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N�o � surpresa nenhuma, para os mais atentos � evolu��o dos Dead Combo, que a sua metade guitarr�stica tenha feito um disco assim. E como todas as n�o-surpresas satisfat�rias no mundo da m�sica, este � uma que merece destaque. Trips tornou-se um paisagista guitarr�stico de n�vel elevado, capaz de um �ptimo sincretismo entre os instrumentais que remetem para Portugal, Espanha, Am�rica Latina, EUA, terras mediterr�nicas norte e sul, e a Esmoriz a quem dedica uma can��o e onde gravou boa parte do disco. Por entre as notas dedilhadas pelo homem da cartola - e podem ter a certeza de que ele faz com que cada uma conte - aparece um rastilho prestes a conduzir ou a uma festa de arromba, um cantor com no��o total de drama a exibir os seus dotes, ou a uma trag�dia caseira de fazer chorar o bairro inteiro. O instrumental, quando � belo assim, pode muita coisa. NP
Declarado o fim da Merzbau, talvez a mais importante netlabel portuguesa da d�cada, Tiago Sousa dedica agora a sua concentra��o exclusiva � carreira a solo. E faz ele muito bem, uma vez que os discos Crep�sculo e The Western Lands indiciavam j� um potencial imenso. Este �lbum � a afirma��o definitiva de um m�sico na verdadeira acep��o da palavra - multi-instrumentista, com uma rara sensibilidade que atravessa estilos. O piano � o cora��o deste disco, � a partir do piano que se desenvolve uma poderosa for�a emotiva, explorada de forma obsessiva em sete temas/movimentos. Sobre Ins�nia paira um conjunto de refer�ncias, especialmente da m�sica cl�ssica/contempor�nea do s�culo XX, do minimalismo embrion�rio de Erik Satie at� aos momentos mais claros de modernidade (ecos de Philip Glass, Michael Nyman e Terry Reily), incorporando tamb�m vest�gios de jazz contempor�neo controlado. Embalado nestas coordenadas Ins�nia encerra uma dimens�o �pica. NC
Disco portentoso de um cantautor portugu�s que canta em ingl�s (e at� franc�s) como peixe na �gua. Alexandre Monteiro sob o nome do grupo extremista hippie cometeu o grande atentado revolucion�rio no bom sentido no panorama nacional, O Grande Disco de Pop Psicad�lica da hist�ria da m�sica portuguesa. Beach Boys, Love, Syd Barrett, Stackridge, XTC, Elliott Smith na West Coast da Europa. Pena apenas que n�o tenha surgido em Portugal antes. E por aqui repito: a m�sica nacional merecia ter tido h� j� muito tempo arte desta cosida a linhas psicad�licas como �Chloe�s Hair�, �God�s Reply�, �Candy Clem�. Mas se calhar s� agora �We Were Given Space� (outra deliciosa can��o) e como mais vale tarde do que nunca, eis que surgiu � beira da segunda d�cada do s�culo XXI e est� a� � m�o de semear. Papoilas, margaridas, l�rios, hort�nsias, cravos. Flores. Muitas. �God Only Knows� quantas. E como era merecido que este disco andasse por a� nas bocas (sobretudo ouvidos) do mundo inteiro. NL
Rodrigo Le�o nem precisa de motivos maiores para escrever can��es bel�ssimas. Mas quis a infelicidade trazer a morte da sua m�e para lhe servir de inspira��o para um sucessor de Cinema que estabelece mais uma vez o ex-Madredeus como um pintor de emo��es, paisagista emocional e criador de bandas-sonoras imagin�rias para vidas bem reais. A M�e � uma tela impressionista � e impressionante � de momentos que vivem da sua pr�pria poesia, de uma dan�a interna e invis�vel, de um imagin�rio que Rodrigo Le�o parece ter criado para si ma que � perfeitamente extens�vel a quem o quer acompanhar nestas viagens. Resumindo, A M�e � mais um bel�ssimo capitulo de uma carreira recheada de bel�ssimas can��es dotadas de uma universidade sempre empolgante. AG
Nome incontorn�vel de toda e qualquer m�sica improvisada, Manuel Mota ascende em Sings a uma sensibiliza��o mais not�ria o seu discurso singular. Entenda-se o canto como forma de comunica��o primordial e os fantasmas que se libertam dos dedos de Mota encontram-se num cont�nuo com os blues coloniais. Na g�ria popular diz-se que �quem canta seus males espanta�. Estas �can��es� � beira do sil�ncio s�o reveladoras dessa mesma capacidade de exorcizar dem�nios. � neste processo t�cito que o guitarrista lisboeta atinge uma linguagem reveladora e profundamente personalizada, sem se refugiar na sua indiscut�vel capacidade t�cnica. De l�bios selados, Manuel Mota revela tudo aquilo que tem a dizer, naquele que sendo o mais comedido �lbum presente nesta lista, n�o deixa de ser tamb�m aquele onde se espraiam de modo mais revelador as suas sensa��es e ang�stias. BS
