Festival Sònar
Barcelona
15-17 Jun 2006

Reportagem de Miguel Arsénio e Bernardo Marques
Fotografias de Advance Music, S.L.

Site oficial:
www.sonar.es

1.º DIA

Sonar by Day
Miguel Carvalhais & Return play Crónica Electrónica · Beatmaster G · The Knife · Jake · Shit & Shine

2.º DIA
Sonar by Day
White Diet (Scissor Sisters) · Liars · Doravideo · Pole & Band · Optrum · Hifana
Sonar by Night
Rahzel & DJ JS-one · Linton Kwesi Johnson & Dennis Bovell Dub Band · Dj Krush · One Self feat. Dj Vadim · Tiga · Dj Shadow

3.º DIA
Sonar by Day
Nobukazu Takemura · Fat Freddy’s Drop · Dick el demasiado y sus Exagerados · Modified Toy Orchestra
Sonar by Night
Hot Chip · Goldfrapp · Afra & the Incredible Beatbox Band · Digable Planets · Diplo Vs. A-Track

O optimismo colectivo não ganha certamente o desafio, mas torna consensual um prognóstico que, por si só, representa uma projecção quase palpável e bem sucedida do que se virá a verificar. Em véspera de início da 13.ª edição do todo-poderoso Sónar de Barcelona, joga-se a primeira partida da selecção espanhola no Mundial da Alemanha - frente à temível Ucrânia. Impulsionado por uma confiança cega, o jornal desportivo Marca coloca uma questão semelhante a esta: “Já jogaram grandes como o Brasil, França, Inglaterra, Itália, Alemanha… Alguma dessas equipas jogou melhor que a Espanha?”. É semelhante a pergunta aplicável à qualidade dos festivais europeus apostados em servir de montra à melhor electrónica: “Já apresentaram o seu naipe de colossais presenças grande parte dos festivais de verão com sonoridades dançáveis. Contudo, haverá algum com a variedade cornucópica que apresenta o Sónar?”. Pois se a primeira resposta é inter-continentalmente debatível, a segunda é merecedora de um não sobre o qual pesam – por estimativa pessoal - os mais de 20 nomes de elevado interesse que cumpriram escala em Barcelona nestes meados de Junho. Em pura fase de puberdade, o Sónar pode-se já afirmar como um filho pródigo da imensa cultura catalã. Aos 13 anos, o certame goza de uma madura astúcia que só prova que Camp Nou foi a melhor escola para Mourinho: deposita uma confiança estratégica em valores seguros (mas nem por isso previsíveis), arrisca em talentos à espera de um apadrinhamento maior que os internacionalize, reinventa-se a cada nova edição sem adulterar as suas fundações. O 13 do azar foi a sorte de um Sónar cada vez mais extremado entre palha e puro ouro.


1.º DIA


A naifa retro-futurista e o ovo monolítico a que os Sunn o))) recusaram a paternalidade

Sonar by Day

MIGUEL CARVALHAIS & RETURN PLAY CRÓNICA ELECTRÓNICA
Era possível encontrar alinhados uma série de cacifos na área de imprensa, que este ano foi patrocinada por uma marca desportiva que a transformou num mini-relvado. Cada um desses servia de propriedade temporária a labels como a tematicamente arquitectónica L – ne, Hefty, Spekk e a portuense Crónica. Já não surpreende, de facto, ver a label da Invicta a ombrear com os grandes das edições discográficas e a organização do Sónar nem sempre dormirá de costas para oeste. Merece pois um catálogo tão desafiante e inovador o direito a expor-se perante o público que decidiu despertar para o certame no SonarDôme. Com o lo-profile que a ocasião pedia, Miguel Carvalhais e Return (João Cruz) arrancam os primeiros sinais de actividade cervical a quem conseguiu alhear-se dos ruídos externos e obter sintonia com o caudal de Crónica que inundou a tenda e espaço imediato. Em contraponto aos minimalismos que não se assimilam sem auscultação, vale o set pela avalanche de graves e sine-waves que servem nem que seja para testar a estabilidade ao espaço. Foram estreadas futuras e apetecíveis edições da Crónica.

