ENTREVISTAS
Ignatz
Sonambulismo distorcido
· 07 Jun 2006 · 08:00 ·
Ignatz, heterónimo de Bram Devens, tem 28 anos e é responsável por uma das estreias mais entusiasmantes dos últimos tempos. Belga da metade flamenga, a sua música bebe inspiração nos velhos bluesmen norte-americanos, na psicadelia nipónica e em algum minimalismo. Com o auxílio de uma guitarra clássica e de uma velha pedaleira de efeitos, Ignatz constrói uma música sonâmbula, afogada em camadas de distorção e pontuada por pequenas melodias vocais. Os mais atentos não perderam a oportunidade de o ver na última noite do festival “Where’s the love” organizada pela ZDB em Maio último.

Bram recebeu-nos em sua casa na Zona Este de Bruxelas. Apesar da sua timidez, acentuada pelo seu tom de voz baixo, não se esquivou a nenhuma questão e até nos brindou com uma pequena sessão de improviso, qual Peel Sessions. Contou-nos, entre muitas outras coisas, sobre a sua passagem por Lisboa, sobre a sua paixão pela Banda Desenhada e sobre uma cumplicidade partilhada com um Sunburned Hand of the Man.

A totalidade da entrevista, assim como as duas peças tocadas, podem ser escutadas na “Má Fama – Libertinagem no Éter", um programa da Rádio Zero.
Chegaste recentemente de Lisboa, como decorreu a experiência de tocar no Festival “Where’s the Love”, organizado pela Zé dos Bois?

Gostei mesmo muito do Festival, de todo o ambiente, das pessoas, dos concertos, especialmente Skaters e Axolotl. Eu estava bastante nervoso por actuar, mas acho que acabou por correr tudo bem.

E qual foi a reacção das pessoas? Gostaram?

Acho que gostaram, sim. O feedback foi bastante positivo.

Gostaste da cidade?

Sim, gostei. Fiz alguns percursos turísticos, pelo Castelo e assim. Não vimos muito, mas o que vimos adorámos e quero, certamente, voltar.

E quanto a música portuguesa? Chegaste a ouvir alguma coisa?


Vi os Fish & Sheep, que foram muito bons, tocaram altíssimo e partiram tudo… têm que vir aqui tocar, provavelmente virão.

Os Loosers tocaram cá, na Bélgica, há uns meses…

Vi-os em Hasselt, sim. Tocaram com Mouthus.

Tens mais datas internacionais? Planeais voltar a tocar fora da Bélgica?


Não. Voltaremos à estrada só depois de terminar o meu segundo CD. Em princípio, irei com os Sylverster Anfang, uma banda flamenga de free/drone/black metal.

…black metal?


Eles gostam de se rotular de “black metal”. Ouvem, bastante, as bandas norueguesas, no entanto, não soam nada como elas. Gostam, sim, de todo o espírito envolvente, da simbologia religiosa e do artwork. O número de pessoas envolvidas no colectivo varia, por vezes são quatro, outras vezes seis, depende. Também estou a tocar com eles agora.

Voltando um pouco a trás. Estudaste banda desenhada e o teu nome artístico, Ignatz, está intimamente ligado a George Herriman, um dos mais famosos da nona arte. Fala-nos um pouco sobre esta BD.

É uma banda desenhada muito antiga, uma das primeiras tiras a aparecer nos jornais norte-americanos, onde figuram, numa espécie de triângulo amoroso, Krazy Kat, Ignatz e Offisa Pup. Krazy Kat está apaixonado por Ignatz, este retribui atirando-lhe tijolos, o que é entendido como um sinal amoroso por Krazy Kat. É uma BD bastante poética, com uma linguagem especial, calão dos inícios do século passado. Há também algo de surreal, os cenários estão sempre a mudar, mesmo que a acção se desenrole no mesmo espaço.

E porquê Ignatz? Relacionas-te de alguma forma com a personagem? Também gostas de atirar tijolos?