J� o hav�amos afirmado antes: Portugal merecia um disco assim. E se antes o dissemos com convic��o, reafirmamo-lo uma vez mais com redobrada certeza. Porque se h� prazer a extrair deste afro-beat "tuga" de esp�rito ex�tico inconformado � que une vontades de duas distintas latitudes �, � na postura s�ria e descomprometida dos Cacique 97, e da sua eficiente ac��o diplom�tica capaz de derrubar limites culturais, que est� a cartada fundamental deste exemplo de multiculturalidade na nova m�sica produzida em Portugal. Prova de ast�cia na manipula��o, recria��o e reinterpreta��o � e outros �re� que se possam aplicar com merecida justi�a � das coordenadas elementares das africanizadas sonoridades de Fela Kuit e Tony Allen e do pertinente intervencionismo da linguagem sobre os males que pairam na sociedade, os Cacique 97 s�o merecedores do distinto lugar que lhes atribu�mos neste balan�o de 2009 por tocarem com coragem, intelig�ncia e sem complexos um g�nero nem sempre compreendido ou amado em Portugal. RS
Se se atribu�sse a B Fachada um lugar na actualidade nacional, o Jornal da Noite teria contado, durante 2009, com not�cias de abertura como �jovem cantautor de Cascais diverte plateias�, �Bernardo Fachada transforma Lisboa num campo de batalha de opini�es� ou �novo disco pela Flor Caveira converte centenas de indecisos�. Com sorte (ou azar), o seu dom para provocar e emocionar valer-lhe-ia um convite do Bloco de Esquerda, mas foi Um Fim-de-Semana no P�nei Dourado quem desencadeou todas as reac��es noticiadas. �Quem�, sim, porque o P�nei � um disco com vida pr�pria: condensa a inspira��o de meses numa sess�o de meros quatro dias, transforma standards passados em standards futuros - e ainda tem tempo para recuperar epis�dios e personagens de outros tempos, que nos ajudam a entender melhor as sexualidades e os afectos de hoje. B Fachada atreveu-se a cantar a vida off-line, mandando � merda a anglo-superficialidade habitual. Nem toda a fruteira tem espa�o para tamanhos tomates, � verdade, mas nem isso trava o Pon�i Dourado. MA
Quando Deus � ou l� quem criou esta treta toda � estava a distribuir defeitos, esqueceu-se de dar a Francisco Silva o defeito de fazer maus discos. Pelo menos at� agora. �lbum ap�s �lbum, o tipo n�o deixa de crescer como o maior de escritor portugu�s de can��es em americano. Two Birds Blessing traz mais piano, baterias � Calexico, cordas e sopros. E, como sempre, um disco bel�ssimo. Porque o tipo n�o sabe mesmo errar. At� chega a ser irritante. N�o h� outro cidad�o portugu�s que se expresse assim em americano, e isso � perigoso, porque putos podem crescer a achar que conseguem fazer o que ele faz e isso n�o � para todos. Provavelmente at� j� cresceram e Francisco Silva � respons�vel por bandas horr�veis. Mas n�o podemos culp�-lo por isso, e qualquer queixa que tenhamos dissipa-se a ouvir um disco dele. RN
Sequiosos exploradores, herdeiros da revolu��o �Kraut�, Andr� Abel e Pedro Magina consubstanciam em � Isso A� anos de ensaios e experi�ncias. E compensou esperar pelo amadurecimento e o apurar da receita. � que, quando tivermos de citar algu�m dentro das nossas fronteiras capaz de evocar uma s�rie de dicotomias entre as quais melodia/drone, electr�nica/ru�do ou ordem/caos, ser� um prazer trazer � discuss�o os Aquaparque. �Siga para Bingo� � um entusiasmante estudo de reinven��o da pop pelo recurso a fragmentos, um expediente comum no universo do duo. A ele se juntam inevitavelmente as colagens e justaposi��es, samples e repeti��es e o apego incondicional � parafern�lia electr�nica, � qual se cingem. N�o passar ao lado de �Fantasma� � o cart�o de visita do �lbum -, e �Sa�de� s�o conselhos amigos. Trata-se de uma oportunidade soberba para analisar a rela��o serena e frut�fera entre o Homem e a tecnologia. EA
Mudar de Bina, a estreia de Norberto Lobo, em 2007, foi a confirma��o do que j� ouv�ramos em MP3 passados entre m�os amigas, como se de um segredo bem guardado se tratasse. E assim era. Esse tempo, felizmente, j� passou e Pata Lenta confirma Norberto como um dos maiores m�sicos portugueses. Os fantasmas de Paredes e Fahey ainda c� est�o (totalmente integrados num discurso pr�prio), mas h� tantos mais pontos de partida e fuga que falar neles j� parece redutor. A forma como Norberto saca lampejos de beleza a partir da guitarra p�e-no entre os maiores do instrumento, aqui e em todo o mundo. Ou�a-se "Brisa Bi�nica", insinuantemente faheyiana, com aquelas curvas e sil�ncios em que o americano era mestre. Ou a correria de "Vento em polpa", a languidez quase-jazz de "Marquise Qu�ntica", os harm�nicos antes da filigrana soldada nas 12 cordas na hipn�tica "Samantra". Grande, grande m�sica. PR |
Topes 2009
· 07 Dez 2009 · 22:13 ·