ENTREVISTAS
Yoshio Machida
Na(a)dar entre flores de Lotus
· 25 Set 2006 · 08:00 ·
É de tal forma peculiar o instrumento que personalizou para si Yoshio Machida, que qualquer tentativa de tradução exacta para o mesmo soa a traição. Assim sendo, são por aqui referidos os termos num estado puro, tal como surgiram na entrevista conduzida em inglês: steel pan para descrever a vasilha de metal celebrizada pela música das Caraíbas e o amorphone para o conjunto de três dessas com formatos e superfícies ligeiramente diferentes, apontados a obter tonalidades que, para serem distinguidas, quase obrigam a auscultação. O segundo foi idealizado por um Yoshio Machida, improvisador e esteta surgido em sincronia com todo o novo Japão de início de milénio, para quem a pureza é um recurso privilegiado e componente essencial de discos como Infinite Flowers e o actual Naada, cujas características gasosas e dispersas reclamam muito mais por uma aplicação como perfume a espalhar por um espaço do que a uma escuta incidente sobre a sua estrutura ou traços narrativos. Yoshio Machida falou-nos de projectos passados e futuros, da viagem pelo Vietname que motivou ao novo Naada (editado pela sua própria label Amorfon) e de uma digressão partilhada com os romântico-depressivos mais estimados pelo Bodyspace.

Reparei que a banda-sonora elaborada por Toru Takemitsu para o filme Ibun Sarutobi Sasuke (Samurai Spy - disponível na incalculável Criterion Collection) utilizava alguns elementos de música das Caraíbas quando isso não era muito habitual. Já viste esse filme? Se sim, afectou-te de algum modo?

Não, nunca, mas parece-me interessante. Takemitsu é um dos artistas que me inspira. Quando estudava arte na universidade, assisti a uma das lições que o trouxe até lá. Ele é tão incomparável quanto a sua música. A lição foi impressionante. Mais impressionante terá sido o facto de, à medida que ia falando, ter começado a cruzar as pernas na cadeira. Parecia uma posição de Yoga ou Buda!

Recordas-te de como se sucederam os teus primeiros contactos com a música das Caraíbas ou com os metais próprios dessa zona?

Vinha a usar o Gongo como símbolo de luz nas minhas colagens de som, nos meus discos Hypernatural #1 e #2. O facto do Gongo ser um símbolo de luz partia da adoração do sol sentida na cultura do Este Asiático, que inclui o Japão. Tinha visitado algumas áreas locais desses países quando trabalhava num projecto de cooperação internacional. E isso fazia parte da identidade da área desde há milhares de anos. Procurei estabelecer um elemento temporal na música e que esse partisse do passado para o futuro. Na tentativa de aplicar isso às minhas actuações, surgiu a steel pan. É feita de metal, tal como o Gongo, e a forma é idêntica à do sol. Adoro escutar música Caribenha, mas a decisão de ter adoptado a steel pan não parte directamente desse gosto.

Fala-me acerca de Naada. Envolveu algum tipo de edição, variações de tom ou é tão “cru” quanto possível?

As peças do Naada são todas improvisadas. Gravei alguns takes num estúdio. O tom e ritmo são invariavelmente os mesmos. As variações serão outras. Este trabalho ganhou forma depois de ter percorrido lagos de flores de lótus no Vietname a bordo de um pequeno barco. Grandes lagos, pequenos lagos, lagos com formas estranhas. Mas todos esses têm um traço em comum – contam com flores de lótus à superfície. A minha intenção era invocar a variedade de lagos, em vez de apenas um desses.

Esclarece-me um pouco mais acerca dessa travessia pelo Vietname e em que aspectos veio a influenciar directamente o disco.

