCWCB é, também, um reflexo das várias personalidades que compõem o grupo, com elementos que têm outros projectos musicais, a solo ou noutras bandas?

Afonso Cabral: Claro, aliás, é impossível ter seis pessoas num projecto criativo e não ter qualquer coisa de cada uma delas a transparecer no trabalho. Mas tentamos também usar as qualidades de cada um de uma forma que não seja demasiado óbvia. Não queremos que seja uma colagem de vários projectos mas sim um colectivo com uma sonoridade própria e coesa.

Ainda a propósito disto: muitos músicos portugueses não se limitam a tocar numa só banda, desmultiplicando-se em vários projectos, o que também se verifica no seio de YCWCB. Julgam que isso é quase uma condição para se viver da música em Portugal, ou que, pelo contrário, até se torna algo positivo, permitindo que a criatividade de cada um se desdobre e alargue?

David Santos: Na minha opinião é um pouco dos dois; viver da música em Portugal não é simples e ter várias projectos ajuda a uma maior disponibilidade financeira, e, por outro lado, não é menos verdade que a criatividade nunca se esgota e que, pelo contrário, tem tendência a melhorar com o uso que lhe damos. No caso de You Can´t Win, Charlie Brown, acho que nos juntamos acima de tudo pela amizade que temos uns pelos outros e pelo prazer de tocar. Todos os outros benefícios foram na realidade postos num plano secundário!

E em que medida este facto leva a que YCWCB funcione muito à base de troca de e-mails, como disseram que sucedeu no processo que conduziu ao álbum Chromatic? Como decorreu esse processo?

Afonso Cabral: O facto de sermos seis, e de metade de nós estar metida em outros projectos musicais (e se juntarmos a isso ainda o facto que muitos trabalham) torna difícil marcar ensaios. Quando se quer ensaiar de dia uns estão a trabalhar, quando se quer ensaiar de noite outros estão a tocar... A solução que arranjámos foi trocar ideias através de e-mails. Se alguém tiver uma ideia, grava-a e envia para os outros. Depois é encontrar um consenso. Permitiu-nos pensar mais nas músicas, ao contrário do que aconteceria se nascesse tudo a partir do momento, nos ensaios. No final, em estúdio deram-se os últimos retoques, pequenos arranjos que precisavam de ser mudados, coisas assim.

Vocês reflectem muito os actuais tempos musicais, mas fazem-no com uma voz original. Concordam? Em que medida pensam que o vosso sucesso também se deve a isto?

Afonso Cabral: O principal objectivo foi sempre fazer alguma coisa que soasse original, que fosse nosso. Eu acho que isso por si só é que acaba por reflectir os actuais tempos musicais. Há tanta música a ser feita e a ser distribuída pela internet que só assim é que se consegue ter alguma exposição e algum sucesso. Só quem tem uma voz própria é que se destaca. Falávamos disso antes de gravar o disco. Existe muita coisa bem feita mas que acaba por não ter interesse ou acaba por passar ao lado do público porque soa muito parecido à banda x ou y. Com a quantidade de música que é feita hoje em dia, estar bem feito não chega. Às vezes mais vale mal feito mas que traga alguma coisa de novo. Nós quisemos tudo... bem feito e novo. Era esse o nosso objectivo.

Sentem que a banda deu um salto criativo quando passou de três para seis elementos, consolidando a actual formação?

Afonso Cabral: Não houve um salto criativo nítido e imediato. Foi um processo evolutivo que começou com a gravação do primeiro EP e foi continuando com a inclusão de novos membros. É claro que ganhámos muito quando eles chegaram, foi mais um passo (e talvez o mais importante) de todo um processo de crescimento no qual continuamos. A ideia continua a ser sempre fazer melhor.

© Pedro Gaspar & Nuno Sousa Dias

Pensam que o facto de serem multi-instrumentistas enriquece o vosso processo criativo e, mesmo, as performances ao vivo?

David Santos: Acho que, acima de tudo, o facto de não nos limitarmos a um só instrumento potencializa o prazer que temos em tocar uns com os outros, pois dificilmente nos fartamos! Enquanto processo criativo acho que é também uma grande ajuda, pois se cada um tem um determinado gosto pessoal e cada instrumento a sua própria característica, o número de hipóteses para cada canção cresce de forma exponencial. Ao vivo é um pouco de tudo isto, maior versatilidade e prazer no que fazemos!

As comparações que vos têm feito (com nomes do calibre de Animal Collective, Fleet Foxes…) chateiam-nos ou honram-vos?

Afonso Cabral: Nem um nem outro... sabemos que as comparações fazem parte das regras do jogo. Às vezes somos comparados a bandas que nunca ouvimos, e isso tem alguma piada mas não nos chateia. Aliás, eu nunca ouvi um disco de Fleet Foxes...

David, para terminar gostava de saber como é que a tua memória vos salvou de ficarem associados aos Papa Roach? Qual foi a ligação que fizeste entre esses azeiteiros e o nome que estavam para dar à banda?

David Santos - O mais certo seria ninguém fazer a mesma associação de palavras que eu fiz, e dessa forma eu seria o único assustado com tal paralelismo. No entanto, para não me sentir sozinho resolvi partilhar com os outros cinco membros a minha ideia e o pânico generalizou-se, sendo urgente apagar das nossas mentes o refrão "... Broken home, all alone..." (O nome não era este!! – nota: o nome que estiveram quase a dar à banda era Of Broken English), e assim descobrir os You Can´t Win Charlie Brown!
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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