Kubik
O Meu Mercedes é Maior que o Teu, Porto
13 Mai 2004

A ribeira do Porto, na sua variante noite, é local privilegiado para um serão no mínimo diferente. Casais jantam romanticamente em mesas de esplanada, grupos de ingleses passeiam-se pelas ruas mais escondidas e, nesta quinta feira, por ser dia 13 de Maio, uma procissão das velas subia, do outro lado do rio, a também escurecida cidade de Gaia. Devoções à parte, o site Divergencias.com acaba de lançar uma compilação com dezoito temas que inclui nomes como X-Wife, Dealema, Balla, Old Jerusalem e Kubik, o alter-ego de Victor Afonso, músico da Guarda que lançou em 2001 o aclamado Oblique Musique. O bar O Meu Mercedes É Maior Que O Teu recebeu de braços abertos a iniciativa que se espera ver repetida.

© Pedro Rios

Victor Afonso subiu ao, provavelmente, mais vazio cenário que o palco do bar já projectou. Na pequena gruta, uma guitarra, um microfone sustentado por um tripé e alguns pedais de efeitos. Aparentemente bem-humorado, Kubik avisava: “Vou pôr isto em play, seja o que Deus quiser, humm, seja o que a Nossa Senhora de Fátima quiser”. E assim foi. Servido por uma base electrónica programada, Victor Afonso ia introduzindo vocalizações e texturas de guitarra. A música de Kubik é um imenso caldeirão onde cabe um sem número de ingredientes. Da electrónica ao rock. Pelo meio, samples provocadores e divertidos de desenhos animados (The Itchy and Scratchy Show), vozes que repetiam incessantemente “Hitchcock is not Groucho Marx“, ou então a voz de Victor Afonso que libertava onomatopeias, e spoken word em modo devaneio.

Os riffs fortes e lacerantes que saíam da guitarra de Victor Afonso iam ao encontro da fantasmagórica e bizarra linha instrumental que se desenrolava. Música das entranhas para as entranhas. Banda sonora para carrossel descontrolado, vibração de algo que não o comum trincolejar melodioso habitual. Música que não procura, que quer ser procurada. Já perto do fim, anuncia um tema onde se pode ouvir a voz, ainda que distorcida e de som cavo, de Old Jerusalem. Nesse mesmo tema ouve-se flautas e a guitarra em slide de Victor Afonso. Alguns minutos depois, anunciava "the last song", um Stealing Orchestra remix que fechava o concerto. Kubik despediu-se com um "the end" mas fingiu-se ter ouvido um "até à próxima".

· 13 Mai 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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