Pelican / Linda Martini / Riding Pânico
Santiago Alquimista, Lisboa
31 Mai 2007
É costume ver atribuído o termo inglês moonlighting a uma função que se cumpre em regime noctívago e em aproveitamento do tempo útil que oferecem as insónias. Função essa que se manifesta como se por efeito do magnetismo e luz que oferece a lua e que, habitualmente, se mantém de modo complementar a uma mais curricular actividade diurna. Quando se trata de debater as largas medidas do pós-rock, pode-se também alegá-lo como um rock que descobriu as maravilhas transcendentais do moonlighting: projectou-se em colossos exercícios que vão além de uma métrica pop, superou as limitações de um rock viciado num horário das 9 às 17, admitiu, como um lobisomem rendido, que na sua pele mais convencional crescessem pêlos grossos sob a forma de estruturas que superavam, à larga escala, a fórmula verso-coro-verso. A comprová-lo, a lua ao alto – tal como observada a partir do Santiago Alquimista - estava cheia para alumiar a peregrinação dos norte-americanos Pelican e da prata da casa, Riding Pânico e Linda Martini (que chegaram a ter alguns dos seus membros ajoelhados conforme a toada da noite).

Pelican © Mauro Mota

A influência dos astros e temperaturas sob o pós-rock e respectiva predilecção pelo enquadramento totalmente instrumental encontra-se ainda mais declarada nuns Pelican que tinham no excelente The Fire in Our Throats Will Beckon the Thaw um disco conceptualmente centrado na inversão das quatro estações do ano. Talvez por isso fosse também incógnita a resolver durante a noite a que mantinha oculta a estratégia que iria assumir a banda de Chicago para explorar essa tendência sazonal que tão bons resultados lhe oferece. Depois de superadas algumas anomalias técnicas, surgidas com uma regularidade indesejável durante a ocasião, os Pelican lançaram-se finalmente sobre praticamente uma hora de grandiosidade obtida por sintonia e acumulação quadrangular de energias, alternando como pêndulo sincronizado entre o metal mais devorador e um abrandamento mais meditativo, normalmente coincidente com a saída de cena dos riffs bem afiados. Tudo isto cumpre-se com escassas oportunidades para recuperação de fôlego e escutar os ecos à cidade que emite o disco a ser lançado dentro de semanas.

A passagem por “City of Echoes”, em representação do tal disco homónimo, obriga a que abram caminho as guitarras para, ao centro, Larry Herweg distorcer o que debita o seu baixo, como quem separa águas num cenário bíblico. Em várias ocasiões, o guitarrista Laurent Lebec assemelha-se muito ao avançado do Man United Solskjaer, se este estivesse possuído por maligno espírito rock que conheceu no headbanging a sua salvação. Os Pelican cumprem com intensidade a virtualização daquela imagem de queda (ou ascensão) de um império, que normalmente é exigida a estas bandas, mas fica a ideia algo incómoda de que houve demasiado tempo dedicado a City of Echoes, que não parece tão inequivocamente avassalador quanto o álbum que lhe sucedeu.

Linda Martini © Mauro Mota

É certo que, quando se espera quase nove meses pela chegada de uma cegonha metafórica, não custa tanto aguardar duas horas por um pelicano, mas a verdade é que se arrisca a saturação quando se cede mais de meia-hora a cada uma das duas formações portuguesas convidadas para a primeira parte. Assim se sucede porque são mais que ocasionais as semelhanças entre as linguagens musicais praticadas pelos três nomes que formavam o cartaz. Os afamados Linda Martini atravessam uma primeira fase da sua estadia em palco com um combate técnico com o responsável pelo som: ora foi o microfone que impede a ampliação da voz de André Henriques, ora alguns problemas com feedbacks que ferem. Inteligentemente, os Linda Martini decidem tomar partido de alguns indícios de descalabro e optam por um registo mais próximo de um arriscado limite, onde as canções passam a ser o processo de decomposição de si mesmas – e isso só ajuda a que mais tresloucada seja a combinação rítmica e positivamente perturbado o jogo de guitarras mecanizado ao longo de dois anos sem parar. Houve, como seria de esperar, o hino geracional “Amor Combate” que recrutou numerosos pulmões ao público no refrão. Ainda assim, aconselha-se a que num hipotético futuro disco lançado no mercado asiático o popular single se venha a chamar “O nosso amor é um chao-min de gambas” para mais refrescante ser a readopção da juventude desse continente.

Riding Pânico © Mauro Mota

Refrescante pode também vir a ser uma jornada mais avançada da carreira dos Riding Pânico, que ligam a corrente eléctrica ao pós-rock a partir da escola mais hardcore, demonstrando os shakras bem alinhados e a pica certa, mas sem ideias que possam surtir a noção de que não foi a mesma a música escutada cinco ou seis vezes consecutivas.
· 31 Mai 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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