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At� prova em contr�rio, os !!! n�o s�o capazes de fazer um disco mau. Mais: at� prova em contr�rio os !!! n�o s�o capazes de fazer um disco abaixo de muito bom. Strange Weather, Isn't It? � mais um tornado cheio de funk, sexo, guitarras libidinosas e ganchos capazes de incendiar a mais morti�a das pistas de dan�a. Uma can��o como "Jamie, My Intentions Are Bass" carrega anos e anos de pura sensualidade e poder� muito bem vir a ser usada daqui a alguns anos como alternativa natural ao Cialis e ao Viagra no combate � impot�ncia ou � disfun��o er�ctil. Nenhuma banda como os !!! (ou os LCD Soundsystem), sa�da daquela vaga de novo rock, conseguiu aguentar-se assim: t�o prof�cuos e interessantes. N�o � Louden Up Now, nem tem de ser: mas � mesmo assim verdadeiramente entusiasmante. Vejam l�: este disco pode ser muito bem aquele argumento final para convencerem a vossa cara-metade a tentar qualquer coisinha com aquele casal giro com quem se andam a dar ultimamente. AG
Se Rifts cristalizou um passado mais ou menos recente para um reconhecimento mais generalizado, Returnal foi a constata��o �bvia da import�ncia de Daniel Lopatin num j� saturado meio onde os sintetizadores em devo��o � K�smische imperam. Mem�ria, pr�-cogni��o, retro-futurismo, pardais ao ninho. Em Returnal a nostalgia n�o � imposta, antes sugerida (Chillwave? N�o me fodam), for�a de um conhecimento quase enciclop�dico das potencialidades da electr�nica num contexto pr�-computorizado e de um talento para as recontextualizar numa actualidade premente. Menos coerente do que a trilogia que o precedeu, Returnal incide com bons resultados num som j� reconhec�vel, ao mesmo tempo que abre naturalmente diversas portas que apontam para um futuro prenhe de possibilidades. Porque � nesse limbo entre possibilidade e concretiza��o que reside o verdadeiro valor de uma m�sica sempre aberta a novas leituras, onde o tempo � apenas mais uma vari�vel. BS
� o disco mais conservador dos Emeralds, mas deles n�o esperamos desafios est�ticos. � certo que s�o conotados com a m�sica experimental e presen�a regular em publica��es como a Wire, mas os Emeralds fazem m�sica que, a bem da verdade, tanto satisfaz as necessidades de voos psicad�licos da gera��o p�s-Wolf Eyes, como as dos pais, que cresceram a ouvir Tangerine Dream (e que, �s escondidas, ainda fumam umas ganzas enquanto metem Phaedra a rodar). Com sorte at� a vossa tia � capaz de gostar, se lhe mostrarem isto na noite de Natal. A receita � a mesma de sempre - camadas e camadas de sintetizadores, com a guitarra de Mark Mcguire a planar sobre tudo isto -, mas os resultados s�o mais directos, mais� pop. Belos, como sempre. Ou�am "Candy Shoppe", esp�cie de balada para andr�ides, ou "Genetic", com arpejos t�o fortes que parecem riffs amigos do headbanging. Bem, ou�am tudo. PR
Em primeiro lugar: dou grande valor ao que o “super-quinteto” de Sam the Kid, Fred Ferreira, Francisco Rebelo, João Gomes e DJ Cruzfader fez neste capítulo inicial duma história que espero venha a ser de aprofundamento e abertura. “Aprofundamento” das raízes presentes nas composições e da vontade em investir na vertente live, quase rock n’ roll – que não cabe na rodela analógica ou no ficheiro digital. Abertura – a novos horizontes e sonoridades que façam deste um projecto (ainda) mais original, não só no panorama interno como eventualmente internacional. Não é por acaso que este disco e o do (subvalorizado) Rocky Marsiano entram nas minhas preferências de 2010. Vão ambos beber, em boa medida, às mesmas fonte, reciclando-as com novas e sedutoras vestes. E são compostos por músicos invejáveis. A estreia da Orelha Negra foi bastante auspiciosa. Talvez não seja a tal viagem ao futuro anunciada na faixa 7… mas Roma e Pavia também não se fizeram num dia. HRP
�amos a meio do ano e ao antecipar o ver�o apostamos muitas fichas neste disco. Ao lado de Crazy for You, da sua Best Coast, fez a melhor dupla solarenga da classe de '10 e tornou-se a banda sonora ideal para quem vai a caminho da praia sob o sol a queimar. Nathan Williams mostrou-se aqui, ao terceiro disco, impecavelmente certeiro: can��es de tr�s minutos, guitarras abrasivas, energia e efici�ncia punk. Bem mais directo e acess�vel que o anterior Wavvves, este King of the Beach � um comp�ndio de simplicidade rock, uma incr�vel sequ�ncia de can��es que nos engatam sem grandes conversas. Da t�bua do skate passamos para a prancha de surf e, n�o haja d�vidas, ele � o novo rei da praia. Minha querida Bethany Cosentino, deixa que te diga: o teu gajo � qualquer coisa! NC