O barco era realmente esguio, leve e instável.(risos) A água chegava a entrar pelos lados. Tive de me dirigir a uma pequena ilha no centro da lagoa para filmar e levei comigo algumas raparigas locais para uma sessão fotográfica. Toda a extensão da lagoa estava coberta de flores de lótus, daí que tivesse de atravessá-las. A aparência era quase de uma selva de lótus. Via flores de lótus surgidas de baixo, de cima e de todos os lados. Esta experiência proporcionou-me todo o tipo de visões sobre a flor. Para mim, encontram-se espalhadas pelo álbum uma infinidade de imagens associadas às flores de lótus. Em plano panorâmico, televisivo, macro... Tal como vês, uma vasta quantidade de planos num filme.

Atendendo às suas peculiaridades, quão diferente é a composição “Bloom” de todas as outras?

Exceptuado a “Bloom”, todas as peças contêm espaços entre sons. Como se fossem magnéticas, atraem-se entre si, mesmo que estejam separadas. Ambicionei criar uma atmosfera “drone” usando o espaço e som. A “Bloom” obedece completamente a uma linha “drone” garantida apenas com steel pan, sem quaisquer espaços específicos entre o som.

Em concertos, tens vindo a combinar a estética de todos os álbuns, incluindo os dois Hypernatural, ou apenas a aperfeiçoar Naada?

A série Hypernatural é dedicada à arte sonora. É como pintar. Deve ser tocada num quarto ou talvez num iPod. Não se enquadra numa actuação. O Naada sim, claro. Na verdade, o seu propósito é diferente. Mas já toquei a steel pan com materiais sonoros recuperados à série Hypernatural. Dependendo de cada situação, alcança uma maior ou menor eficiência.

Que memórias guardas da colaboração com os minamo no Infinite Flowers? Quais das tuas capacidades sentes terem sido estimuladas por esse trabalho?

Eles tocaram muito bem. Após gravar os meus sons, passei a gravar os deles. Não fizemos sequer segundos takes. Os sons produzidos pelos minamo não foram editados. Parece um álbum de estúdio e soa como se tivesse sido editado em conformidade, mas encontra-se no limiar de um disco ao vivo.

Quando peguei em Naada, senti que poderia ter sido lançado pela Tzadik do John Zorn. Esse cenário parece-te possível? Algum disco favorito da Tzadik?

Aprecio muito o trabalho do Seiichi Yamamoto (guitarrista do colectivo ROVO e, noutros tempos, integrante dos Boredoms) no álbum Baptism, lançado pela Tzadik. Em Março deste ano, dispus da oportunidade para tocar com ele no festival Maerz Musik, em Berlim, e fiquei muito satisfeito. Sim, a Tzadik é uma label respeitável.

Que tipo de software tens utilizado ultimamente? Cansaste-te do Koan ou sentes que já o exploraste por complete?

Max/MSP, Logic, Pro Tools e Live. O Koan está um pouco datado, mas continua a ser interessante. Não o utilizo com regularidade, mas volto a ele pontualmente. É uma pena que a versão actual não seja actualizada…

Actualiza-me quanto aos teus projectos visuais recentes e fala-me um pouco do que tens planeado para o futuro próximo.

Nos anos 90, dediquei-me a collage painting com uma grande variedade de materiais como metal enferrujado, terra, gesso, plantas secas, insectos mortos, ossos, ouro, detritos, etc.. Resulta um pouco como o trabalho de colagem sonora usando apenas field recordings, que eu captava simultaneamente de diversas formas a um só lugar. Nessa altura, o papel de fotografia foi um dos materiais usados para expressar luz na pintura. Agora, quase sempre, é o meu material de eleição. Continuo a praticar Photobatik – termo que eu próprio adoptei. Procuro trabalhar o papel de fotografia sem usar máquina fotográfica, mas também não é fotograma. Uso apenas luz e o liquido químico para desenvolvimento. Recentemente, comecei a usar apenas luz e o fixador para interromper a reacção química. Obtenho uma cor rosada a partir de papel fotográfico preto e branco. Se ocorrer uma sobreexposição, torna-se rosa. E então fixa-se sem desenvolvimento, que, se for efectuado, escurece-o. Não existem planos para expor esse meu trabalho, mas pode ser que esses surjam no futuro.

Fala-me um pouco de como decorreram as workshops para crianças que desenvolveste na Sérvia. Aprendeste também um pouco com isso? Continuas empenhado em provar as crianças como potenciais improvisadores?