BEATMASTER G
Beatmaster G cumpre, quase ao ponto do cliché, todos os requisitos que exige o palco SonarVillage, o único a céu aberto e aquele que mais agrada às centenas de britânicos que se espalmam sob sol abrasivo sem a mínima preocupação dérmica. Ou seja, desenvolve até ao limite sonoridades familiares e simpáticas a um público que não lhe exige mais que a coolness uniformizada que proporciona uma hora de agradável e ameno concerto. De início, Beatmaster G percorre uma rotina de beatboxing que o leva do reggaeton ao drum n’ bass com competência q.b.. O cenário piora quando convida ao palco dois MC’s que são caricaturas deles mesmos e de um hip-hop que parece conformado com o lugar que ocupa na cauda do género. Juntos pedem que levem os braços ao ar todos os que querem ser ricos e famosos. Beatmaster G será grande à escala castelhana ou morrerá a tentá-lo.

Beatmaster G

THE KNIFE
O dia inicial de Sónar oferecia a oportunidade ideal para descobrir, por meio de contacto de directo, se os Knife seriam ou não mais um dos muitos abonados de hype a que o festival oferece um sopro insuflador. Fieis a uma compustura misteriosa que muito deve ao Carnaval de Veneza, os Knife surgem completamente revestidos – excepto boca, olhos e nariz - por um tecido tipo spandex e esteticamente combinados com três focos visuais que haveriam de oferecer as mais deslumbrantes imagens que o Escenario Hall conheceu este ano (houve rendilhados geométricos e uma nostalgia Pathé entre os Arcade Fire e Múm). Basicamente, pode-se dizer sobre a estranha e pós-romântica sonoridade praticada pela dupla sueca que aproveita o fio que deixou solto o hopelandish – comportado pelo tempo que separa os Cocteau Twins do reaproveitamento moderno conduzido pelos Sigur Rós – e recua a sua ponta até à ingenuidade de inícios de anos 80. A partir daí, vai aproveitando tecido a 20 anos da melhor pop até alcançar um plano iluminado que faz dos Knife uma espécie de cruzamento entre os Air e os Daft Punk (sexualmente, estão vinculados ao meio-termo androgínico dos segundos). Em Barcelona, garantiram aos presentes viagens que partem de um destino utópico e vão recuando até um plano esotérico onde as linhas electrónicas de memorização fácil são pão e água. Foram imensos e é legitimo adivinhar-lhes um futuro radiante.

JAKE
Durante o bacharelato de Saloiice Aplicada, Crocodilo Dundee tropeçou no mesmo caldeirão de Obelix e de lá saiu o MC que dá pelo pouco elucidativo nome de Jake. Senhor de peso e prova de que para do hip hop se fazer trigo, é necessário ceifar muito joio. Jake é flagrantemente obeso, dispõe do flow de que goza presentemente a lenda Ol’ Dirty Bastard e nem sequer tem a graça necessária a que singre como novelty descartável. Rima em duetos esquizofrénicos, arrisca-se a profetizar, pede actividade aos mortos-vivos entre os presentes. Acaba por compensar o tédio com uma versão dos Monkees (?!?) que encontra Jake em tronco nu entre espanholas mais desembaraçadas na celebração do aspecto viril do MC. Gritava-se estridentemente Te quiero! Que guapo! no preciso momento em que decidi que já havia sido demasiada a atenção dispensada a um dos mais embaraçosos espectáculos que conheceu o Sónar deste ano.

Jake © Andreia Roque

SHIT & SHINE
Partem afectados por uma motivação equivocada os textos promocionais que apresentam os Shit & Shine aos leitores desejosos de antecipar de alguma forma o que se vai escutar ao concerto do colectivo britânico / texano. A menos que o drone agora tenha por base um vigoroso loop rítmico arrancado a precursão tribal, fique esclarecido que em comum com os Sunn o))) – citados nos pergaminhos erróneos – estes Shit & Shine têm apenas algum cabelo a mais sobre a venta. Por dogma, o drone pretende ser a sublimação de um som contínuo. A peça que a banda da Southern apresenta a um Escenario Hall - pouco à vontade perante o peso da prestação - assenta sobre um mesmo groove jurássico mantido durante mais de meia hora por cinco bateristas. Ao longo de uma experiência de ascendente intensidade Kinplinguiana, dois baixistas vão entrecortando o ritmo repetido com viciosos berloques de proto-punk próximos do que fariam uns Destroy All Monsters se ainda no activo. A ver vamos se não será brilho de pouca dura.

