Festival Milhões de Festa
Praia Fluvial, Barcelos
23-25 Jul 2010
Where were you when it happened?

Mesmo que depois da actuação aquilo que se ouviu mais, num sotaque absolutamente delicioso, foi isto é bué de seca, a verdade é que Dreams fez por merecer o convite para este festival com um concerto notável, onde a electrónica cujo estilo ainda não tem nome definido mas não interessa povoou a piscina e concedeu à tarde de maior calor dos três dias de Barcelos uma maior cor. Destaque para "Swimming In Pink Waters" (doce pop fabuloso) e as duas covers: "She's Lost Control", dos Joy Division (estranhamente muito mais negra) e uma versão suave de "So Bored" do incontornável rei da praia, Wavves. Logo depois foram os lisboetas Sunflare, com a participação especial de Nuno Rodrigues dos Glockenwise, que foram de todos os proponentes do novo Portugal eléctrico aqueles que mais perto estiveram de descobrir o propósito de uma guitarra eléctrica: fazer montes de barulho. O ruído fez-nos muito bem e até houve espaço para se destruir a bateria (Ninguém tem tarolas? Só tarolos?).

Os Riding Pânico, mistura de PAUS com Men Eaters (mas sem soar tão homoerótico) apresentaram-se no palco secundário ao final da tarde para descarregar adrenalina, bojardas atrás de bojardas de rock fervilhante que deixou o chão a tremer; semearam, lá está, o pânico. Os espanhóis Extraperlo, que continham nas fileiras os dois acompanhantes de El Guincho na noite anterior, entram ao som de Gabriel, o Pensador para mostrar a um espaço ainda praticamente vazio (tudo na piscina) a sua pop en español que, mesmo não sendo nada de extraordinário, apreciou-se bastante bem - e até teve direito a um comboinho de vinte pessoas que percorreram o recinto a dançar. Dos britânicos Ghost Of A Thousand quase se receou perderem completamente o público depois de se lançarem num señoritas y señores de boas-vindas, mas o patriotismo não rugiu e quem lá esteve (principalmente miúdos) aderiu ao mosh e ao circle pit que se formou virtude do hardcore cheio de gritos (principalmente para miúdos) que tocam os cinco rapazes (sendo que um dos guitarristas, juramos, era o sósia perfeito de Alex Kapranos). We'll never grow old, gritam eles, e se calhar têm razão. Já a lua cheia subia perigosamente por entre as árvores quando as guitarras dos Year Long Disaster uivam em diatribes etílicas, mas num concerto demasiado curto para saciar a sede de rock.

Poder-se-ia escrever uma tese de mestrado sobre o enorme concerto de estreia dos Monotonix em Portugal, mas é algo que se resume facilmente em três palavras: Puta. Que. Pariu. Nem o melhor dos vídeos do Youtube poderia dar um gosto daquilo que foi um autêntico guerrilla gig que deixou siderados (e esgotados física e psicologicamente) todos os presentes, especialmente aqueles que não arredaram pé de junto dos três israelitas, que munidos apenas de uma bateria e uma guitarra explodem em urgência punk, acabam com todas as noções pré-existentes de crowdsurfing, desencadeiam autênticas batalhas campais por um sítio onde apoiar os pés e percorrem todos os espaços do recinto com a casa às costas; um verdadeiro vírus de diversão que deixou muitos durante quase todo o tempo com o maior dos sorrisos na cara. O relacionamento público-banda culmina no salto de três metros do vocalista Ami Shalev para cima de dezenas de braços estendidos, tábua de salvação da tábua de salvação do rock. Shalom!

Paulo Cecílio
pedrop_ogenio@hotmail.com


This Is Happening

Uma das maiores surpresas do dia veio do Japão: Bo Ningen. Com um rock pesado altamente psicadélico e um vocalista andrógino em permanente pose teatral, estes japoneses apresentaram as melhores cabeleiras do festival e um espectáculo (sonoro, mas também visual) brutal. Recentemente regressados à vida após um longo interregno, os Karma to Burn mostraram dominar como ninguém o glossário do riff. O som clássico da banda de Will Mecum, Rich Mullins e Rob Oswald incendiou o público – e conseguiu fazer com que Chaz Bundick abanasse a perna. O final aconteceu com uma cover de Black Sabbath (o respeitinho é muito bonito). Para depois do “show” dos Monotonix (tarefa ingrata), ficou a actuação de Toro y Moi – que seria esperada por muitos, mas acabou por não convencer totalmente os fãs. A aposta no formato banda, com bateria e baixo na apresentação “live” revelou-se boa ideia, mas o concerto de Barcelos viveu alguns problemas: a voz de Chaz estava com o volume demasiado baixo, o som do baixo estava demasiado alto, o som global estava desequilibrado (pelo menos era o que se percebia da terceira fila). De boné na cabeça e t-shirt amarela com o número 7, Chaz Bundick desfilou as canções do óptimo Causers of This, mas o resultado global foi morninho.

Os Za! surpreenderam logo na entrada em palco: duo vocal a capella em cantos tribais. Passaram depois para um formato mais tradicional: guitarra e bateria (e vozes, claro), mas sempre imprevisíveis, ritmos quebrados, divagações sonicas, elementos de música africana, explosões enérgicas, uma música constantemente marcada pela surpresa. A certa altura o guitarrista deixa a guitarra e agarra um trompete, que fica a pairar, mergulhado de eco, sobre o groove pré-gravado (imagine-se o Miles da fase eléctrica em opiáceos). Partindo da linguagem rock o duo embarca numa estratégia de descontrução pós-Beefheart, de resultados sempre inesperados. Para o final de festa no palco principal ficaram os últimos representantes da armada espanhola presente em Barcelos, os Delorean. Com o disco Subiza ainda em processo de invasão, o quarteto vindo de Barcelona fez uma boa transposição das canções para o concerto, apresentando uma impecável sequência de temas festivos, altamente dançáveis, irresistíveis. O relógio apontava para as 3 da manhã quando abandonámos o recinto e reza a lenda que a festa ainda continuou pela noite fora (Crystal Fighters e South Rakkas Crew), mas já não estávamos lá para confirmar. Dezenas de guitarras, centenas de miúdas em bikinis, milhares de músicas, Milhões de Festa. Isto aconteceu mesmo. Para o ano tem de haver mais.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

· 27 Jul 2010 · 13:48 ·

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