(risos) Nunca atirei tijolos a ninguém… O Ignatz é um rato bastante mauzinho, mas também muito querido e tem qualquer coisa - não sei dizê-lo em inglês, apenas em flamengo - de picante, talvez. Gosto da personagem da BD.

Que outros autores de BD destacas?


Gosto muito do Chris Ware, do Daniel Glows, do Crumb, do Herge, entre outros.

Para além da BD e da música, o que te influencia artisticamente?


Julgo que a percepção, a forma como olhamos e entendemos o meio, como preenchemos as falhas (“gaps”) para que tudo faça sentido. Fazendo uma analogia com a banda desenhada, a forma como interligas os painéis, como preenches os espaços, vazios, que os separam. Eu gosto muito de observar, de passear.

Cresceste em Bruxelas?

Não, em Hasselt

E como julgas que isso te influenciou enquanto pessoa e artista?

Hasselt é uma cidade muito pequena com cerca de sessenta mil habitantes.

Entediante?

Tudo parece medíocre, não há nada de verdadeiramente espectacular ou belo, nenhuma montanha ou rio, tudo é demasiado banal.

Para além do Belgie Kunstundentrum (Centro Cultural bastante dinâmico. Co-realiza, anualmente, o festival (K-RAA-K)3)?

O Belgie Kunstundentrum é provavelmente o único motivo de interesse da cidade. O centro apareceu na minha adolescência e exerceu uma influência enorme. Desde os 15 anos que, praticamente todas as semanas, assistia a concertos lá. Não me posso esquecer, também, da biblioteca e da sua colecção de música. Na altura não existia Internet e visitava-a com bastante regularidade. Como não tínhamos carro, íamos de comboio, mais ou menos uma vez por ano a Antuérpia ou a Bruxelas à procura de discos.

Vivias num subúrbio, relativamente isolado...


Sim, mas não me posso esquecer da rua onde cresci. Os meus pais são de esquerda, não comunistas, mas próximos. Na minha rua todos partilhavam os mesmos princípios e educação. Existia um espirito de comunidade bastante forte.

Cresceste a ouvir a música dos teus pais?

Sim, o meu pai está muito ligado ao teatro, costuma assistir a 3 ou 4 peças por semana. Em miúdo, levava-me a ver espectáculos de teatro e de dança. A minha mãe ouve bastante música clássica.

Estamos nos anos 80, certo? Quantos anos tens?


Durante os anos 80, sim. Tenho 28. O meu pai não se interessava muito por música, mas ouvi coisas como Glenn Blanca, muito associadas às performances de dança e teatro a que assistia. Portanto, ouvia Glenn Blanca com 8 (risos).

Ouvir Glenn Blanca em miúdo deve ser uma experiência fora do comum.

Nessa altura ainda não ligava muito à música.

Aos 15 anos começaste a brincar com velhas cassetes. Desenrolavas, danificava-las e voltavas a enrrolar. Fala-nos um pouco mais dessas experiências.

Utilizei as cassetes, principalmente, por razões monetárias. Todo o movimento Lo-Fi, muito presente no início dos 90, acabou por me influenciar.

Que música é que ouvias?

Sonic youth, Sentridoh, Pavement,... Ver o Thurston Moore na Televisão, a sangrar das mãos e a fazer feedback, fez me comprar uma guitarra eléctrica. Mudou-me a vida.

Como descreverias o teu processo criativo? Improvisas, exclusivamente?

Sim. Geralmente tenho uma ideia ou um sentimento que procuro desenvolver. Toco e vou reagindo aos sons. É um processo bastante intuitivo. No fundo, apenas toco.

Com a guitarra e os pedais? Ou utilizas outros instrumentos?

Utilizo bastante os sintetizadores e outras porcarias.

Que instrumentos utilizas no processo de construção dos samples?


