ENTREVISTAS
peixe : avião
Meio animal, Meio máquina
· 18 Set 2008 · 08:00 ·
Acabou de sair mas 40:02, que é nem mais nem menos a sua duração, já era falado antes de existir. Os bracarenses peixe:avião têm recebido uma atenção pouco usual para uma banda que na sua biografia conta apenas com 12 meses. O encontro de projectos tão distintos como The Astroboy, Old Jerusalem, Smix Smox Smux ou Green Machine teve como resultado uma pop escrita em português que é amiga da rádio sem ser facilitista, que é de fácil absorção mas ao mesmo tempo complexa. Luís Fernandes foi quem assumiu a face deste peixe:avião que tem tudo para levantar voo na música pop nacional. A conversa revelou a genética do animal que é máquina que é parteira de canções.
O disco foi lançado há 3 dias. Como é que sentem hoje este 40:02?

Sentimo-nos contentes com o resultado final e satisfeitos pelas boas reacções que tem tido. Temos a certeza que foi um passo em frente na nossa, ainda curta, vida.

A banda surgiu em Setembro de 2007. Não é relativamente pouco tempo para amadurecer um conjunto de canções? Sentiram isso?

Acabamos por não o sentir por diversas razões. Nomeadamente o nosso background musical e, principalmente, o nosso método de composição que não se baseia nos tradicionais ensaios e consequentemente em relações interpessoais. Todos vimos de bandas/projectos anteriores, com mais ou menos projecção, e o nosso método de composição é baseado em pressupostos harmónicos, que surgem quase sempre em forma de escrita. Posteriormente os arranjos são feitos tendo em conta a "estética" que queremos transmitir com cada tema. Dessa maneira minimizamos o pouco tempo de existência e essa falta de maturidade enquanto conjunto.

Esta pergunta é sempre um bocado cliché. Mas cada um trouxe um bocadinho de Green Machine, The Astroboy, Old Jerusalem e Smix Smox Smux para os peixe:avião?

Julgo que sim. As experiências anteriores acabam por passar sempre de uma forma ou de outra e quem estiver atento vai encontrar esses pontos comuns. Mais de uns projectos que de outros, obviamente.

Os primeiros ensaios e encontros foram imediatamente criativos?

No nosso caso aconteceu o inverso. Os primeiros ensaios só aconteceram depois da primeira maquete estar totalmente gravada. Aliás, só nessa altura é que dois dos elementos da banda se conheceram pessoalmente. Começou por ser uma banda "tubo de ensaio". Posteriormente as coisas foram normalizando e aproximaram-se do tradicional formato "banda". Mas o método de composição é para manter pois é mais cerebral e controlado. Afinal de contas música é matemática como dizem os outros...

Demoraram muito a chegar onde queriam?

É também um processo em constante evolução, como tal sentimos que as próximas composições podem ser melhores. Ainda não chegamos onde queríamos.


Sobre o primeiro material que lançaram disse-se que os Radiohead eram uma influência demasiado forte. Tanto quanto sei quando se aperceberam disso fizeram um esforço para seguir por outro caminho...

Penso que houve certos temas que, principalmente pelo uso de dedilhados de guitarra e da voz em falsete, levaram muitas pessoas a fazer essa associação. Nunca foi nossa intenção ser copycat de ninguém e se as pessoas analisarem de uma forma musical e não empírica constatam que a comparação não faz tanto sentido. Como todos sabemos, a grande maioria dos ouvintes sentem uma necessidade enorme em catalogar tudo o que ouvem. Em alguns casos é por falta de referências, noutros é simplesmente para dizer mal. De qualquer das maneiras tivemos em conta esse factor na composição de temas novos. Com este disco essa comparação só se manterá por inércia ou por preguiça. Gostamos muito do trabalho dos Radiohead, tal como gostamos dos Stereolab ou do Beck. Gostamos de boa musica e influenciamo-nos em tudo o que ouvimos.

Escrever em português foi uma opção automática ou ainda tiveram um flirt com o inglês?

O português sempre foi a única opção, embora ao inicio o Ronaldo (que é o responsável pelas letras e pela voz) tivesse algum receio natural de o fazer. Escrever bem e de uma forma que funcione musicalmente em português nem sempre é fácil, daí o receio. Mas acabou por resultar bem, na nossa opinião.

Mas em alguma altura pesou aquela discussão Português VS Inglês tão em voga no país?

Não, não temos nada contra quem cante em inglês! Há pessoas a trabalhar excepcionalmente o inglês, como é o caso do Francisco de Old Jerusalem e muitos outros.

