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O carism�tico Bradford Cox � um sobredotado prod�gio pele e osso, embebido em boa m�sica, da ponta dos cabelos � unha do mindinho dos p�s. E j� provou que caminha para ser um dos grandes da m�sica mundial. Um egoc�ntrico criador �vido de aplausos e de sentir o maior do mundo, compreens�vel porque realmente n�o h� muitos assim. � a luz que guia e ofusca os Deerhunter, cada vez mais ele pr�prio, enquanto os discos est�o cada vez melhores. Pela segunda vez a solo chegou o momento de rendi��o: a nossa, claro. Bradford faz um �ai �?� e prova que ele realmente � os Deerhunter, tanto que este Logos podia muito bem ser um grande disco deles. Ou seja, qual per�odo Midas, Bradford parece que tudo onde toca neste momento, torna ouro. E ent�o quando por si s� j� � ouro, como no caso de Laeticia Sadier ou Panda Bear, oh p�, fica platina-diamante-rubi-kryptonite, arquitetando rivais das melhores can��es de sempre dos Stereolab ou de Panda Bear, tesouros do disco do convencido insatisfeito que mandou a pr�pria banda � fava no Lux para chamar os virtuosos Haunted Graffitti de Ariel Pink para tocar dez minutos de Neil Young. NL
Um dos lugares comuns da cr�tica musical � falar em ambientes �cinematogr�ficos�. O termo poderia ser aplicado a By the Throat, mas o sucessor de Theory of Machines � um exerc�cio magn�fico de sonoplastia, porventura mais pr�ximo dos videojogos do que do cinema (de terror). A capa diz ao que vamos: lobos, carros ao fundo, neve, o cen�rio que remete para uma trag�dia acabada de acontecer ou prestes a dar-se. E o disco explora essa tens�o contida, cruzando electr�nica, camadas de guitarras � Wolf Eyes e cordas. Concordamos em absoluto com o que o pr�prio Frost disse ao Bodyspace: este � um disco "extremamente vermelho, como se estivesse envolvido por uma n�voa brilhante". Entrar nessa n�voa � uma experi�ncia, um assalto aos sentido. Sobretudo, com o volume no m�ximo. PR
Mudar de Bina, a estreia de Norberto Lobo, em 2007, foi a confirma��o do que j� ouv�ramos em MP3 passados entre m�os amigas, como se de um segredo bem guardado se tratasse. E assim era. Esse tempo, felizmente, j� passou e Pata Lenta confirma Norberto como um dos maiores m�sicos portugueses. Os fantasmas de Paredes e Fahey ainda c� est�o (totalmente integrados num discurso pr�prio), mas h� tantos mais pontos de partida e fuga que falar neles j� parece redutor. A forma como Norberto saca lampejos de beleza a partir da guitarra p�e-no entre os maiores do instrumento, aqui e em todo o mundo. Ou�a-se "Brisa Bi�nica", insinuantemente faheyiana, com aquelas curvas e sil�ncios em que o americano era mestre. Ou a correria de "Vento em polpa", a languidez quase-jazz de "Marquise Qu�ntica", os harm�nicos antes da filigrana soldada nas 12 cordas na hipn�tica "Samantra". Grande, grande m�sica. PR
Num ano em que ambi�ncias p�s-new age, psicadelismo tropical e o t�o em voga termo Hypnagogic Pop fizeram o grosso da cultura subterr�nea norte-americana mais vis�vel, bastou ao duo de Ruff Waterhouse e Lea Cho invocarem aos teclados e batidas rafeiras e solos em pentat�nica estelar, as feiti�arias musculadas/amorosas que fazem de Local Flavor o disco rock obl�quo de 2009. Em apenas quatro faixas de aparente pobreza t�cnica, os Blues Control atiram-se aos mais diversos planos que fazem do rock (esse filho dos blues) enquanto mat�ria mold�vel algo de t�o expansivo e alienado como for�osamente memor�vel. 35 minutos de melancolia nocturna inequ�vocamente perfeitos, com �Tangiers� a elevar-se ligeiramente por via de um pulso r�tmico kraut lo-res e pianos doo-wop em luta com arabescos de sintetizador a atirarem tiros certeiros para o infinito. BS
Um disco longamente antecipado por uma m�sica a meias com o quase-mumificado David Byrne, que depois at� nem acaba no alinhamento, s� pode ser uma de duas coisas: um grande disco ou um rato parido por uma montanha. Bitte Orca provou ser a primeira dessas possibilidades e provou tamb�m que o ex-Talking Heads est� longe de apontar os p�s para a cova � artisticamente falando, claro est�. Os Dirty Projectors s�o o sonho-molhado-tornado-realidade de qualquer puto indie que secretamente alimenta o anseio de cair no goto da imprensa especializada. Desta vez, a imensa faladura justifica-se: o disco tem aquela tens�o arejada que aprendemos a amar nos melhores discos pop ("Stillness Is the Move"), tem aquela �frica no cora��o que insistimos em aglutinar ("Cannibal Resource") e tem at� uma ligeira cita��o de Nico em "Two Doves". � por �lbuns assim que a Brooklyn de hoje continuar� a ser lembrada durante uma porrada de anos. HG