Skar, um grupo de amigos meus dedicados à arte contemporânea e design, ajudaram-me a organizá-las. O Skart tem-se ocupado de projectos de arte num âmbito social. Mantêm uma ligação com a Escola Primária local para, juntos, levarem a cabo essa actividade. Interessa-me a perspectiva das crianças e partilhar com elas a minha experiência enquanto artista. Quando visitei a Sérvia, entre Março e Abril de 2006, assim foi. Foi a minha segunda workshop naquele lugar. Nessa circunstância, o tema era Compõe uma banda-sonora a partir de bens do dia-a-dia. Permitir que elaborassem uma pequena história e, a partir, daí fazer música que se adequasse a essa, utilizando objectos que trouxeram de casa. Também podiam escolher um nome para a sua própria banda! Parece-me importante que imaginem sem terem de necessariamente recorrer a objectos especiais. A perspectiva infantil é sempre de uma enorme frescura para mim. Por exemplo, pensar em improvisação nos termos das crianças é uma das minhas referências.

Lembro-me de ler a tua entrevista cedida ao primeiro volume da série Improvised Music From Japan (que já conta com quatro interessantíssimos tomos). Até que ponto isso ajudou a apresentar o teu trabalho fora do Japão?

Não sei ao certo... Mas ajudou definitivamente. O Yoshiyuki Suzuki, fundador da Improvised Music From Japan (que, de resto, também se ocupa de lançar discos), encontra-se muito bem da vida. É um homem pacifico e gentil que contribui em muito para a carreira dos artistas japoneses.

O que podemos esperar da Amorfon durante os próximos meses?

Iremos lançar o Horkeskart e o novo disco de Činč no próximo mês de Outubro. O Horkeskart é um projecto único do Skart - um coro hardcore de 45 cantores. Cantam músicas revolucionárias da ex-Jugoslávia, punk, chansons e versões de Kraftwerk. É um álbum sincero e único. Os Činč são uma banda de folk alternativa que já tinham lançado o primeiro disco pela Amorfon. Desta vez, cantam poetas clássicos como Goethe, Villon, Baudelarie, etc.. A sua música é cheia de frescura, naturalidade e muito amigável.

Sei que andaste em digressão com Xiu Xiu. Já ouviste o último disco? Parece-me brilhante. Achar-te-ias capaz de arrancar um som mais rude e visceral ao teu amorphone para que se enquadrasse nos metais dos Xiu Xiu?

Ainda não escutei o novo. Na verdade, partilho da predilecção por grande parte das músicas favoritas do Jamie (principal figura dos Xiu Xiu). Escutávamos o compositor (Henrik) Gorecki no carro em digressão e ambos somos grandes fãs de Joy Division. Gosto da música dos Xiu Xiu. Não sei até que ponto me conseguiria integrar. Quando comecei a actuar com a steel pan, o som era mais distorcido e volumoso. Pode ser que regresse a esses tempos...

Ainda sobre essa digressão, que recordações guardas?


Foi impressionante. Não só o convívio com o Jamie, como também com o Owen (Ashworth) de Casiotone for the Painfully Alone, o Tom da Tomlab e outros artistas japoneses. O Jamie era muito delicado para comigo. Em palco, tocava a sua música com a profunda energia típica, mesmo que o fizesse a solo.

Reparei no link para o site do Rafael Toral na página da Amorfon. Que opinião tens do trabalho dele?

Encontrei-o uma vez em Tóquio. Ele tinha vindo por motivo de uma exposição e algumas performances. Mesmo antes disso, conhecia a sua música. O Toral abriu as portas do drone até a um plano completamente diferente. O feedback e loops não será uma técnica propriamente inovadora. Mas parece-me muito mais importante a fluidez musical do que a técnica. A sua música mantém equilibrados esses dois aspectos. O seu balanço é lindo. Fosse apenas técnico e não seria maravilhoso. Mas este tópico é realmente abstracto e de difícil discussão.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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