Shit & Shine


2.º DIA

Inesperada feira de vaidades e a esmagadora retaliação nipónica

Sonar by Day

WHITE DIET (SCISSOR SISTERS)
Depois de no ano passado Jamie Lidell ter armado um chavascal mediático que não conseguiria Bono em digressão activista pela Somália, eis que o faro oportunista dos Scissor Sisters (ou do seu management) os leva a marcar reserva no cartaz com o nome de um projecto musical não existente - uns tais de White Diet que misturam todo o tipo de sonoridade étnicas com IDM. A denunciar a burla lá estava o pano do bombo com a tesoura em forma de um roliço par de pernas. O deboche transvestido toma de assalto o Sonar Village e rapidamente se desilude quem ainda esperava um concerto de fusão. Quando o factor surpresa assume maior importância que a própria música, um projecto a prazo como os Scissor Sister vê ser-lhe garantida a liberdade de repetirem o mesmo protocolo de maneirismos disco-sound que já haviam desfilado em Paredes de Coura há dois anos. Sim, o hino de pândega “Take Your Mama” diverte ao ponto suficiente de não se parecer com tortura, tal como tem alguma graça a guitarra Flying-V com centro em forma de banjo. Mas fica uma questão que se aplica também aos Darkness: em que momento exacto devo parar de rir?

LIARS
Para todos os efeitos, preferiria um sound check dos Liars ao melhor dos concertos que nunca prestaram os Scissor Sisters. Os Liars que, tal como profetizou o vocalista dos Vicious Five no primeiro EP, são fuckin’ liars and we (they) couldn’t care less. Exacto. Agora que a usurpação livre dos Gang of Four representa apenas cinza amnésica sobre as urtigas, os Liars encontram-se no direito de percorrer a árdua e amaldiçoada estrada que os afasta da âmbito mais copista que comporta o inferno pós-punk. Nesse registo, o que se sucede é uma violenta mutilação da racionalidade por parte de alguém que, no presente momento, gere o seu movimento como se jogasse uma variante da cabra-cega onde o primordial e o fervor religioso são os únicos pontos palpáveis. O Sónar encontra os Liars num pico de forma quase bárbaro e alheios à noção da fronteira entre They Were So Wrong, So We Drowned e Drum’s not Dead. A rendição de “We Fenced Other Gardens with the Bones of Our Own” revela que aquela batida pode realmente ser reproduzida por uma bateria orientada por um ser humano, mas as coisas não funcionam quando não mais que 20 pessoas gritam em coro o infernal We’re doomed! We’re doomed. “Hold Hands and it Will Happen Anyway” foi tenebroso e argumento de peso a favor da consagração de Angus Andrew como representante da presença herética que pode ter alguém vestido de pijama. O comboio-fantasma encerra a sua rota onde devia ter começado: “Be Quiet Mt. Heart Attack!” inundado por aquele colorido mural de guitarra e “Let’s Not Wrestle Mt. Heart Attack!” intensificado por uma maior visceralidade dos gritos animais em uníssono. Como dignos herdeiros de um insano altar que um dia pertenceu aos Butthole Surfers, os Liars actuais encontram-se no direito de aquecer a temperatura à pira de fogo que tem presos todos aqueles que recusaram o They Were So Wrong... como um disco incatalogável. E é absolutamente recompensador ser surpreendido pela forma como têm tornado cada incógnita em pequenos milagres de um punk que teve de vislumbrar o clarão da morte para ressuscitar com um rendimento criativamente superior.

Liars

DORAVIDEO
Dora! Dora! Dora! Quem acedesse ao Sonar Complex, quartel-general da armada nipónica em Barcelona, por altura da prestação de Yoshimitsu Ichikaru, arriscaria o regresso imediato à intensidade bombástica que contêm os primeiros vinte minutos de O Resgate do Soldado Ryan. O aparato é mínimo: uma imparável montagem visual duplamente reproduzida no plano secundário e, na dianteira, um robusto homem sentado à bateria. Surpreendido, o tecto só ameaça desabar quando a dinâmica entre o vídeo projectado e a precursão quase industrial de Yoshimitsu Ichikaru atinge níveis demolidores de fricção. Yoshimitsu interrompe a cavalgada rítmica para que se escute o refrão a um ídolo pop japonês em risível crise de meia-idade, cilindra tempestivamente uma sucessão alucinante de imagens ostensivamente bélicas. Proporciona um dos maiores clímaxes que o Sónar viveu quando exibe a Casa Branca a ir pelos ares - alguns americanos presentes sentiram-se visivelmente hostilizados. Doravideo faz todo o sentido como renascentista da chama apocalíptica que emanava Akira. Andou por cá – Lisboa e Porto – e merecia ser recebido com honras estaduais.

