Festival Naked
Santiago Alquimista, Lisboa
06 Abr 2007
Eram já 3:30 da manhã quando os cabeças-de-cartaz, Linda Martini, terminaram a sua curta apresentação, diante de um chão do Santiago Alquimista que pouco tinha a ver, em matéria de enchente, com o concerto de apresentação de Olhos De Mongol. É natural. Ao longo da noite muita gente cedeu ao cansaço e foi para casa. Infelizmente, em lugar de um horário civilizado, por exemplo das 20:00 às 00:30, em Portugal continua a ceder-se a estranhos “interesses” do público, que há quem diga não ter vida para chegar cedo, e o conjunto de concertos que era para começar às 22:00 começou às 23:00. O Alquimista esteve composto algum tempo, mas os Linda Martini já tocaram para um cenário depauperado. Falta vontade para arriscar mudar este estado de coisas.

Os Linda Martini, esses, fecharam o conjunto de cinco actuações, não se deixando intimidar pelo espaço livre após as pequenas fileiras de fãs que se aproximaram do palco, e durante pouco mais de meia-hora criaram um som estrondoso e raivoso, obrigando as suas canções a sobreviver à hora avançada. Temas-chave da banda, como “Dá-me a Tua Melhor Faca”, “Amor Combate” ou “Cronófago” vieram embrulhadas por variados espasmos e distorções pedaleiras do quinteto em palco, que tratava cada música como sendo a chave definitiva para o sucesso ou falhanço do concerto. A julgar pelas letras cantadas pelo público de volta à banda, dos exemplos de crowd-surfing, e dos chamamentos para regresso após um final de actuação que viu a bateria ser desmontada via mosh, a táctica resultou.

Antes da coqueluche rock actuar, quatro outras formações pisaram palco, começando pela – ninguém diria pelo nome – portuguesa Nicole Eitner. Sentada a um teclado Korg, com apoio de contrabaixo e violino, fez uso de uma boa voz para recriar um ambiente em que as músicas longas passam pelo soturno, pela “torch song”, pelo pastoral britânico. A pop de Nicole Eitner pode ser vistosa, sem nunca parecer demasiado óbvia. Dispensar-se-ia um momento vaudeville um pouco tonto, e a cover swingante de “You Spin Me Round (Like A Record)” dos Dead Or Alive (“Para aqueles que se lembram dos anos 80”) não aqueceu ou arrefeceu. Mas há aqui cantora que pode criar mais e melhor.

Os Norton, em apresentação do novo Kersche, têm um problema nos seus discos. Tudo parece tão volátil como álcool etílico derramado, parecendo incapaz de gerar paixões ou ódios, pecado que, habitualmente, é mortal. Arrancaram o seu concerto os cinco membros em volta dos sintetizadores e drum machines, até que lá se alinharam no formato tradicional voz-guitarra-baixo-bateria-sintetizadores. Ao vivo, os Norton parecem saber que o registo dos discos não é suficiente, e usam sabiamente o volume e a distorção. Quando atingem um ponto de equilíbrio entre a fase boa dos Smashing Pumpkins, e a placidez embrulhada em espinhos dos Yo La Tengo, dão uma vida e uma pulsação às canções que lhes falta captar em CD.

Os Mazgani terão este ano, no Outono, enfim, a sua estreia discográfica. Sharyar Mazgani entrou em palco cantando um gospel-blues antes de dar início às mais convencionais músicas. A banda tem a capacidade de ser calorosa, e a voz de Sharyar de ser potente e convidativa. Neste instante, porém, falta à banda ter grandes canções. Nomes passaram pela cabeça. Uns Lambchop mais acelerados, uns Bad Seeds menos pecaminosos, percorra-se um caminho intermédio entre estes dois pontos de referência e não se andará muito longe do que são os Mazgani em 2007. Pode-se juntar lembranças de Will Oldham e Woven Hand, mas a banda já tem, nitidamente, um som próprio. Resta-lhes torná-lo em algo inescapável.

A penúltima banda da noite, os Sizo, dispuseram da maior ênfase no show de palco proporcionada pelo vocalista. João Guedes cantou várias vezes para um vocoder, atropelou o seu guitarrista, saltou para o meio do público, bateu frequentemente nos pratos da bateria, e rodou o microfone com a perícia de um veterano que não é. A música é altamente rockeira na sua base. Aliás, os Sizo sabem a força dos dois Gs – groove e gritos. Com teclados a fazer a vez do baixo, vem à cabeça a condução desgarrada dos Fu Manchu. Em 2007, o rock reage bem a estas tentativas de o enlouquecer. É natural que se sinta um lado mais formulaico após algumas canções, mas com mais alguma paródia e ímpeto sonoro vindos do palco, a coisa fica resolvida.

Em resumo, a Naked dispõe, para além do investimento já seguro que são os Linda Martini, de um plantel variado, e de considerável potencial criativo. A prova estará nos discos que vierem a lançar. Espera-se, sobretudo, não ser preciso esperar até altas horas da manhã para o saber.
· 06 Abr 2007 · 08:00 ·
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com
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