DISCOS
Oneohtrix Point Never
Returnal
· 29 Jun 2010 · 23:00 ·
Oneohtrix Point Never
Returnal
2010
Editions Mego


Sítios oficiais:
- Oneohtrix Point Never
- Editions Mego
Oneohtrix Point Never
Returnal
2010
Editions Mego


Sítios oficiais:
- Oneohtrix Point Never
- Editions Mego
Returnal ou o devir de acordo com Daniel Lopatin.
Com a crescente atenção, feita com alguma boa vontade descontextualizada da realidade periférica (nada contra), sobre música de sintetizadores que habita livremente entre a New Age / Kösmiche / Sci-Fi, seria inevitável que alguns dos nomes maiores desse espectro difuso saíssem pela porta grande do nicho das cassetes, CDR's, e outras formas de edição mais ou menos limitadas a militantes, para uma exposição generalizada em meios respeitáveis. Por vezes, merecida.

Imiscuído nesse miasma de sons nostálgicos e tendências para o psicadelismo escondido de alguma pop dos anos 80, Daniel Lopatin tem vindo a ser (a par dos Emeralds) o chefe com especial apreço para a citação, cujo nome tem vindo a lume em publicações über-influentes com maior incidência. Facto que não surpreende, tendo em conta uma certa transversalidade na sua música capaz de atrair públicos tendencialmente distantes da guerrilha drone para o seio do conceito de electrónica pré-IDM/pós-Noise. Obviamente que a qualidade dos seus inúmeros registos também tem um peso fulcral.

Lançada no final do ano passado, a compilação Rifts (pela importantíssima No Fun) albergou alguns dos seus melhores momentos de uma carreira já com alguns anos para um reconhecimento até então cingido a essa militância. Elogiadas as capacidades inventivas de Lopatin um pouco por todo o lado, era com alguma antecipação que se aguardava esta primeira edição na eMego. Returnal não bate Rifts. Não tem de o fazer, e seria até injusto esperá-lo. A natureza destas duas obras é singular. Rifts tentava unificar num contínuo estrutural obras distintas, conseguindo a proeza de atar convenientemente quaisquer pontas soltas que sobrassem, enquanto dispersava a matéria residual resultante de tão grande enxurrada de lançamentos marginais. Obra de conclusão momentânea, e marca autoral fidedigna do seu trabalho enquanto Oneohtrix Point Never. Returnal é o passo consequente das experiências (nunca definitivas e encapsuladas enquanto obra mestra em Rifts) de um trajecto progressivo (expressão tão, tão adequada) onde a conceptualização é linha mestra para a compreensão da obra de Lopatin como um todo de constante mutabilidade sustentada.

Especulando sobre um título tão directo como Returnal, é como se a trilogia, que constituía o cerne de Rifts, tivesse conhecido uma conclusão com Russian Mind, sendo este novo capítulo um regresso à exploração conceptual de uma nova fase na viagem cósmico-interior de Lopatin. Mais do que uma afirmação de identidade (vincada em Rifts) lança novas pistas para o seu trabalho. Pistas essas, já afloradas na sua passagem relativamente recente pela ZDB.

Concerto de uma “beleza em suspensão que intercalava com alguns movimentos mais abstractos, onde os resquícios da IDM lutavam com micro-excertos de canções impossíveis de identificar” (recorrendo à auto-citação), é sobre estes pressupostos que Returnal assenta os seus alicerces. Nunca encetando por caminhos mais dronescos assentes na repetição, Returnal vai encandeando as melodias circulares do Juno com paisagens mais fractais, sem quebras no seu discurso fluente. Um discurso derivado da capacidade de estruturação e composição de Lopatin, que nunca se deixa levar pelo lado improvisado que serve de referência para alguns dos seus pares menores como escape.

Estrutura é, como se vê pelo uso abusivo da expressão, uma palavra chave em Returnal que, iniciando-se com uma colagem ruidosa (talvez um dos momentos mais impenetráveis da sua obra até agora) em “Nil Admirari” escorre para a melancolia dos sintetizadores suspensos de “Describing Bodies” com admirável flow. Ou não fosse Lopatin um reconhecido admirador de gente como o RZA. Não se confinando a um esquema abstracção/contemplação, Lopatin vai reabrindo os diversos caminhos já palmilhados com vista à reconstrução de algo novo. Como a peça chave “Returnal” que pega no sentido direccionado à canção já explorado na cover de “Heavy Water/I'd Rather Be Sleeping” para o dotar das sequenciações de algo como “Zones Without People”.

Igualmente fulcral, “Pelham Island Road” surge num contínuo com “Physical Memory”, pelo modo como subtilmente vai instalando um certo desconforto subliminar a estados nostálgicos característicos da solidão, com uma linha transmutada via sci-fi de “Peter Standing Alone” dos Boards of Canada. Tangencialmente, “Where Does Time Go” e a pequena “Oroborous” almejam os mesmos estados revestidos de uma maior luminosidade. Pecam, talvez, apenas por um certo sonambulismo latente, presas a um formato de labor minucioso mas já demasiadamente reconhecível no seu conforto. Ou talvez seja apenas uma tendência para a intransigência perante a hipótese sofá.

No entanto, para constatar que “Stress Waves” constitui o momento mais desinteressante do álbum não é necessário recorrer a essa intransigência. Embora seja inegável a sua beleza, deve em demasia aos caminhos trilhados por Fennesz em Endless Summer, soando algo forçada e próxima dessa tendência recente para a apropriação do “imperialismo americano” dessa estética europeia, patente em Carve Out the Face of my God de Infinite Body, por exemplo.

Returnal acaba, de modo circular, como começou. “Preyouandi” retoma as explorações mais abstractas do início, de modo menos frenético, mas igualmente afoito ao convencionalismo hermético. Um ciclo. Ou, mais apropriadamente, um regresso. Tendo em conta a capacidade de Lopatin de volatilização e direcção ao infinito, um eterno retorno não será uma ideia assim tão descabida.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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