DISCOS
Azevedo Silva
Monja Mihara
· 12 Abr 2012 · 23:15 ·
Azevedo Silva
Monja Mihara
2012
ABSURDO. / The Pentagon Recordings
Azevedo Silva
Monja Mihara
2012
ABSURDO. / The Pentagon Recordings
Disco dedicado a quem se quer afogar nas suas mágoas e não o inverso.
Ao longo dos últimos anos, Azevedo Silva tem construído um currículo a solo notável; Tartaruga, Autista e Carrossel, os seus discos anteriores, eram todos eles exercícios na arte de bem escrever canções, tendo os grandes cantautores nacionais por base e um espírito livre e abrangente na forma como se atirava à composição - fado indie pode ser apenas um rótulo, mas continua a fazer sentido ao escutar a sua obra. Melancólicas, soturnas, com uma linguagem que, se não poética, viva na forma como contam histórias, as canções de Azevedo Silva são um gancho que nos puxa para o seu mundo mal as encontramos. Ouçam-se, a título de exemplo, "Die Mauer", "Abutres" ou "Bússola". Temas onde a tristeza e a angústia nos parecem, mais do que estados momentâneos, o esteio de toda a vida do seu autor. E daí que nos apossem de imediato. Sentimo-las, revemo-nos na sua amargura.

O seu quarto trabalho em seis anos, Monja Mihara, segue a mesma linha: um punhado de canções belas e fortemente acesas, onde essas chamas lançam, não luz, mas sim treva visível. Não servirão de consolo ou terapia à mágoa; melhor, far-nos-ão assumir essa "Mediocridade", como aliás o próprio a canta - nada é fácil quando tudo é obra do acaso. Impotência é, talvez, a sensação que permeia grande parte das oito canções, excepção feita a "Torto", onde, no final, existe um pequeno traço de esperança, inspirada por um Ícaro português. Antes disso, porém, é a "Fadiga" e o ruído de fundo que nos consome,- faixa onde a revolta (que existe, naturalmente, mas é inútil) explode no final em tons de fuzz, antes de regressarmos à acalmia triste de "Demónios" e à dolorosa "Sufoco".

Assumir cada último disco de um músico como a sua "obra maior" é um péssimo hábito - o próprio Azevedo sabê-lo-á melhor do que ninguém considerando a sua experiência a traduzir press releases. Mas a vontade que temos, após ouvir este Monja Mihara, é precisamente a de o fazer, sem deitar para trás tudo o que dele já se conhecia. Ou, então, de forma a fugir ao cliché, encaremo-lo como um trabalho contínuo que deve ser, não separado em nomes de discos e datas de lançamento, mas lentamente consumido, segundo o conceito de mono no aware, contraponto à lusitana saudade. Teremos, assim, um conjunto de canções às quais regressar quando tudo nos dói demasiado. E, acima de tudo, uma forma de nos abrigarmos do sol e chorarmos em paz.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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