Yo La Tengo
Aula Magna, Lisboa
14 Mar 2010
A hipérbole a quem a merece: os Yo La Tengo, durante as duas horas de rendimento máximo na Aula Magna, fizeram crer que o título de “melhor banda do mundo” pode ainda pertencer a alguém. Se o exagero parece despropositado, muito pior será enumerar as diferentes conjugações do indie para descrever o alcance de uma banda perfeitamente capaz de transitar entre géneros (muitos) sem nunca sair de uma casa defendida, nos últimos vinte anos, com lendária persistência e doçura. Também não é inteiramente justo designar a ocasião por “concerto”, quando, na verdade, o que ali se sucedeu foi a revelação gradual de um importantíssimo pedaço de cultura norte-americana (comparável a cinco temporadas d’ Os Simpsons ou às criações de Hanna-Barbera). Posto isto, podíamos até esperar ver heróis mitológicos além do pano elogioso, mas em palco encontram-se três pessoas com a aparência e o vestuário mais normal do mundo: Ira Kaplan (o incrível polivalente), a sua esposa Georgia Hubley (senhora da bateria) e James McNew (o baixista pronto para tudo).

© Mauro Mota

Com uma banda assim no activo, existe uma pergunta sempre pronta para resolver os dilemas das outras mais desencontradas: O que fariam os Yo La Tengo nesta situação?. Na Aula Magna, percorreram um número mais que suficiente de extremos e dinâmicas. Esses que, quando somados, transparecem a real dimensão de uma banda tão capaz de autênticos assaltos sónicos (a velhinha “Double Dare” ainda rasga pano) como de amenizar o ânimo da canção (“I’m On My Way” desarma bombas), ou até de improvisos delirantes (sempre pertinentes) em que Ira Kaplan recorre aos cotovelos para malhar nas teclas de um órgão. Mais do que uma vez, o serão obriga-nos a reflectir sobre se os Yo La Tengo não serão realmente capazes de quase tudo (até de falhar graciosamente nas covers - “We’re an American Band”, afinal - e nos temas de acentuada excentricidade, como “False Alarm”).

© Mauro Mota

Os Yo La Tengo são, pelo menos, capazes de uma master class adequada ao nome da sala que a recebe. A mesma que é obrigada a pedalar velozmente para permanecer ao lado de “Nothing to Hide” e “Sugarcube”, numa altura em que a noite estava ao rubro. Antes da primeira saída de palco, eis então que os três de Hoboken presenteiam Lisboa com “The Story of Yo La Tango”, uma estreia na actual digressão (informação obtida junto do próprio Ira), aqui rendida na sua versão extra-longa e favorecida por uma entrega e electricidade que não parecem próprias dos dias de hoje. Com isto, a marca da pegada deixada pelo épico nostálgico torna-se ainda maior. Depois de tamanha partilha de êxtase, era até viável que a noite terminasse logo ali (eu ergui os braços e gritei repetidamente Fecha a loja!). Estava encontrado o melhor “concerto” num perímetro de dois anos, ou coisa que o valha.

© Mauro Mota

Mas o perímetro dos Yo La Tengo parece não ter fim e, nos dois encores, houve ainda tempo para, entre outras, “Our way to Fall”, “You Can Have It All” e “The Hour Grows Late”, uma espécie de trilogia de lindas canções adaptáveis à banda-sonora de um namoro longo e perfeito. Igual àquele que partilhamos com os Yo La Tengo.
· 15 Mar 2010 · 23:10 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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