Então parece-te uma discussão estéril...

Acho que a discussão deveria centrar-se mais na qualidade da escrita e menos na língua em que o fazem. O que interessa é ser bom.

Os peixe:avião provocaram rapidamente um burburinho no público e na imprensa. Surpreendeu-vos essa atenção imediata?

Apesar de acreditarmos no nosso trabalho desde o início, a reacção tão rápida e tão intensa acabou por nos surpreender. Todos vimos de projectos bastante menos conhecidos devido ao cariz "underground" e não estávamos habituados a tanta exposição.

Deram há dias o primeiro concerto oficial de apresentação do novo disco no Theatro Circo. Como se dá este 40:02 fora do disco?

Ainda é cedo para ter uma opinião concreta sobre a transposição do disco para o palco mas as reacções ao primeiro concerto foram muito boas. Naturalmente perde em detalhe e sensibilidade e ganha em intensidade. Ao vivo também acresce a componente de improvisação/experimentação que tanto gostamos. Foi também um prazer ver aquela sala a rebentar pelas costuras.

Ouvi dizer que teve de se colocar lugares extras...

Sim. A sala tem uma capacidade de 236 lugares e estavam 290 pessoas. Para além disso, através de conversa com o programador do espaço referiu que as pessoas que procuraram bilhete no dia passaram a centena. Deixa-nos contentes!

Sentem de alguma forma que vieram preencher algum vazio na música portuguesa? Como é que se posicionam na "coisa"?

Não temos o intuito de preencher nenhuma lacuna até porque pensamos que em Portugal têm aparecido projectos muito interessantes e de inegável qualidade. Assim de repente posso referir Mikado Lab, The Portugals, Norberto Lobo, Deolinda, João Coração entre muitos outros. Preferimos centrar-nos na música em si e tentar fazer sempre melhor!


Mas a Rastilho deve ter visto alguma coisa parecida nos peixe:avião...

Felizmente a rastilho tem apostado em bandas nacionais de qualidade. Acho que, acima de tudo, o nível qualitativo tem aumentado de uma forma geral. No nosso país digo...

Braga é um sitio simpático e confortável para uma banda sair de?

À excepção de ter excelentes salas de ensaio, construídas e alugadas irrisoriamente pela Câmara Municipal, não. É muito mais difícil ser uma banda em Braga do que, por exemplo, em Lisboa. A imprensa tende a ignorar e, por vezes menosprezar, o que vem de fora do Porto e Lisboa. Também é mais difícil chegar a um público alargado vindo de uma cidade como Braga, mesmo com a ajuda do myspace. Os esforços e a qualidade têm de ser dobrados...

Achas que o local de nascimento ainda conta nestas coisas ou a internet anula a importância desse efeito?

Penso que a variável internet atenua apenas. Consegues chegar melhor a um certo tipo de público, mas não a todo. Também continua a ser difícil chegar à rádio/imprensa, à excepção de algumas pessoas que são incansáveis, como por exemplo o Henrique Amaro.

No entanto não foi difícil chegar ao Adolfo dos Mão Morta. Foi ele quem escreveu o press release do vosso disco...

O Adolfo vive actualmente cá em Braga e, apesar de na altura não o conhecermos pessoalmente, enviamos-lhe o convite por e-mail. Ele prontamente aceitou e deixou-nos lisonjeados com o texto que escreveu.

Esse pormenor das salas de ensaio que referiste há pouco é bastante curioso. O que é que nos podes contar mais acerca disso?

A câmara municipal construiu um complexo de salas de ensaio debaixo de uma das bancadas do antigo estádio 1º de Maio. São 9 salas, com cerca de 4 bandas em cada. Tem sido fundamental pois permite ensaiar/compor/gravar 24 horas por dia e 365 dias por ano. Para alem disso promove uma grande interactividade entre os músicos que frequentam o espaço. Seja para partilhar material, criar novos projectos e trocar ideias. A nossa maquete foi inteiramente lá gravada com material que pedimos emprestado aqui e ali... Parte do álbum também.

Agora, para finalizar, a pergunta da praxe. O que é que se segue para os peixe:avião? Sei que têm muitas datas ao vivo nos próximos tempos...

Queremos mostrar o disco ao vivo para o maior número de pessoas possível e em sítios cada vez melhores. Estamos a trabalhar com uma equipa de pessoas empenhada em ajudar-nos nessa tarefa, desde o booking ao som e ao trabalho cénico/luzes. Gostávamos também que as pessoas dessem atenção ao nosso disco pois acreditamos que poderão gostar.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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