DISCOS
Part Wild Horses Mane On Both Sides
Low Fired Clay Escape
· 21 Set 2011 · 10:08 ·
Part Wild Horses Mane On Both Sides
Low Fired Clay Escape
2011
Carnivals


Sítios oficiais:
- Part Wild Horses Mane On Both Sides
Part Wild Horses Mane On Both Sides
Low Fired Clay Escape
2011
Carnivals


Sítios oficiais:
- Part Wild Horses Mane On Both Sides
Disco inclassificável do mais fascinante duo de exploradores da actualidade.
No fundo, ninguém com o mínimo de bom senso analítico gosta de apelar à “espiritualidade” como um factor determinante para a música. O cinismo agnóstico é uma via bem confortável e coerente para zombar de tudo isso quando a memória nos relembra da burguesia de LA a tripar no deserto dos anos 60, transmutada num yuppismo politicamente correcto de lojas esotéricas a cheirar a incenso. Mas, por outro lado, o que dizer de coisas tão transcendentais como Universal Consciousness, Spiritual Unity ou Karma se não recorrer a analogias metafísicas? Aceitem-se as drogas, a alienação ou uma crença profunda como galvanizadores, e a tal “elevação” passa a ser tangível.

Low Fired Clay Escape não é um tratado à comunhão suprema como os discos acima citados, mas movimenta-se subtilmente numa demanda extra-sensorial. E ainda por cima tem flauta. Instrumento assombrado pelas aulas de Educação Musical e pela exposição ao Aqualung, que às custas do fôlego de um ou dois luminários mais aventureiros e das trips intermináveis dos Bardo Pond atravessou a fronteira para o lado do tolerável sem qualquer peso na consciência. Low Fired Clay Escape está nesse plano, com a Zona do monumental Stalker a servir-lhe de cenário e de referência sonora. Não por acaso, o mais maravilhoso dos documentos do Tarkovsky sobre a fé, numa demanda por uma terra de ninguém pejada de simbolismos e referências crípticas a ecoar de modo brilhante na música de Eduard Artemyev.

Alusões cinematográficas à parte, paira por todo o disco aquela ambiência tensa de algo para além da realidade identificável. O concreto a albergar todo um mundo que não reconhecemos/ouvimos ou não queremos simplesmente reconhecer/ouvir e que os Thuja musicaram em discos como All the Strange Beasts of the Past ou Ghost Plants (nomes, por si só, bem sucintos dessa natureza). Música melíflua, sem direcção e cristalizada naquele momento. Evocativa na semi-consciência que apenas o improviso possibilita e que a folk humaniza.

Não fosse um objecto tão único e seria tentador alinhar o último álbum do duo de Pascal Nichols e Kelly Jones com algum free-jazz rarefeito, na linha da comunicação entre o Ed Blackwell e o Don Cherry em Montreaux, como no completamente acústico Sixth Samovar mas Low Fired Clay Escape ultrapassa qualquer catalogação. Recorrendo a electrónica barata (pedais, microfones de contacto, found sounds) como meio para texturas mais densas, mas permeáveis, de onde se soltam vozes fantasmagóricas, birdcalls e demais elementos naturais filtrados por um delay bem acolhedor.

“Rotational Bridalway” começa por deixar claros os propósitos da banda, depois de toda a trickery letárgica dar espaço às notas lânguidas da flauta de Jones em rasantes sobre a bateria espaçada de Nichols, num exemplo de diálogo como já não víamos no campo da psychedelia desde os encontros do Chris Corsano com o Mick Flower. Coisa maravilhosa de mística (depois da intro para este texto perdoam-se expressões destas) que assume contornos mais obscuros em “Benighted Consciousness”, sobre uma manta de vozes indistintas e pautada por apontamentos de percussão. Assente numa premissa comum, todo o disco flui nesse contínuo de pequenos gestos, renovando-se a cada momento com uma parcimónia quase cerimonial.

A liturgia, patente num lirismo muito particular que faz da música dos PWHMOBS uma sequência narrativa de todos os seus movimentos, e tem na mera sugestão o seu fim último. Cabe-nos a nós construir uma banda sonora as in realidade para toda esta rede meticulosa de ideias. Acredite-se ou não, há por aqui algo de beatífico.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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