ENTREVISTAS
OTO
Dicotomia música-ruído
· 05 Nov 2009 · 09:44 ·
© Francesca Savoldi
São um dos projectos recentes portugueses mais irreverentes e inesperados. Misturam electrónica, improvisação e noise, numa amálgama sonora mutante. Pedro Lopes, Pedro Sousa e Mush Von Namek formam os OTO, trio que explora fronteiras estéticas indefinidas. O grupo “nasceu” em Serralves (belo sítio para se começar!) e já passou por diversos festivais – o mais recente foi o Sonic Scope 09, onde o trio actuou ao lado de figuras já históricas da música “experimental” portuguesa. A agenda do trio não tem parado e no próximo dia 27 de Novembro actuam no festival Imagens Projectadas II, um espectáculo encomendado pela Granular (associação que reúne a nata da vanguarda lusa) onde terão a companhia do artista sonoro e visual André Gonçalves. Entretanto o trio está a trabalhar com o saxofonista japonês Nobuyasu Furuya num projecto que está ainda escondido, mas que terá apresentação ao vivo para breve. No momento que acabam de editar um primeiro trabalho, CD-R edição limitada de edição de autor (disponível nas prateleiras da loja Trem Azul), falámos com Pedro Lopes, um dos vértices deste enigma.
Como nasceram os OTO?

O projecto OTO nasceu de duas particularidades, a primeira foram algumas sessões de experimentação onde estávamos a desenvolver numa vertente electrónica/eléctrica em quarteto (os três membros originais e ainda o Gabriel Ferrandini – na altura debruçado sobre as possibilidades dos gira-discos). Depois surge a ideia de concorrer ao Serralves em Festa para a qual optámos pelo trio Pedro Lopes - Pedro Sousa - Mush Von Namek, uma vez que o Ferrandini se apresentou a concurso com o seu projecto o Red Trio. Para Serralves realizamos algumas semanas de trabalho intenso que nos levaram a desenvolver uma identidade que deu inicio à modelação dos OTO, composta por uma linguagem, sonoridades, instrumentação e abordagem electrónicas.

Os OTO foram vencedores do “Concurso Projectos Artísticos – Serralves em Festa 2008”. Como correu a primeira experiência ao vivo em Serralves?

A primeira experiência foi um concerto complicado, optámos por reinterpretar algumas das improvisações registadas no disco que gravámos para Serralves, alguns momentos não resultaram tão bem quanto outros e, apesar de tudo o que fazemos em estúdio seja improvisado e pouco alterado, ainda estávamos num momento de compreensão das variáveis que têm de ser controladas para que a sonoridade OTO funcione ao vivo. O resultado podia ter sido melhor, mas apesar disso foi um concerto interessante com óptimos momentos de comunicação.

De onde é que apareceu o nome OTO? Tem alguma coisa a ver com o Café OTO em Londres?

Não, de forma alguma – se bem que seria um local curioso para uma actuação muito site-specific nossa! E é um “venue” por onde passam regularmente nomes com que nos identificamos: Marclay, Otomo, Phillip Jeck, Corsano, etc... O nome OTO tem grandes implicações em toda a nossa música, sendo mais do que um substantivo, é um conceito. OTO na língua japonesa é a palavra para música, nota musical ou ruído... conforme a semântica da frase onde é usada, essa dicotomia música-ruído interessou-me bastante e por isso acabei por propor o nome ao Pedro Sousa e ao Mush que concordaram imediatamente. O fascinante é que na língua japonesa a mesma palavra é usada para dizer ruído ou música, encerrando portanto esses dois universos (que tantas vezes são colocados a distâncias interestelares) bem perto, quase como um só – e é isso que a nossa música também veicula: a utilização do ruído na construção harmónica e musical. Curiosamente, só mais tarde, talvez por termos ficado algum tempo ofuscados com a beleza do japonês, nos lembramos que OTO é de facto a palavra grega para ouvido... o que é perfeito para um projecto que assenta mais na comunicação auditiva do que em pautas!

Porquê a utilização massiva de electrónica e a quase ausência de instrumentos tradicionais?

