DISCOS
Mafalda Arnauth
Diário
· 18 Dez 2006 · 08:00 ·
Mafalda Arnauth
Diário
2005
Universal


Sítios oficiais:
- Mafalda Arnauth
- Universal
Mafalda Arnauth
Diário
2005
Universal


Sítios oficiais:
- Mafalda Arnauth
- Universal
Mafalda Arnauth preserva a costela fadista e Diário respeita o passado sem que isso signifique repeti-lo.
Definir o fado à custa de si mesmo pode redundar em tempo perdido, mas pode ser também um auxiliar precioso. Quero dizer: o fado tem destino e, por estranha que possa parecer a formulação, tem tido sempre. É por isso que não morreu com a Severa, quando a Severa morreu, como diz Arnauth na música que abre e dá título ao seu segundo disco, de 2001, Esta Voz Que me Atravessa. Apregoa-se, como se fosse novidade, uma nova vaga, emergente e arejada, esquecendo que o fado tem uma cronologia onde os pontos de ruptura não são poucos. Foi sempre tradição – e as casas de fado mais vadias, os chauffeurs de táxi, os fadistas anónimos dos bairros típicos e muita outra fadistagem (sem que o termo tenha nada de pejorativo), persistem essa história - mas também se soube renovar. Olhou-se de lado e deu-se tratos de solapé a Amália quando se juntou a Alain Oulman, e com ele fez então o álbum cuja capa lhe valeu logo o título de Busto, em fadistices que muitos juraram ser impróprias para o género. Não foi muito diferente, anos depois, com a inovação de Cristina Branco, ressalvados que estão os diferentes contextos e tudo o que isso implica. E assim acontece porque o fado pode ser tudo, e é-o de facto.

Mafalda Arnauth junta a uma voz pungente aquilo que é talvez o mais importante: um excelente repertório, que nunca como em Diário percorreu tantos recantos musicais. O punho é cada vez mais incisivo e quando Arnauth dá uso à pena (escreveu sete das catorze músicas cantadas do álbum, com uma décima quinta que é instrumental) fá-lo com uma sapiência que espanta. Que dizer, por exemplo, de “Por Onde me Levar o Ventoâ€, assente numa melodia muito comum (usada por muitos, incluindo Camané recentemente), onde se diz “É tanto tempo perdido, é quase sangue vertido, tempo ido em correria / Que às vezes chego lá fora, perguntando aonde mora ou se demora a utopiaâ€, e nestes versos – seja na sintaxe ou na semântica -, pressente-se uma quase genialidade, que não se percebe logo de caras. O tom confessional e íntimo deste pedaço de letra é comum a todo o álbum, que se pode perceber nas letras ou nas referências evocadas. Há “Foi Deusâ€, de Amália, “La Bohèmeâ€, de Charles Aznavour, “O Que Tinha de Ser†de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, e em todos eles se denota uma relação vincada com Mafalda Arnauth, que a própria admite em entrevistas.

Não existe em nada disto um fadário, o tal destino fixado por um poder sobrenatural e ao qual não se pode fugir. A própria já se encarregou de o dizer, em Encantamento, quando cantou “o meu destino sou eu que traço e que desfaço sempre que eu assim quiserâ€. É portanto um diário que se talha a vontade própria, sem que isso impeça a omnipresença de uma certa religiosidade. “Para Maria†tem talvez a letra mais marcante, de indisfarçada comoção, e à memória vem a lírica de Jorge Palma – o que, podendo não ser objectivo ou pretendido, não deixa de ser curioso. Ouvir pela primeira vez Mafalda Arnauth cantar numa língua estrangeira (o que acontece em “La Bohème†e “Milonga do Chiadoâ€), faz sentir que as músicas têm uma portugalidade que é indiferente ao facto de serem cantadas ou não em português. Poucos álbuns não sucumbem a tantas audições até que o cansaço acabe por ceder. Mais de um ano volvido sobre o lançamento de Diário, é obra – mas em Mafalda Arnauth não é novidade.
Tiago Gonçalves
tgoncalves@bodyspace.net
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