Doravideo

POLE & BAND
Pole – ou Stefan Betke – acusa visivelmente os malefícios da charcutaria: está bem mais gordo e aparentava já ter bebido mais do que três copos de ponche na área reservada a artistas e imprensa. Perdoa-se a aparência burguesa a um dos principais responsáveis pela infiltração modernizada do dub nas principais urbes europeias. Perdoa-se isso e tudo o resto, porque, coincidentemente, o dub que trouxe até ao Sónar é de um conteúdo bem mais calórico do que aquele que se escuta nos seus discos: ganha substância e volume com o contributo de uma mini-banda composta por baterista e baixista lubrificados à imagem do espaço sideral que tentam virtualizar no Sonar Village. O andamento do triângulo fica-se pelo amenamente arrastado e só vê esse equilíbrio quebrado quando Stefan Belke decide abusar do delay – ao ponto do lesante, para um público casual – que dá forma às vagas de graves obtusos que banharam todos os que ainda aproveitavam as últimas do sol catalão desse dia.

OPTRUM
A curta duração de alguns dos seus concertos ajudou a fazer dos Ramones lenda. Um ataque incisivamente súbito recolhe quase sempre melhores resultados que outro faseado e previsível a partir da meia-hora. No que diz respeito a duplas de dinâmica guitarra ou baixo / bateria (aquelas cuja linhagem conheceu inicio nos Ruins e expoente norte-americano nos Lightning Bolt), o entusiasmo premeias apenas as que evitam a colagem óbvia e a previsibilidade de direcções assumidas. O inesperado sucede-se realmente quando, em vez de uma guitarra, Atsuhiro Ito carrega em braços uma longa lâmpada fluorescente a que atribui o nome de Optrom e que toca como se fosse um instrumento – explorando o seu interruptor, posição e todas as restantes propriedade de um objecto físico. Em apenas 20 dizimantes minutos, os Optrum – a quem também presta serviço a bateria nervosa de Yoichiro Shin – conseguem ser impressionantemente convincentes em leituras renovadas do hardcore frontal, noise à flor da pele, repetição viciante ao ponto de fazer crer que este tipo de ataques improvisados poderão um dia vir a ser aceites como conteúdos dançáveis. Arrecadaram o prémio “petardo sem espinhas”.

Optrium

HIFANA
O atraso que afectou a dupla japonesa Hifana foi posteriormente justificado pelo facto de terem perdido equipamento na viagem que os trouxe até Barcelona. Na verdade, não havia razão para tal nervosismo por parte de KeizoMachine! e Juicy: isto se camuflarmos as ausências na parafernália analógica que normalmente transportam os Hifana – de decks de vinil a pequenas baterias – com a peneira que proporciona o conjunto de sequências espontâneas que aos temas em disco aproveitam apenas a matriz (e, muitas vezes, o tema). Persistentemente longínquos da imagem convencional que se possa ter de dois DJs (até porque nunca se sabe a que dispositivo se vão atirar de seguida), os Hifana pecam apenas por alinhar em horizontalidade cronológica uma arte que pertence imprevisível e amassada em amalgama de sons caracteristicamente japoneses. Contudo, vale sempre a pena presenciar in-loco as variantes goofy que os Hifana atribuem ao seu primeiro grande êxito, “Wamono” (que é também um dos grandes vídeos dos últimos anos).

Sonar by Night

RAHZEL & DJ JS-ONE
A passagem de Rahzel pelo 13.º Sónar teve qualquer coisa de Rocky V: o ex-Roots é chamado ao palco como campeão (do beatboxing vocal, isto é) e, em pouco tempo, demonstra o cansaço próprio de quem, em rota descendente, se dispôs a um último round que justifique o seu estatuto mítico na prática da arte que o imortalizou. Desta vez, contou com o gira-disquismo alinhadinho de DJ JS-one em vez da alternância esquizofrénica de Mike Patton (que, há dois anos, o acompanhou num dos melhores concertos que conheceu Paredes de Coura desse ano). Rahzel ainda consegue uma réplica de magia com a virtuosidade que exige “All I Know”, o seu mais célebre hit single, mas perde pontos de estilo com uma versão polisaturada de “Seven Nation Army” dos White Stripes (clássico contemporâneo que, após dois anos de rodagem, continua a entusiasmar multidões). É pertinente colocar a Rahzel a questão que recentemente Björk lhe segredava junto da medula: qual é o teu limite?