Porque não?! Na altura em que delineámos o projecto pela primeira vez optámos por manter uma manipulação electrónica muito orgânica – característica essa que nos dá vantagem no discurso improvisacional, desprendendo o músico de alguns alicerces estáticos das convencionais abordagens electrónicas muito centradas na sequenciação / sample-based / etc... Apesar de existir um elemento eléctrico e mais recentemente acústico (a guitarra e saxofone alto do Pedro Sousa) sempre foram trabalhados e esculpidos (não fosse ele escultor) com as possibilidades do processamento electrónico. O gira-discos é outro caso (de um instrumento eléctrico) que beneficia dessa transformação natural-abstracto conseguindo ganhar uma nova forma, essa é no fundo uma das premissas que nos possibilita retirar as características usuais do “som de cada instrumento” para extrapolar um novo resultado sonoro muito próprio.


Quais são as influências do vosso som? Têm afinidades claras com o noise "clássico", Merzbow à cabeça, ou é mais assumida a ligação com os trabalhos de giradisquistas como Otomo Yoshihide ou Christian Marclay?

Existem referências que se podem cruzar com a sonoridade dos OTO, por um lado são evidentes conotações com a estética noise encabeçada pela frente japonesa Merzbow ou Otomo, no entanto nunca existiu no projecto nenhuma tentativa de mímica estética destas ou de outras referências. De uma forma microscópica existe nos OTO um cruzamento de três personalidades centradas em diferentes referências, havendo claro discos e estéticas comuns a nós os três. É óbvio que da minha parte existe um respeito enorme pelo trabalho do Otomo, Marclay, Martin Tétreault e Michel Langevin (em dueto com o último) mas também de outra fauna onde se encontram as aves raras: Prefuse 73, Josh Davies (DJ Shadow), DJ Spooky e o mui-sui-generis Kid Koala – ao mesmo tempo sou um ávido consumidor de Jazz e música livremente improvisada, especialmente naquilo que a crítica habitualmente designa como música de vanguarda, e electrónica, claro! Numa outra ponta do triângulo, o Mush von Namek revela influências de uma linguagem e sonoridades de um Selected Ambient Works II [Aphex Twin], alguma estética sci-fi, mas sem influências específicas, não existe nenhum projecto que possa ser apontado como influência maior. A fechar o polígono, desde a adolescência que o Pedro Sousa ouve de tudo: imenso jungle, breakcore, hip-hop, trip-hop e a chamada IDM - que foi sempre uma categoria pouco aceite - nomes como Aphex Twin, Squarepusher, Venetian Snares, µ-Ziq, Autechre, etc. Também ouvia bastante música rock/trash/ou-quase-a-cair-para-o-noise e era um ávido consumidor de Mr. Bungle (e tudo do Mike Patton), Zorn (com os excelentes Painkiller por exemplo), Pink Floyd e Soft Machine, DEP, Klekta Red e por aí fora. Cruzou-se nesta altura com o trabalho de Otomo (mais na sua vertente de jazz) e de Derek Bailey, Ruins (em colaboração também), Diamanda Galás, etc. Na altura estava mais interessado nos trabalhos de DJ Spooky, por exemplo. Mas mais recentemente tem ouvido cada vez mais jazz.

A vossa música é trabalhada num diálogo em tempo real. Sentem-se herdeiros da improvisação livre ou mesmo de alguma linguagem do jazz?

Nenhuma movimentação sonora dos OTO assenta em estruturação pré-definida ou pautas-pré-concebidas, por tal, somos herdeiros da improvisação. Mas o projecto é também ele um binómio entre a composição em tempo real e o trabalho na sala de ensaio, que nos proporciona uma linguagem, dinâmica e afinação sonora que são de certa forma “compostas” em estúdio, tudo isto temperado com a posição de cada elemento - por exemplo, o Mush Von Namek assume-se como designer sonoro, em vez de músico. Quanto a sermos herdeiros do jazz, se o somos é muito inconsciente, mas é sabido que nos movimentamos muito em torno de músicos do jazz-mais-livre e as nossas prateleiras e discos rígidos também não dizem o contrário. Contudo o jazz é uma linguagem que define particularidades de estrutura, recursos improvisacionais e instrumentação própria - até nas formas mais livres – por isso não podemos de forma alguma argumentar que a nossa linguagem é o jazz, mas sim uma matriz multidimensional com alguns vectores do jazz-free.

