ENTREVISTAS
Chris Corsano
O Jogador
· 16 Mai 2006 · 08:00 ·
Em todas as épocas surgem figuras que emergem da mediania para capitanearem movimentos, assumindo-se enquanto pivots, propulsores de novas ordens, desafiadores da banalidade, sempre em busca da vanguarda estética. Nas esferas da música não-alinhada há um nome que nos anos recentes tem surgido ou pouco por todo o lado. Chris Corsano é nome de baterista, um americano generoso que tanto colabora em movimentações free rock, como se afirma como impulsionador de múltiplas parcerias na cena free jazz. Six Organs of Admittance, Sunburned Hand of the Man ou Espers são bandas que têm em comum a procura de novas formas de som. Paul Flaherty, Nels Cline ou Joe McPhee têm em comum um permanente caminho de criação por intermédio do free jazz. A colaborar com todos está Corsano, para quem o jogo em vários campos é compatível, com toda a naturalidade do mundo. Agora que editou um disco a solo, Chris Corsano apresenta-se a solo em Lisboa, para um concerto que promete incendiar a Galeria Zé dos Bois. Do seu fascínio inicial pela bateria até aos sons que o continuam a cativar, ficam indícios da personalidade de um músico que começa a deixar marcas profundas na música no nosso tempo.

O que é que o levou a escolher a bateria, um instrumento que habitualmente fica na “sombra”?

O meu irmão Tony toca bateria desde que eu nasci. Acho que a influência dele foi decisiva, mais do que tudo o resto. Não sei se a bateria será necessariamente um instrumento de “sombra”. Depende de como se ouve a música. Para mim, bateria e baixo – a secção rítmica – eram as coisas que eu mais sentia, que me levaram a tocar. Eu mal sei as letras das músicas que mais gosto; acho que os meus ouvidos focam a atenção noutros pontos.

Quem foi o baterista que mais o influenciou? Milford Graves, Elvin Jones, Andrew Cyrille, Sunny Murray, Günter Sommer, outros?

Dessa lista eu diria Milford Graves, que teve uma certa influência. Mas ele foi o único deles que eu vi ao vivo, o que pode ser muito importante para este tipo de música. Há muitos outros bateristas que expandiram as coisas e eu vi-os: Adris Hoyos, Sean Meehan, Tom Bruno, Brian Chippendale, Randall Colbourne. E depois há muitos outros que não tive a sorte de ver ao vivo, mas cujas gravações abriram muitas portas: Muhammad Ali (o irmão de Rashied Ali), Beaver Harris, Ed Blackwell, Billy Higgins.

Como tem sido trabalhar no duo com Paul Flaherty?

Bem, nós não temos tocado muito desde que me mudei para Manchester, Inglaterra, no ano passado. Tem sido óptimo ver, com o passar dos anos, como o duo se desenvolve e encontrar músicos para expandir o grupo.

Tocou com Nels Cline e Wally Shoup no disco Immolation/Immersion, toca com Paul Flaherty, JoeMcPhee, entre outros. Estando habituado a trabalhar com músicos de idades diferentes, sente que existe algum tipo de conflito de gerações?

Eu não sinto nenhum conflito de gerações, pelo menos com as pessoas com quem costumo tocar. É reconfortante partir de backgrounds muito distintos e ainda assim ser-se capaz de comunicar a um nível suficientemente profundo para conseguir criar agitação. Se a improvisação livre é como uma conversa, então a boa improvisação acontece quando a conversa traz ideias e significados. Não pode ser uma simples conversa de circunstância, tem de se transportar realmente ideias profundas para o instrumento. Esse é o sentimento que eu recebo da música que gosto e isso não tem nada a ver com a idade.

Na cena free jazz costuma tocar habitualmente em duos e trios. Prefere tocar em grupos pequenos ou em grandes formações?


Os grupos pequenos são porreiros porque a atenção é centrada nos sons/músicos individualmente com mais facilidade. E logisticamente, é mais fácil ouvir as subtilezas em pequenos grupos. Mas os grupos grandes também são bons porque se conseguem criar massas sonoras gigantes em que toda a gente faz parte. Realmente não tenho uma preferência, o que interessa é que me sinta bem no grupo.

Tocou com Manuel Mota, Okkyung Lee e Toshio Kajiwara no festival Atlantic Waves em Londres. Na altura li que foi um grande concerto. Como o sentiu? Poderá voltar a tocar com estes músicos?

Espero que aconteça novamente. Infelizmente há um grande Oceano Atlântico que nos afasta, Okkyung e Toshio por um lado, e Manuel e eu, por outro. Mas os três são óptimos – tanto como músicos, como pessoas – e espero ter a sorte de voltar a tocar com eles de novo.