Principalmente pedais de efeitos, mas por vezes utilizo o que estiver mais à mão e que produza qualquer tipo de som. Utilizo também flautas, sintetizadores e alguns instrumentos africanos. Depois da construção dos samples, processo-os na pedaleira de efeitos à medida em que vou tocando guitarra e cantando.

Nunca procuras estruturar as peças, editá-las, desenvolvê-las?

Nunca. Passo um dia inteiro a tocar e a gravar K7s, no fim selecciono o que mais me interessa e apago os samples. É um processo semelhante a desenhar: faço rascunhos, continuamente.

Interessas-te mais pelo processo do que pelo resultado?

O resultado é importante, mas não necessito de dias de trabalho para o atingir. O que me interessa é captar um instante, um determinado momento. No entanto, não acredito que seja possível ter a noção da relevância enquanto se toca, mas sim à posteriori.

Mas tens prazer em tocar?

Claro que sim. Tocar e toda a concentração inerente é me vital, funciona como escape.

Quando a canção está registada, apagas o sample que utilizaste, o que te impossibilita de o voltares a utilizar no futuro. Tens medo de te repetir?

Mas eu repito-me. Apesar disso, ao tocar, sai-me sempre diferente.

Mas porquê apagar os samples? Não te poderão vir a ser úteis?

Por vezes guardo-os. Agora, quando toco ao vivo, preciso deles, pois não tenho autonomia para os construir em tempo real. Por isso, tenho alguns samples guardados para as actuações ao vivo. Já, quando gravo, apago-os das K7s.

Mas não é uma questão de espaço?

Ao gravar, ou se tem sucesso e se faz algo de interessante ou não. Quando as coisas correm mal, prefiro seguir em frente. Os sons não são assim tão únicos ou especiais…talvez sejam… no entanto, tenho uma série de trechos de guitarra que toco com, alguma, regularidade, mas quando gravo procuro afastar-me disso, quero que o momento seja aberto.

E relativamente aos concertos? Também é tudo improvisado?

Bem, não. Na realidade tenho um set para o qual preparo previamente alguns sons, podendo estes ser manipulados ao vivo, contribuindo assim para a imprevisibilidade da actuação.

Sabes como e quando é que vais terminar?

Não, não sei como nem quando terminará. No início e devido a questões técnicas, os concertos contrastavam com o material gravado. À medida que fui tocando ao vivo, consegui diminuir esses contrastes.

As letras são praticamente imperceptíveis, desfocadas por técnicas vocais, efeitos ou através da mistura. Procuras utilizar a voz como um instrumento, relegando as letras para segundo plano? O que cantas?


Canto em inglês, no entanto, essa não é a minha língua materna. Canto como uma criança de 4 anos que não sabe inglês e que trauteia canções da rádio. As letras não fazem nenhum sentido. Retiro algumas frases, palavras muito utilizadas como “Night” e “Day”. Às vezes canto frases que, de facto, me fazem algum sentido.

Como é que atribuis os títulos das canções? Existe algum procedimento lógico?

Os títulos surgem apenas quando tenho que lançar um CD ou K7. Normalmente, não atribuo nome às canções. Costumo pilhar os títulos de coisas que leio, apenas um música do álbum foi retirada de uma frase que canto.

Atribuis especial atenção ao artwork das tuas edições, aos cartazes e aos vídeos que suportam, algumas, das tuas actuações. Li algures, provavelmente no site da (K-RAA-K)3, que te consideras um lo-fi fascist.

Já não o sou. Quando era mais novo queria que tudo soasse roufenho e amassado. Ao não gostar da produção de um álbum, danificava a K7 até ficar ao meu gosto.

Recordaste de algum nome em especial?

Hüsker Dü.

A (K-RAA-K)3 é uma plataforma cultural, vocacionada para a distribuição e edição, cuja filosofia é semelhante à nossa ZDB. Como surgiu a oportunidade de editares o teu primeiro disco por esta editora?

