EntrevistaCoclea

publicado em 19 Jul 2007 - 08:00

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Filho da ZDB

O MySpace tem destas coisas: quando menos se espera descobre-se um projecto novo, acabadinho de gerar mas carregado de ideias interessantes. Coclea, o projecto de Guilherme Gonçalves, é fruto desta rapidez contemporânea, tão excitante como amnésica. Dá este sábado, 21 de Julho, o seu primeiro concerto, numa noite partilhada com Território e Manuel Gião – outros dois nomes a seguir – na casa que lhe despertou a vontade de começar a tocar enquanto Coclea.

Esteticamente, as três peças disponíveis no MySpace, construídas em guitarra eléctrica, evocam a austeridade de um Loren Connors mais abusador da distorção.

Há pouca informação sobre Coclea. Podes contar como é que começou e em que ponto está hoje?

Este projecto começou após estar dois anos a ver todos os concertos que aconteceram na ZDB e a contactar com todos os artistas que lá foram. Houve um momento em que senti uma espécie de "despertar da mente" e tive vontade de começar a tocar. Há uns meses gravei cinco músicas das quais tirei alguns excertos para pôr no Myspace. O meu primeiro concerto vai acontecer neste próximo fim-de-semana.

Tens alguns planos de edição?

Ainda não tenho nada confirmado, a não ser alguns CD-R, com o artwork feito pelos Mean Motion, que vão estar a venda no concerto.

Os teus temas do MySpace deixam antever algumas influências: o Loren Connors, algum shoegaze, o psicadelismo. São coordenadas que aceitas ou apontarias outras?

São coordenadas que aceito totalmente. Talvez afastaria um pouco o shoegaze e punha psicadelismo em letras grandes. Vou beber a quase tudo o que tenha a ver com isso, como o dub, o garage, o stoner, o gnawa…

Os temas baseiam-se muito na exploração de "loops". Fizeste tudo ao primeiro take? Como é o teu processo criativo?

As músicas foram feitas ao primeiro take. Foi espontâneo... pôr o computador a gravar antes de começar a tocar. Não tenho nenhum processo criativo específico, acho que tudo depende da disponibilidade e dos sentimentos que se têm quando se começa a fazer algo.

A repetição é palavra de ordem naqueles temas. Pretendes chegar a uma espécie de pureza, como se reduzindo tudo ao mínimo chegasses ao essencial?

De certo modo, acho que sim. Parece que se ouvires algo que esteja em loop e fores acrescentando camadas, é como se fosse um meio para viajares e chegares a um fim, ou uma espécie de extâse, onde tens a sensação de que já não há mais nada que consigas acrescentar.


O que é que vai acontecer na ZDB?

Para o concerto da ZDB já tenho uma ideia do que vou fazer. Não consigo dizer especificamente o que vai acontecer, só desejo conseguir transmitir às pessoas que forem ver a sensação descrita na resposta anterior.

Tiveste experiências com bandas e projectos anteriores a este?

Antigamente estava muito ligado a cena hardcore e tive alguns projectos musicais ligados a isso. Retive bastante o espírito DIY [do it yourself] característico desse movimento mas não sinto grande influência musical desses tempos neste projecto.

És técnico de som na ZDB e dos Vicious 5. A tua experiência do outro lado do palco levou, de alguma forma, a Coclea? E condiciona a forma como fazes música?

Ser técnico de som condicionou bastante a minha música, tanto a nível técnico como criativo. O facto de poder falar e fazer o som a muita gente que vai tocar à ZDB é crucial - se isso não existisse acho que, pelo menos agora, não teria iniciativa para fazer este projecto.

Vais tocar com os Território e com o Manuel Gião, dois novos projectos da nova geração experimental portuguesa. Como observas estas movimentações, até como "espectador" privilegiado graças ao teu papel na ZDB?

Como espectador é sempre bom ver pessoas novas a ter algo genuíno para dar e a terem ideias claras sobre aquilo que querem fazer. É óptimo ver o crescimento de alguns projectos que surgiram mais ou menos na mesma altura em que comecei lá a trabalhar, como os Lobster ou os One Might Add, que certamente fazem parte dessa nova geração, bem como a criação de projectos em que talvez já haja a junção de duas gerações, como os Curia.

Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com


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