N�o foi uma hist�ria de amor � primeira vista, da� a perseveran�a da coisa: tantos meses depois continuamos a ouvir Causers of This como se tivesse sido lan�ado na semana anterior. A m�sica inventiva de Chaz Bundick soava demasiado indie-pop aos nossos ouvidos enfadados com apontamentos de produ��o replicados a partir de Animal Collective (talvez a maior fonte de usurpa��o criativa da �ltima d�cada). S� � terceira ou quarta audi��o � que come��mos a entrar no disco, a pactuar com a hiper-sensibilidade mas, simultaneamente, a saber descobrir-lhe a acidez escondida, os ritmos gordurosos, em suma, uma sua dupla face, num momento Beach House ou Real Estate e noutro logo a seguir Mocky ou Jamie Lidell. E quem o acusar de demasiada pureza computacional de est�dio � porque n�o o apanhou ao vivo em Barcelos ou Lisboa: � que em palco Toro Y Mai ganha espontaneidade e parece tocar e cantar com o diabo no corpo. Ora esperemos que o segundo disco anunciado para 2011 pela Carpark n�o nos deixe ficar mal. GS
Maravilhoso, maravilhoso! Can��es indie a flutuar num cocktail lis�rgico, com tudo no s�tio. Brilhante s�mula de can��es pop perfeitas de outras eras, filtradas por uma nuvem de reverb e a voz de outsider fr�gil de Bradford Cox a voar sobre tudo isto. � algo irreal a forma como os Deerhunter fizeram um disco destes, concentrando os bons sinais dos �lbuns anteriores para fazer a sua obra maior. "Revival"? Ai mam�, que can��ozinha t�o bonita, a lembrar aqueles tempos �ureos em que o rock'n'roll eram quatro acordes dispostos de forma alquimicamente perfeita. "Helicopter"? Maravilha a borbulhar sobre um beat estilo Casio, m�sica algo irreal na forma como se coloca entre a can��o e a sonoplastia (desculpem a verborreia, n�o consigo descrever a coisa sem ela). "Desire Lines"? Inacredit�veis crescendos de guitarras em cima de crescendos, mas sem incomodar o suave torpor que habita quase tudo o que Cox faz? M�sica indie? Que se lixe isso: isto � m�sica do cora��o. PR
N�o h� muitas piadas em One Life Stand e talvez seja isso que faz deste disco o melhor dos Hot Chip. � que � tudo relativamente sincero, da melodia de "I Feel Better", pilhada a "La Isla Bonita" de Madonna, ao hino � amizade em que jogar X-Box � visto como uma das actividades mais bonitas que bros podem partilhar (nunca o fiz, devia experimentar), passando pelo facto de n�o uma, mas duas das can��es terem steel drums (o que � sempre, sempre bom em can��es pop). Mas isso n�o fez com que se tornassem chatos: sempre na fronteira entre o que � foleiro e o que n�o �, ningu�m escreve can��es que divirtam como estes gajos, nem que sejam t�o memor�veis ou soem t�o bem cantadas por aquelas duas vozes. E nem sequer esqueceram a com�dia: "I Feel Better" tem um v�deo �ptimo realizado pelo genial Peter Serafinowicz, que �, basicamente, um boss, a s�rio, e quem a ele se associa � automaticamente boa gente. RN
Kieran Hebden. Até podia estar tudo dito, mas duas palavras não bastam para descrever o tipo que melhor samplou em 2010. There Is Love In You foi um dos grandes discos deste ano, onde a electrónica se cruza com ambientes mais acústicos e o sampling é, de facto, um ingrediente maior. É também de lá que retiramos soberbos temas como “Love Cry”, “Angel Echoes” ou “Sing”, momentos de dança lo-fi que teimam em não cair no esquecimento, ao contrário do que tantas alminhas anti-indie costumam apregoar. Aqui, encontramos todo um mundo de micro-texturas processadas a partir de maquinarias analógicas mirabolantes, sintetizadores tanto pujantes como perspicazes, ao ritmo de batidas bem comprimidas. Four Tet já era um tipo bem referenciado, mas agora entrou definitivamente na liga dos campeões do sampling. E é tão fácil de ser barrado à entrada… SM
Se passarmos muito tempo a racionalizar a música, acabamos por, emocionalmente, não entender quem é Flying Lotus e o que tem para dizer. FlyLo não produz por produzir e talvez nem produza para satisfazer o comum mortal. Quando se fala da sua música, e cuspindo fora a boa linhagem que lhe corre no sangue – que por vezes se torna num estigma –, Fyling Lotus é um manipulador de estados de espírito que converte a matéria-prima (hip-hop, pop, electrónica, soul, jazz) como poucos. E isso transformou-o num dos estetas do momento que quer manter a linhagem jazz na sua gramática, mas não quer ficar dependente dos clássicos, preferindo a total liberdade criativa para erguer o seu próprio universo, pessoal, apoteótico (mas sem se tornar num deus). Quer também, porque o espaço (aquele em que cintilam as verdadeiras estrelas) existe para isso mesmo, olhar para o infinito do cosmos como profeta sonoro que quer contemplar as maravilhas naturais sem ser preconceitoso, de as transcrever em forma de sons lúdicos; ser um livre pensador, acreditar numa força transcendente que movimente o universo num único sentido. Flying Lotus volta no fundo, com este belíssimoCosmogramma, a estudar metafísica que faça sentido, pelo menos para ele. As ciências matemáticas, essas, que se fodam. RS |
Topes 2010
· 14 Dez 2010 · 00:48 ·