Rahzel

LINTON KEWSU JOHNSON & DENNIS BOVELL DUB BAND
É perfeitamente representativo do background que acumula Linton Kwesi Johnson o ângulo de filmagem que amplia a sua imagem nos grandes ecrãs do Sonar Park (o palco que normalmente se dedica mais às sonoridades negras). Era possível observá-lo a partir de uma perspectiva superior que o insinuava como um messiânico portador da palavra com os pés bem assentes sobre uma tribuna de asfalto (representada pela grande porção de palco à volta de Johnson). E, de facto, deve ser essa a abordagem dos ouvidos que procurem aproximação gradual ao dub poetizado pela palavra serenamente revoltosa de alguém que um dia foi militante dos Panteras Negras. Linton Kwesi Johnson não canta, fala. Fala como que amansado por um aura under acting, evocando episódios de uma juventude que se viu obrigada a oferecer resistência à repressão racial. Não há como resistir ao discurso caloroso de um poeta dub – acompanhado por banda a condizer – que o Sónar recuperou a um relativo esquecimento para defender o direito de cada um ao devido tempo para a recreação e criação. A palavra esteve ao alto durante pouco mais de um hora.

DJ KRUSH
Um dos momentos mais altos do Sónar. O dj nipónico presenteou o público com uma viagem de uma hora, sem pausas, em constante crescendo, culminando com um final apoteótico. Mestre indomável do ritmo – sem nunca esquecendo a melodia de tom oriental - Krush tem dentro de si o diferente e exclusivo bater de cada coração do mundo. BM

ONE SELF FEAT. DJ VADIM
Concerto algo desconexo com cada elemento a querer ter o foco de atenção. O gira-disquista russo quase nem se deu por ele. Os mc's estiveram descalibrados. São talvez os efeitos de uma tournée que já vai longa e que, em termos musicais, não tem incutido uma evolução à música. Fraquito. BM

TIGA
O insólito aconteceu quando Tiga não havia sequer aquecido as hormonas à imensidão de gente que ali estava para lhe escutar o potencial libidinoso de Sexor. Eis que, de uma pista de carrinhos de choque, instalada no Sonar Lab, saltam em plena perseguição policial oito seguranças fardados em busca de um qualquer serial-killer a que o Bodyspace não foi capaz de apurar a identidade. É impagável o espanto estampado no rosto de uma jovem que tinha bordado nas saias o nome de um dos melhores discos de Beastie Boys, Paul’s Boutique. Casos de polícia à parte, não foi difícil para Tiga ocupar, com os pés dos mais entusiastas, os tampos de mesa espalhados pelo recinto. Os intervalos entre as linhas preenchidas a neón, que abundam em Sexor, foram-se tornando mais curtos e, aos grooves tantos, já ninguém sabia ao certo distinguir os petardos que formam a identidade do canadiano. Barcelona suou rios.

DJ SHADOW
Get stupid, get dumb, get retarded HyPhy! Shadow aterrou em Barcelona com o intuito de apresentar um movimento que tem feito muita anca vibrar na Bay Area. É o Krump de Califórnia. Batidas duras, minimais, abraçadas por poderosíssimos graves e 4 MC's a explodirem de energia. Esta musica é para ser celebrada num clube, de preferência com muito fumo, muito suor, muita libido. No Lux resultou mil vezes melhor. No Sónar, o Dj Shadow viu-se obrigado a recorrer à sua discografia (e aí sim a reacção do público foi excelente) e hipotecou com isso o resto do concerto. BM