Além daqueles que influenciam directamente o vosso som, que discos é que vocês ouvem em casa? O que destacam dos discos editados em 2009?

Eu fui pouco assíduo das prateleiras da edição discográfica do presente ano, o que pode ser motivo de gáudio pessoal pois retrata um ano prolífero em trabalhos e concertos, mesmo assim recordo-me de alguns títulos que me fizeram sorrir: In Former Times dos Memorize the Sky e The Second Original Silence, do super grupo do mesmo nome (apesar de serem de Setembro do ano passado só os comecei a escutar recentemente); um outro exemplo é o disco do português Motion Trio. Por ouvir tenho na cabeceira uma data deles, assim de cabeça: o novo do Jon Hassel na ECM, Cryptomnesia (a nova loucura do Omar Rodriguez-López), Xerox Vol. 2 de Alva Noto e com alguma expectativa Everything She Touched Turned Ampexian de Prefuse 73. Quanto ao Pedro Sousa, ouviu a maioria de tudo o que foi editado em 2009 pela Clean Feed, o novo disco do Rodrigo Amado, o novo disco dos The Thing, o Hairy Bones do Brötzmann e aguarda o novo dos Offonoff. O Mush von Namek não ouviu quase nada de 2009, mas em casa tem ouvido muita coisa diferente: Amon Tobin, Beethoven, Can, Dusty Kid, Enio Morricone, etc.


Já actuaram no Festival Rescaldo e Sonic Scope, duas mostras da música "marginal" mais interessante que se faz em Portugal. Numa reportagem o Rui Eduardo Paes classificou os OTO como "a grande revelação do Rescaldo". Sentem-se ao nível de bandas com peso histórico como os Osso Exótico ou a VGO?

Sentimo-nos ao nível porque encaramos o projecto com seriedade e com toda a vontade de o levar sempre a bom porto. Os Osso Exótico são um projecto que admiramos (bem como outros side-projects dos seus intervenientes) e a VGO é um interessante colectivo onde eu e o Pedro Sousa também já colaborámos. A ideia subjacente a isto tudo não é estabelecer níveis de qualidade mas sim continuar a desenvolver o projecto pelas suas qualidades únicas e encarar isso com o mesmo equilíbrio do binómio seriedade/divertimento que temos levado a cada actuação.

Como vêem o actual panorama da música experimental em Portugal? Sentem especiais afinidades artísticas com alguns músicos/projectos?

Naturalmente, estando enquadrados no panorama através deste e de outros projectos paralelos que temos, já desenvolvemos afinidades com alguns músicos. Salta-nos logo à cabeça o André Gonçalves (que é, para além de músico, um artista intermédia com um trabalho refrescante) que convidamos para fazer os visuais da nossa encomenda directa da Granular para o evento Imagens Projectadas II, no Instituto Franco-Português no dia 27 de Novembro – neste festival, entre outros, actuará mítico trio Musica Electronica Viva. Outros nomes que facilmente nos são fornecidos pelo mecanismo da memória são o enorme Carlos “Zíngaro”, os excelentes laptopers Carlos Santos e João Castro Pinto, as curiosas abordagens do Travassos com material analógico ou Peter Shuy na guitarra, do minimal e estimulante Sei Miguel, a polifonia do pianista Rodrigo Pinheiro, a garra de Luís Lopes e Nuno Rebelo na guitarra eléctrica, o Nuno Moita, compatriota de Whit [outro projecto paralelo] e o nosso vizinho Gabriel Ferrandini (e sim, a lista continuaria...).

Qual é o rótulo com o qual se sentem mais confortáveis para definir a vossa música?