No disco The Young Cricketer usou uma vasta multiplicidade de instrumentos e objectos, nunca usando overdubs, mas conseguindo soar por vezes como se estivessem várias pessoas a tocar. Era uma ambição sua gravar um disco a solo?

Nem por isso, nunca estive muito interessado a trabalhar material solo ao vivo ou em disco. Aconteceu simplesmente porque me mudei para Manchester e lá não tinha nenhum dos meus velhos “parceiros de crime” para tocar. Comecei por fazer alguns espectáculos sozinho e como a reacção foi extremamente positiva resolvi continuar. Ao princípio pensei que as pessoas fossem odiar, por isso acabou por ser uma surpresa muito boa.

Todas as faixas do seu disco solo são referências ao cricket, um desporto estranho. É fã?

Na verdade estou fascinado com o cricket. Ao ter crescido nos Estados Unidos, joguei e vi muito basebol, que é parecido com o cricket em vários aspectos, mas completamente diferente em outros níveis. Essa estranha combinação entre o familiar e o desconhecido acaba por ser muito semelhante com a minha experiência de mudança para o Reino Unido.

Como será a apresentação ao vivo em Lisboa? Será algum material do álbum a solo ou simplesmente improvisação completa?


Bem, como se trata de improvisação não tenho nenhum set preparado para o espectáculo. Muito dos sons e métodos serão similares aos usados no disco a solo. Uma coisa normalmente/felizmente leva à outra, e eu gosto de deixar as decisões para a altura do concerto, conforme o que se sinta no momento.

Como é que combina estas duas vertentes, tocar free jazz e tocar com bandas como Six Organs of Admittance ou Espers?

Eu não penso muito nisso… Se gostamos de algo, analisamos a sua superfície, mas também o seu núcleo. E talvez no seu núcleo as músicas não sejam assim tão diferentes. Ou talvez sejam, mas é certamente possível gostarmos de mais do que um estilo de música.

As colaborações habituais com grupos rock levam a que seja mal visto por alguns elementos da comunidade free jazz?


Não sei ao certo, nunca perguntei.

Na Galeria Zé dos Bois vai tocar num festival ao lado de músicos como Alan Silva e Joe Morris. Gosta do trabalho destes músicos?

Com certeza! O LP triplo da Celestrial Communication Orchestra de Alan Silva na BYG/Actuel é uma espécie de holy grail da livre improvisação de big band. Uma vez tinha uma cassete dessa gravação a tocar no carro enquanto conduzia através de uma tempestade em que mal se via a estrada, devido à violência da chuva. A música estava perfeita – e era a única coisa que naquele momento conseguia aguentar-se à força da Mãe Natureza.

Já actuou e continua a actuar com muitas das grandes figuras do free jazz. Ainda há alguém com quem gostasse de tocar?

Definitivamente! Dezenas de pessoas… Nem sei por onde começar. Mas é melhor não dizer nomes, para não dar azar. É melhor ser-se supersticioso com este tipo de coisas.

Quem são os músicos que mais aprecia no free jazz contemporâneo?


Assim de cabeça: TEST! (Daniel Carter, Sabir Mateen, Tom Bruno, Matt Heyner), Joe McPhee, Okkyung Lee, William Parker, Hetero-Skeleton, Steve Baczkowski, Peter Brötzmann, Paal Nilssen-Love, Steve Swell, Kidd Jordan, Fred Anderson, John Butcher, Alan Wilkinson, Paul Hession, Tim Barnes, Sean Meehan, Greg Kelley, Mats Gustafsson…

E para lá do free jazz, quais são os outros músicos ou bandas que o entusiasmam?

Bem, de coisas actuais: Magik Markers, Wolf Eyes, Lambsbread, Comets On Fire, Eloe Omoe, Fat Worm of Error, Josh Burkett, Lightning Bolt/Mindflayer, Borbetomagus, No-Neck Blues Band, Toymonger/Bullets, Burning Star Core, Prurient, Lauhkeat Lampaat, Vibracathedral Orchestra, Jack Rose, 16 Bitch Pile-Up, Sun City Girls/Alvarius B/Sir Richard Bishop, Grey Skull, Metalux, Kites, Mirror/Dash, Hair Police, Eyes And Arms of Smoke, Sapat/KARK, Jason Zeh, Withdrawal Method, Blood Stereo, Taurpis Tula, Christina Carter, MV/EE, Noise Nomads, Aaron Dilloway, Can’t, Dreamhouse, Heathen Shame, x.o.4, Nautical Almanac, Donna Parker, Kemialliset Ystavat/Tomutonttu, Keiji Haino, Avarus, Tony Conrad, Loren Connors-Alan Licht, Hototogisu, Ashtray Navigations, Serfs, Monotract/Carlos Giffoni, Pengo, Orphan Fairytale, Carl Sagan (a banda, não o astrónomo)…

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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