DJ Shadow


3.º DIA

Descendente recta final e incessante duelo rítmico de titãs

Sonar by Day

NOBUKAZU TAKEMURA
Discretamente, tal como confirma a escassa consideração mediática que lhe é valida nas publicações musicais, Nobukazu Takemura cumpriu uma preciosa presença no Sónar deste ano. Serviu a sua prestação nem que fosse para estabelecer o seu trabalho como aquele que mais se aproximará literalmente do selo de Chicago que lhe serve de casa, a Thrill Jockey – Takemura será, então, um jóquei de emoções fortes (o que não significa plenas de adrenalina). Emoções essas que se podem encontrar aos cenários naturais a que dá forma por meio de uma digitália verdejante que domina com calculada mestria. Os exercícios apresentados procuram, às cavalitas de uma nostalgia tipicamente nipónica (a do viajante que encontra na praia e floresta os seus santuários de evasão), recuperar parte que seja da frescura oxigenada de momentos (bem) passados. Estilisticamente, Takemura também é em toda a sua glória digno representante da estética da Thrill Jockey, nem que seja por, ao combinar o seu ping-pong electrónico com o de um baterista, quase se assemelhar a uma variante druida dos grandiosos Tortoise (que, a par de Oval, serão provavelmente o mais importante projecto da TJ).

FAT FREDDY’S DROP
A turma neo-zelandesa Fat Freddy’s Drop será o mais flagrante exemplo do tipo de colectivo que agrada ao espaço aberto do Sonar Village: repercutem sem risco a dose certa de boas vibrações, safam-se com competência q.b., praticam um genérico easy-listening para grandes minorias. Neste caso, um vale-tudo que troca as rastas jamaicanas do reggae pelo afro da soul norte-americana com o mesmo sentido prático que uma porn-star em plena escalada rumo à fama. Agradará certamente a quem procurar por aqui a banda-sonora ideal para torrar ao sol. Diverte todos os outros que se entretenham com a aparência de uma secção de sopro que parece directamente chegada do centro de desemprego para mordomos de resorts cubanos.

Fat Freddy’s Drop

DICK EL DEMASIADO Y SUS EXAGERADOS
Momentos antes de presenciar o concerto da Modified Toy Orchestra, fico a saber que a Holanda também conta com a sua própria versão dos Fúria do Açúcar e que à organização do Sónar agrada celebrar a incompetência em escolha caprichosamente isolada. Dick e os Exagerados podiam, à sombra de uma desastrosa miscelânea latina, até ser o cruzamento perfeito entre os Plugz e os Circle Jerks a parodiarem-se a si mesmos, mas não têm inscrito no seu código genético o humor autêntico para tal. Forçarem a evocação da suprema obra de culto Repo Man, realizada pelo eterno renegado anacrónico Alex Cox, já será suficiente elogio aos seus dotes tresloucados.

MODIFIED TOY ORCHESTRA
Quem também não se poderá gabar de real conteúdo que lhe garanta durabilidade são os britânicos Modified Toy Orchestra, que, após dificuldades técnicas, lá fazem por surpreender o subterrâneo Escenario Hall com uma parada avulsa de brinquedos subversivamente adulterados para melhor servirem aos caprichos new wave - e outros tantos experimentais – dos cinco membros trajados em palco. O principal anfitrião faz por tornar credíveis as capacidades ruidosas de uma pad com câmara incorporada, para, de seguida, apresentar alguém que transformou uma calculadora falante num sistema de alarme capaz de alertar todos para a ocorrência de um incêndio. Tal como tantos outros novelty assumidos, a Modified Toy Orchestra mantém pelo gancho a curiosidade durante 10 minutos e depois apresenta apenas o vazio de um conceito que pouco terá a revelar além da graça momentânea.

Modified Toy Orchestra

Sonar by Night

HOT CHIP
Os Hot Chip não são os Devo. Muito menos serão o futuro da nova vaga de bandas que não dispensam o cowbell para agitar as ancas à turba que se julga de volta aos dias gloriosos dos A Certain Ratio ou Happy Mondays. Actualmente insuflados pelo hype que invariavelmente ilumina membros do catálogo da DFA, os Hot Chip cometem em palco a mais traiçoeira das pretensões: procuram desesperadamente preencher com sofisticação e engenho aquilo que pertence apenas casualmente lúdico. Não há paciência que se mantenha firme perante a ideia de que alguém se encontra na senda de conjugar a magnificência dos Radiohead, o facilitismo assexuado dos Culture Clube e um par de teclados militantemente nerd. Os Hot Chip posicionam-se numa disposição inflectida semelhante à dos Tool, mas fracassam na orientação que dão às suas ferramentas circa-1980. Shit Scheisse Merde. Que disseram os !!! quando conheceram um derivado que não lhes preenche a cova de um dente?

