DISCOS
Keith Fullerton Whitman
Disingenuity / Disingenuousness
· 07 Dez 2010 · 15:27 ·
Keith Fullerton Whitman
Disingenuity / Disingenuousness
2010
Pan


Sítios oficiais:
- Keith Fullerton Whitman
- Pan
Keith Fullerton Whitman
Disingenuity / Disingenuousness
2010
Pan


Sítios oficiais:
- Keith Fullerton Whitman
- Pan
Obra maior de um 2010 excelso para o William Gaddis do experimentalismo premente.
Num mundo infecto em informação subliminar, onde a colisão entre a forma e o conteúdo dá origem a embustes analíticos sem grande valor intrínseco, um nome como o de Keith Fullerton Whitman poderia ser vítima do “separar das águas”. Isto, porque nunca se reconheceu no músico norte-americano o “potencial de estrela” de alguém como Fennesz ou Tim Hecker, estando restringindo a um grupo de aficionados para quem o drone nas suas inúmeras variantes se inserem num contínuo onde nem sempre o factor emocional teria um peso preponderante. Uma ênfase nos processos que, muito embora nunca se esgotassem nesses pressupostos austeros, eram tendencialmente nefastos para o ouvido comum. E uma prolificidade e multiplicidade típica do aqui e agora improvisado/experimental/far out que o afastava do formalismo cabotino que permeia a composição moderna.

Keith Fullerton Whitman é, acima de tudo, um daqueles nomes que se reconhece, mas cuja obra urge ser muito mais conhecida e ouvida para além do pontual exercício de paciência. Playthroughs ainda chegou a franjas menos predisposta naturalmente, mas depois do som doce de Lisbon o músico entrou num período de maior contenção. 2010 veio-se a revelar, contra todas as expectativas, num ano extremamente profícuo para Whitman, com várias edições dispersas por entre os mais diversos formatos e num contínuo exploratório constante das mais diversas fontes sonoras. Disingenuity / Disingenuousness é o último e o mais impressionante documento de um ano onde obras discretas como Variations for Oud and Synthetizer ou Generator se revelaram óptimas adições a um cânone imponente.

Parte do fascínio de Whitman advém dessa mesma predisposição para a exploração de diferentes técnicas, instrumentação e formatos, que o posicionam num lugar de esteta no que diz respeito ao som puro à sua respectiva mutação por via do processamento. A guitarra de Playthroughs (obra essencial em toda e qualquer música deste século) e 21:00 for Electric Guitar, os teclados analógicos de Multiples, as gravações de campo de Darmouth Street Underpass ou o processamento informático de raiz. Elemento central na sua obra quer no desconstrutivismo harmónico e rítmico de Hrvatski ou nas suas experiências mais para oscilador, viola ou como no caso deste colossal Disingenuity / Disingeniousness das potencialidades do sintetizador modular de encontro às gravações de campo.

Embrulhado num lindíssimo invólucro em PVC e limitado a 500 cópias, este último LP da Pan Records trata-se do disco mais importante a vaguear na vasta periferia da electrónica mais experimental (termo, que em Whitman pode ser usado sem reservas) desde 92982 William Basinski ou chegando ao DIY mais imagético, Rifts de Oneohtrix Point Never. Registo fidedigno de uma imprevisibilidade da qual Whitman sempre se quis afastar e que sabota muita da música faux-intrigante dos seus pares dados ao lado mais abstracto da electrónica. Algo que o próprio sempre disse ser aquilo que mais o frustra em concertos onde o laptop é luz para uma cara ensimesmada com as potencialidades nevrálgicas da tecnologia. Sem a noção de risco que é afinal aquilo que humaniza o processo.

Composto por duas peças, Disingenuity / Disingenuousness é, como o nome indica, um trabalho de completude entre duas facetas distintas. “Disingenuity” no lado A revela a sua faceta mais abstracta, enquanto “Disingenuousness” mostra um lado mais acessível sem resvalar para o calor reconhecível da música de sintetizadores pós-New Age. São, no entanto, peças complementares que subsistem nos mesmos princípios fundadores, partilhando o mesmo material base (recolhido de gravações ao vivo e de estúdio ao longo dos últimos dois ano) para um efeito distinto. Uma exploração profunda em torno da reestruturação do som analógico na tradição ancestral da Musique Concréte adaptada ao contexto tecnológico vigente.

“Disingenuity” é feita de uma tensão tangível. Pequenos surtos sonoros alienígenas que se vão desvanecendo de um modo aparentemente caótico em recontextualizações da realidade. Os ecos distantes de passos, vozes e demais vivência mundana a assumirem um papel meramente material, distanciado da sua dimensão imagética, precedendo-a como se instaurasse a criação de um pequeno universo em si mesmo. Por isso mesmo, “Disingenuity” nunca põe a nu a sua lógica, habita um plano volátil, e faz tangentes ao silêncio, como prelúdio necessário ao som. Mais do que som, “Disingenuity” é sobre som. E admirável no modo como supera essa tarefa sem recorrer a enfeites teóricos. A explosão final de arpejo é o culminar, enquanto lança pistas para o lado B.

Partindo desse mesmo arpejo, “Disingenuousness” é, por comparação, um exercício de escuta bem mais acessível do que os 17 minutos precedentes. As faculdades anteriores tomam aqui uma estrutura mais estrita, num fluxo constante que nunca se resolve. Uma elipse em torno desse arpejo irrequieto que se vai adensando de um modo igualmente imprevisível mas preciso no gesto. Conferindo-lhe um enorme impacto sensorial, até que o pulso central (um quase-ritmo) se dissolve para deixar no ar uma cascata de sintetizador feita de colisões harmónicas irresolutas, cujo fim último nunca é o fade out de ideias. Antes uma conclusão lógica, através de uma inesperada linha melódica pós-silêncio.

Escapando a comparações e nichos ideológicos, Disingenuity / Disingenuousness não irá trazer novos ouvintes ao seu autor, nem fará dele um nome mais importante. É, acima de tudo, um capítulo fascinante de uma obra que fala por si, distante de conjecturas. É curioso compará-la com a obra desse gigante literário que é William Gaddis. Também ele reconhecido entre pares como essencial, mas de difícil compreensão transversal. Demasiado intelectual, diziam. Mas, “longo e tortuoso é o caminho que das Trevas conduz à Luz” já se lia na Bíblia. Fora de anseios religiosos, também o caminho que Keith Fullerton Whitman tem vindo a trilhar conduz a um final glorioso.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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