Sem que muito boa gente desse por isso, The Ecstatic foi-se segurando, ao longo dos meses, como um dos mais consistentes discos de hip-hop em 2009. Olhando para a obra anterior de Mos Def, � f�cil concluir que o rapper vai alternando edi��es menores com �lbuns maiores de sampling e rimas pol�ticas. Apoiado na produ��o por peixe grande como Madlib, Chad Hugo e J Dilla (com beat oferecido antes de fazer tijolo), Mos Def abre com um discurso decisivo de Malcolm X e, mais � frente, sampla o dign�ssimo pai do afrobeat, Fela Kuti. Este �, pois, um disco de rever�ncia e de refer�ncias, como a refer�ncia � guerra no Iraque do ponto de vista do puto que leva com bombas em cima ("Auditorium") ou o gangsta rap sabid�o de "Pistola". Para o final, h� a participa��o de Talib Kweli e leves pinceladas samba e funk. Um assombro! HG
Morrissey tem alternado entre a excel�ncia e a mediania. A mediania at� lhe fica bem, diga-se, j� que a sua persona valoriza essa qualidade face � suposta transcend�ncia e rebeli�o da pop (�Now this might surprise you, but I find I'm OK by myself�, canta ele em �I'm OK by myself�). Mas isso � uma conversa te�rica que n�o cabe aqui. Years of Refusal n�o � um disco mediano. N�o atinge o g�nio dos Smiths, mas esse ponto de compara��o � ingrato. Morrissey foi ao punk buscar as guitarras e a produ��o (do saudoso Jerry Finn, conhecido pelos trabalhos com bandas pop-punk como os Green Day e os Offspring) e o resultado foi uma fabulosa bizarria. �Something is squeezing my skull�, por exemplo, inventa uns Ramones existencialistas � o mal-estar do punk casa bem com Morrissey. Este novo Moz, mais euf�rico e musculado, convive bem com o classicismo pop de can��es como �That's how people grow up�. Ingredientes mais do que suficientes para um dos melhores discos a solo do ingl�s. PR
O dancehall � uma criatura estranha, disforme, nem sempre agrad�vel segundo os padr�es do bom gosto (uma ditadura que de pouco serve a n�o ser afagar mentes inseguras). Os Major Lazer, dupla de Switch e Diplo, perceberam-no, foram � Jamaica e vieram com um disco que leva o g�nero para novas contamina��es. Guns Don't Kill People... Lazers Do confirma � a elasticidade enorme do dancehall, mas, sobretudo, o enorme talento de Switch e Diplo na mistura de fontes sonoras numa m�sica �mpia, suja e despudorada. �Hold the Line�, com Santigold, � um dos m�sseis r�tmicos do ano, �Keep It Goin' Louder� � uma maravilha de auto-tune, com Nina Sky super doce-picante, e, no meio da festa, h� p�rolas roots como �Can�t Stop Now�. PR
Em conson�ncia com a sua excentricidade arrogantemente humilde, The Visitor poder� ser encarado como um disco de pop pomposo. Viesse de nenhures e seria um fracasso, vindo de Jim O'Rourke trata-se de um �lbum cujo apelo universal n�o cede a facilitismos em crescendo emocional, nem desvios avant-garde s� pelo choque. Um gajo que tem o descaramento de n�o cantar uma �nica vez ao longo destes 38 minutos, e consegue ainda assim englobar todos os trejeitos que fizeram de obras passadas como Eureka ou Bad Timing monumentos � glorifica��o da m�sica norte-americana popular, s� pode ser desculpado por ser efectivamente brilhante. Que se permita a arrog�ncia a quem tem direito. The Visitor � mais uma pe�a essencial de uma das mentes mais fascinantes dos �ltimos 15 anos. A sua obra � reflexo disso mesmo. E � inquestion�vel. BS
Iguais a si mesmos, os noruegueses Lindstr�m & Prins Thomas criam alguma da mais ecl�ctica m�sica contempor�nea - sobre os des�gnios da pop -, sem inventarem nada. L� est�o as habituais refer�ncias ao space-disco, ao funk, ao rock progressivo, � pop, a Giorgio Moroder e sabe-se mais o qu�, tudo embrulhado numa elegante manta de retalhos constantemente iluminada por uma criatividade que tanto define a personalidade da dupla como o seu eloquente estilo de escrita sonora. Mais que produtores, Lindstr�m & Prins Thomas s�o estetas com um des�gnio definido. Juntos comp�em num �pice tudo o que de essencial se deve ouvir quando o objectivo � uma banda-sonora para uma longa viagem pelo espa�o sideral. Apesar do ponto de partida ser desconhecido, II tra�a um longo e coerente azimute em direc��o ao infinito, suspeitando-se que a viagem comece em Ibiza com uma indument�ria latejante e repleta do mais glamoroso charme. RS |
Topes 2009
· 07 Dez 2009 · 22:13 ·