GOLDFRAPP
Agora que tem pelas costas o sentimento utópico que lhe proporcionavam as montanhas, Allison Goldfrapp sente-se plenamente à vontade no lugar da diva nocturna capaz de deixar fervente a zona púbica de metade do público que acede ao neo(n)-cabaret que trás até ao Sónar. Com a naturalidade de quem conhece as regras do jogo, coloca-se na posição que lhe garante cabelos esvoaçantes, consegue domar o esquadrão felino que faz de “Train” – que conheceu duas versões – um ritual de sedução, dá uso imperante às suas curvas traseiras como se tal se tratasse de uma afronta a Roisin Murphy. Enfim, ela e os teclistas que lhe são serviçais conseguem fazer de “Oh La La” e “Satin Chic” convites à volúpia – sentimento esse que na escuta caseira de Supernature era de difícil alcance. Durante tempo indeterminado, passa-se a acreditar que aquela sua presença irresistível camuflará o desgaste que já acusam a produção de estúdio.

Goldfrapp

AFRA & THE INCREDIBLE BEATBOX BAND
Na viagem de regresso do último dia de festival, aconselhava a amistosa equipa de produção da dupla Hifana a inventar uma rivalidade com Afra & the Incredible Beatbox Band para que o universo hip-hop lhes dedicasse maior fatia de atenção. De facto, falta apenas uma casualidade hospitalar para que ambos os projectos singrem em definitivo fora de território nipónico. O surgimento de Afra e a sua dupla de beatboxers sucede a uma prestação no Sónar do ano passado que alguns relatam como uma espécie de passagem do monstro Godzilla pela cidade condal. Godzilla que por lá esteve de novo na simulação exclusivamente vocal – método incontornável do trio – do tema que valeu ao recém-falecido compositor Akira Ifukube uma quarta parte da paternalidade da ameaça que um dia devastou Tóquio. Além dessa honrosa invocação, houve também tempo para reproduções imediatamente contagiantes de clássicos hip-hop de velha escola, uma breve alusão a “Drop it like it’s hot” de Snoop Doggy Dog, “Seven Nation Army” dos White Stripes (uma vez mais) e scratch arrancado a discos invisíveis. Mereceram o glacias que o público lhes retribuiu.

DIGABLE PLANETS
Foi o regresso aos palcos europeus após uma longa ausência de um dos mais interessantes grupos de Hip Hop a sair de Filadélfia (antes dos The Roots). Apoiados por uma banda competentíssima – e que muitas das vezes cobria alguns momentos mais perros dos mc's – os Digable mostraram porque é que a musica suave, quente e funky que fazem é tão fácil apreciar. Se isto é Hip Hop maduro, o Kanye ainda terá muito trabalho pela frente. BM

Digable Planets

DIPLO VS. A-TRACK
O duelo de que agora se trata surge quase como sequela face ao que havia acontecido no Sónar do ano anterior. O primeiro dos lutadores regressa ao Sónar Park depois, de há um ano, ter tomado de assalto o recinto com o seu funk favelado que não oferece tréguas à oscilação dengosa que descreve o cóccix e bundinha sob o seu efeito. Desta vez, Diplo – mais discreto e complementar – contribui com um par de bateladas cariocas e a zona industrial de Barcelona ganha aquele perfume brasileiro que lançam as palavras quebradinha e devagarinho. O segundo surge em cena como um enviado missionário ao serviço de Kanye West, que todos embasbacara com a sua aparição-surpresa no Sónar anterior e que tem contado com o gira-disquismo de A-Track em digressão. A-Track, que aos 21 anos já havia arrecadado quase tudo o que existe para ganhar no circuito de DJ, vence a noite. Juntos alinharam - como peças em vertical queda Tetris – todo o tipo de clássicos e potenciais candidatos a esse estatuto: “Sure Shot” dos Beastie Boys (visualmente acompanhado por uma versão alternativa do célebre teledisco de Spike Jonze), o trash irresistivelmente debochado de “My Humps” (nunca é demasiado o convívio visual com Fergie),“Pump the Jam” dos Technotronic (que é dançado com algum embaraço nostálgico), “Blue Monday” dos New Order e o inevitável single do momento, “Crazy” dos Gnarls Barkley.

· 15 Jun 2006 · 08:00 ·

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