DISCOS
Calhau!
Quadrologia Pentacónica
· 03 Nov 2011 · 19:10 ·
Calhau!
Quadrologia Pentacónica
2011
Rafflesia


Sítios oficiais:
- Calhau!
- Rafflesia
Calhau!
Quadrologia Pentacónica
2011
Rafflesia


Sítios oficiais:
- Calhau!
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Objecto interessante que não faz da sua estranheza um refúgio para o delírio conceptual.
Desde sempre um dos objectos mais inclassificáveis do fértil (verdades) panorama da música exploratória portuguesa, o duo de Marta e Alves Von Calhau desde sempre assumiu uma faceta artística não necessariamente abordada de uma perspectiva puramente musical. Testavam-se continuamente nesse balanço e jogava-se com tudo aquilo que era passível de produzir som, através de uma mestria no quitanço de objectos que foi a sua génese. Uma exploração com tanto de desafiante como de lúdico que viria a dar origem a uns interessantes cd-r's e a constituir palco para uma dimensão performativa que fazia jus a todo um arraial de bizarria auto-consciente mas nunca presunçoso.

Dessa música feita em retalhos, herdeira das técnicas do dadaísmo e do brutisme, foram aprimorando esse vago conceptualismo calhau, para chegarem a formatos mutáveis/mutantes onde se estruturavam esses estilhaços num contínuo mais identificável. A bizarria deixava de ser um fim em si mesmo para adoptar toda uma conjectura onde os meios electrónicos serviam uma proposição minimamente definida. O depurar progressivo que levou até Quadrologia Pentacónica. Disco intrigante, que alguns poderiam até dizer de canções. As coisas que uma voz faz.

O que nem seria tão rebuscado quanto isso, não fosse o facto de não existir propriamente uma lógica interina a forçar a barra daquilo que faz uma canção. Nas quatro faixas de Quadrologia Pentacónica a voz de Marta Von Calhau é mais um narrador desviante. Afecta a jogos de palavras com tanto de wit infantil como de Tristan Tzara e devedora da expressividade da Nico circa Desert Shore. Imponente, é ela o fio condutor para os acontecimentos subtis que vão balizando instrumentais laboriosos que nunca cedem ao factor estranheza per se para se aguentarem. Impera a contenção e uma imagética distante.

Apesar dessa norma apaziguadora, nunca cede a filtros contemplativos. A projecção mental faz-se de justaposições desfasadas e assentes naquilo que apenas a presença in loco dos artistas poderá consubstanciar com um rosto. Ou um cadáver esquisito (no duplo sentido) fascinante. A meta-teatralidade que acaba por nem sempre beneficiar as composições quando estão órfãs dessa mesma presença por incidirem numa faceta que pode muito bem ser vista como caricatural nos seus exageros lúdico-expressivos. Pelo menos, para quem (como eu) nunca se reviu na dimensão teatral da música como algo de valor (mea culpa? Ou uma questão de bom senso?).

Esse lado lúdico é evidente no exercício de estilo linguístico de “VM” que parte de um spoken word onde “Olá vaca, atlas e a droga animal” é também “lâmina a gorda e salta cavalo” numa leitura bidireccional que se vão desenrolando antes de sucumbirem à electrónica subterrânea, na senda de algum ruído mais estático com raízes no Fluxus e descendência recente em nomes como Hive Mind. Logo a abrir o álbum, “O Caminho da Cabra” discorre num drone ceremonial sobre o qual a voz vai evocando as cabras e os cabrões num canto próximo do abandono pastoral de alguns cantares do Minho, com a percussão a enfatizar a procissão dolente.

Uma entrada solene a preparar a terra de ninguém de Quadrologia Pentacónica de onde emerge a maravilhosa “Lâmina Animal” como jardim suspenso. Malha soturna, assente numa pesarosa linha de teclado e brid calls distantes que servem de âncora para a “hipnose” que se canta, “Lâmina Animal” é o exemplo acabado da método do leopardo que o duo tem vindo a utilizar nas suas explorações mais recentes. Nos antípodas, “Osso Coco” não resiste ao peso de um chamamento quase burlesco na sua batida marcial e melodia tosca que seria uma Meira Asher com a pobreza de recursos de Inca Ore se se deixasse contaminar por algum humor.

E é esse o grande feito de Quadrologia Pentacónica. Conseguir uma metodologia mais resoluta para todas as prevaricações do passado sem assumir uma austeridade sabotadora nem resvalar para a paródia autista. Isto não é um circo, mas um documento fidedigno de um campo musical onde toda a transgressão sonora/lírica/musical não se fecha na incubadora da Galeria, para abrir uma panorâmica sobre a obra (o disco) que lhe garanta uma existência sem as muletas do conceptualismo capital. E deixa-nos com música esquisita sem vergonha na cara, e com algumas boas ideias para esse descaramento.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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