Costumava ir aos concertos organizados pela (K-RAA-K)3. Um dia, numa revista, deparei-me com um anúncio deles a pedir demos e respondi.

Ouvi dizer que estavas constantemente a compor. O teu primeiro CD é uma compilação que reúne canções gravadas nos últimos anos. Como foi que seleccionaste o material?

Enviei, julgo, três CDs com quarenta canções ao Dave da (K-RAA-K)3. Posteriormente, pontuamos as canções e fizemos um ranking, escolhendo as mais votadas.

O que sucedeu às outras canções? Não planeias editá-las? Já não gostas delas?

Não, não planeio editá-las. Tenho canções que gosto que não foram editadas, ou porque não eram suficientemente boas ou, simplesmente, porque não combinavam bem com as escolhidas. Prefiro editar material novo.

Planeias editar num futuro próximo?

Sim, tenho alguns planos para editar umas K7s e CD-Rs e um segundo CD, mas ainda estou a trabalhar nisso. De uma K7 de três horas selecciono, apenas, cerca de trinta minutos.

Ao pesquisar na net, o teu nome associa-se, sempre, a old blues man, à psicadelia japonesa, aos minimalistas e a nomes associados a John Fahey. O que tens andado a ouvir?

Sim, uma série de old blues mans. Oiço bastante o Keiji Haino e também o Jonathan Richman (risos).

Como nasceu esse interesse?


Foi um tipo, um colega de escola que, depois de uma pequena discussão, me mostrou a secção de blues da Biblioteca da cidade, coisas com Bukka White e Lonnie Johnson.

A tua música constrói-se em camadas, não existindo espaços por preencher. Gostarias de desenvolver novos métodos criativos? Utilizar outros instrumentos? Tens medo de te repetires?

Sim, tenho receio de me repetir. O equipamento que utilizo é limitado, no entanto, sinto que ainda não me repeti e já o utilizo à mais de 4 anos. Quando toco com outras pessoas altero-o, pois não é aconselhado a improvisos. Ao vivo não tenho tanta margem de manobra como a que tenho quando estou a gravar, não posso fazer samples em tempo real.

Existem, sem sombra de dúvida, algumas pessoas, no underground, a organizar pequenos concertos em apartamentos, caves, cafés. Sentes-te isolado, musicalmente dessa comunidade?

Existe uma comunidade musical muito saudável na Bélgica. Tens, por exemplo, em Antuérpia as editoras Imvated, Audiobot e Veglia, a loja Freaks End Future , a (K-RAA-K)3 e o Belgie em Hasselt. Existem imensos concertos e todas as bandas cá tocam. Mas claro que é uma comunidade pequena.

Existem músicos na Bélgica com os quais sintas afinidades?

Existem muitas pessoas a tocar e a criar. Sinto que todos possuem uma identidade própria, não podendo, por isso, sentir-me mais isolado do que os outros. Há também um espírito comunitário bastante forte, muitas pessoas tocam juntas. Algumas chegam a ter 10 projectos, todos diferentes.
Gosto bastante do Erwin Shizoid, excelente guitarrista, dos tipos da Imvated, o colectivo Dirk Freenoise, a Funerfolk de Gent, Silverster Anfang, Orphan Fairytale e ROT entre outros.

Como foi que conheceste o Paul Labreque, dos Sunburned Hand of Man?

Ele ouviu o meu CD e contactou-me durante o (K-RAA-K)3 Festival. Disse-me que devíamos tocar e já temos algumas horas de gravação captadas durante as quatro jams realizadas. Neste momento temos estado a seleccionar material e a fazer overdubbs.

Planeiam dar concertos?

Nada em concreto, ainda nem temos nome, mas queremos tocar, sim.

O que gostarias de atingir, enquanto músico, a nível criativo e artístico?

(Pausa para pensar) Não sei, apenas quero continuar a tocar e a fazer música.
Sérgio Hydalgo
sergiohydalgo@gmail.com

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