Trips à moda do Porto
Passos Manuel / Maus Hábitos, Porto
08 Nov 2008
As expectativas eram muitas para esta noite. Tantas que até a televisão decidiu dar um ar da sua graça. O festim, com nome inventado por colaborador cá da casa após concurso lançado em jeito de passatempo, assumia a Rua Passos Manuel como ponto de encontro de sonoridades distintas e algo periféricas. O Passos Manuel recebia a folk ou a folk do passado e o Maus Hábitos recebiam o rock. Tudo o que a organização pedia era que os possuidores do bilhete passassem a rua assim que as celebrações terminassem num lado – com o cuidado necessário, claro está – para que a festa continuasse no outro. O Porto com gente na rua – e é cada vez mais – é algo bonito de se ver.

Six Organs of Admittance © Carlos Oliveira

As expectativas eram também muitas para o concerto de Six Organs of Admittance, a entidade conduzida por Ben Chasny. Ele que era o senhor acústico – apesar da experiência Comets on Fire – é agora o senhor eléctrico, e para isso contou com um baterista e com Elisa Ambrogio dos Magic Markers para tentar levar o barco a bom porto, mas com resultados bastante negativos. Não é pelo facto de Ben Chasny soar tão eléctrico – algo totalmente legítimo; mas sim porque a coisa raramente pareceu resultar, ao contrário daquilo que acontece em disco.

Six Organs of Admittance © Carlos Oliveira

Só em raras ocasiões toda aquela electricidade funcionou e para isso muito contribuiu a poderosa forma de tocar guitarra de Elisa Ambrogio, já que o baterista pareceu muitas vezes estar noutro local. Six Organs of Admittance no Porto esteve sempre muito longe de bem explorar todas as suas potencialidades.

James Blackshaw © Carlos Oliveira

Seguiu-se o britânico James Blackshaw na sua guitarra de 12 cordas a mostrar classe em todos os cantos. Encurtou a sua actuação por motivos de saúde – algo lhe terá caído mal no estômago durante a estadia em Portugal – mas aqueles minutos em que esteve em palco valeram e muito. A forma melancólica como percorre a sua guitarra pode – e deve – dizer muito a um público como o português. E de facto há algo em James Blackshaw, sobretudo em “Transient Life In Twilight”, que fez parte do set, que lembra bastante Carlos Paredes. A técnica é perto de perfeita mas é sobretudo a sensibilidade e escrita que impressionam. E quem ainda não escutou Litany of Echoes não sabe realmente o que está a perder: é um dos discos mais bonitos do ano.

Sic Alps © Carlos Oliveira

Já no Maus Hábitos esperava-se canções curtas e cruas dos Sic Alps e assim foi. Rock rasgadinho e com poucas merdas, atirado para a frente e, muitas vezes, confrontacional. Matt Hartman e Mike Donovan são os senhores que conduzem o acidentado veículo Sic Alps, pouco preocupados com o que rodeia as canções, o que as veste. A preocupação aqui é ser duro e feio. Uma guitarra, uma voz e uma bateria e depois troca tudo e uma vez mais e uma vez mais e uma vez mais. Um está descalço e o outro parece improvisar mais do que o outro. E tudo vai acontecendo assim com a imprevisibilidade que falta a algum rock hoje em dia. E foi mesmo o rock que se celebrou naquele iniciar de festa no Maus Hábitos.

Wooden Shjips © Carlos Oliveira

A fechar a noite erguiam-se os Wooden Shjips. Erguiam-se porque o que se levantava era construções longas regadas a um psicadelismo assente nas guitarras, no baixo e na bateria. A voz poderia ir aparecendo mas não era um factor essencial no processo. O importante era a edificação de estruturas poderosas que tinham na repetição a chave para o sucesso. Volumes elevados e muitas guitarras, espécies de loops que se foram perfilando, a certa altura, um tanto ou quanto para além do razoável. As explorações, muitas vezes nascidas dos mesmos acordes e sons, foram-se repetindo em demasiado e diminuíram o impacto inicial. Apesar disso, o balanço é positivo: os Wooden Shjips portaram-se bem numa noite de trips acima da média. Espera-se repetição para 2009.
· 12 Nov 2008 · 00:58 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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