Rótulos é algo que nunca nos interessou particularmente. É claro que nunca podemos fugir deles no sentido em que são uma base de identificação para as pessoas (ouvintes ou organizadores de eventos, lojas, editoras, etc.) mas curiosamente temos estado com interessantes mutações de género desde a estreia em 2008, pelo que (não intencionalmente) complicamos a tarefa aos ensaístas e críticos de música. Se na altura de Serralves versávamos uma interacção circunspecta à ideia de motivo (segmentando a actuação em temas ou movimento, ainda que sempre sejam tocados como um) no Festival Rescaldo debruçámo-nos sob uma movimentação mais drone e estratosférica que fez mudar alguns parâmetros dentro do trio, por último no Sonic Scope apresentamos uma música que se pretendia coerente e abordando pela primeira vez a introdução de elementos rítmicos minimais e não-regulares com um óptimo trabalho improvisacional do Mush Von Namek, libertando a guitarra e a electrónica para discursos subtis e mais livres. Claro que apesar destas áreas indefinidas em que nos movimentamos, sentimos que existe de facto um núcleo de propriedades sonoras e estruturais que podemos identificar como sendo: OTO, um cruzamento entre a livre improvisação e o trabalho sonoro que desenvolvemos em ensaio. Já nos colocaram na prateleira do “ambient” ou na vastíssima electrónica, quem sabe em que prateleira nos colocarão a seguir? É uma questão que não nos preocupa...

Os elementos dos OTO têm colaborado com outros projectos. Em que projectos estão envolvidos neste momento?

Da minha parte [Pedro Lopes] encontro-me a trabalhar com dois projectos regulares: Whit (quarteto de livre improvisação com gira-discos com Nuno Moita, Fernando Fadigas e Miguel Sá) e os OTO. Para além disso tenho novos projectos a arrancar: Eitr (um duo com o Pedro Sousa em sax alto), o dueto com Gabriel Ferrandini (cuja estreia aconteceu no passado mês de Outubro, no Porto) e pontuais formações ou projectos. A minha actividade nunca se pretendeu circunscrita à música por isso tenho trabalhado também os campos da performance e da rádio arte – exemplos deste ano: “Transumância/Transhumance”, uma performance em espaço público dirigida pela artista Manuela São Simão no festival Future Places e “MajHora FM”, projecto vencedor do concurso Serralves em Festa 2009, composto por uma performance em Micro-FM concebido pela mesma artista e Joana Mateus. Quanto ao Mush, não gosta de se fazer convidado, por isso ainda não encontrou parceiros de aventuras sonoras - talvez fruto de trabalhar essencialmente em projectos que requerem programação MIDI, o que é um tanto ou quanto oposto ao que o improvisador busca. Mas tem dois projectos paralelos, ambos a solo, um deles interrompido, tendo-se debruçado mais sobre o projecto We Get Signal... Pontualmente surgem outras encomendas como foi o caso da peça de rádio-arte “Le Message // The Message” com dupla apresentação no festival RadiaLX (Rádio Zero) e First Spark (SoundartRadio, UK). O Pedro Sousa está sempre à procura de colaborar com outros músicos e neste momento colabora com os Flu (um quinteto de noise com Bruno Parrinha, Travassos, Jorge Serigado e Gabriel Ferrandini), um duo com o Gabriel Ferrandini, o já mencionado Eitr e ocasionalmente colaborações em duo ou trio com o Travassos do qual também resultou um concerto com o João Castro Pinto. Também tem um projecto de noise com o guitarrista Luís Lopes, que tem demorado para arrancar devido à dificuldade de agendar um concerto nas condições propostas.

Editaram a gravação do concerto de Serralves, uma edição de autor em CD-R de edição limitada. Têm planos para editar novo disco, eventualmente por uma editora com maior visibilidade?

Sem dúvida, desde que compreendemos que OTO resultava bastante bem ao vivo e em estúdio, ficamos com a perspectiva da edição mais alargada – naturalmente dentro e fora das fronteiras nacionais. Além disso, desde o início que temos sido bastante obsessivos na documentação das sessões de ensaio/trabalho do projecto, para além do disco que referiste (e que se encontrará nas prateleiras do Trem Azul em breve) temos já suficiente material para outros dois trabalhos, sem contabilizar a proposta com o Nobuyasu Furuya que seria também uma curiosa edição.

A Sasha Grey vai estar no Estoril Film Festival. Vão propor uma colaboração com a banda dela?

Ora aí está uma interessante possibilidade… Por várias vezes falamos em ligações intermedia, poderíamos convidar os aTelecine para uma remistura em tempo real – da minha parte estaria interessado em manipular o 7 polegadas que eles editaram. Será que eles aguentariam com OTO? Podemos ser bastante hardcore...
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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