DISCOS
Excepter
Presidence
· 08 Mar 2010 · 21:36 ·
Excepter
Presidence
2010
Paw Tracks / Flur


Sítios oficiais:
- Excepter
- Paw Tracks
- Flur
Excepter
Presidence
2010
Paw Tracks / Flur


Sítios oficiais:
- Excepter
- Paw Tracks
- Flur
White Album.
Adoptando uma perspectiva histórica, a natureza de um álbum duplo habita quase sempre num de dois planos distintos, e quase antagónicos. De um lado o conceptualismo formal de uma obra em que diferentes partes se procuram coadunar numa coerência interna que permita a sua absorção enquanto um todo. Caminho a um gestalt onde as partes se articulam sobre princípios próprios. Do outro, a longa duração enquanto meio para as mais inusitadas e arriscadas experiências, onde a coabitação incoerente de temas tem a sua razão de ser como montra dinâmica de inúmeras possibilidades num todo expansivo. Muitas das vezes, motivadas pelos egos interiores dos seus membros.

Na história da música popular, The Beatles (ou White Álbum, na gíria) será o paradigma desta última realidade. Manta de retalhos onde Lennon, McCartney e Harrison (a melhor memória do Ringo será sempre o ritmo de “Tomorrow Never Knows” e não se fala mais nisso), deram azo a todo um manancial de canções brilhantes sem qualquer preposição estética unificadora. Aparte todo o misticismo em torno das convulsões internas, o álbum branco será sempre uma ruptura consciente com as ambições concisas que o precederam. Por outro lado, essa mesma incoerência faz de The Beatles o best of possível da banda sem o ser.

Toda esta verborreia para constatar que Presidence é o álbum branco da banda nova-iorquina. Passe o óbvio de uma capa branca, também Presidence se seguiu aos álbuns mais coerentes que os Excepter têm vindo a lançar (exceptuando a bizarria Black Beach que os mostrou mais próximos do Jewelled Antler Collective). Se Alternation se revelou demasiado longo para ser memorável, flutuando num miasma auto-consciente do modus operandi de John Fell Ryan e companhia, Debt Dept. cingiu-se a um lado mais festivo nem sempre suportado devidamente com aquele sentido de risco que as suas semi-canções pedem.

Num quadro mais amplo da carreira da banda de Brooklyn, a incoerência faz todo o sentido. Não só pelas diferenças que medeiam a pós-dança em fluxo de consciência rarefeito de Self Destruction da trip de sofá densa de Throne. Para quem tem tido a paciência de Job de acompanhar os seus streams gratuitos, disponibilizados pela net ao longo destes anos, não será, de todo, surpreendente encontrar retalhos ora brilhantes, ora inócuos que viriam a povoar os seus lançamentos. Um hit-or-miss constante entre apelo dançável, jam alienada e toda uma aura narcótica de quem não sabe muito bem para onde ir. Quando se chega, no meio de todo este caos, a algum lado, é como chegar às mais de duas horas de Presidence.

Não se tratando da luta de egos do álbum que intitula esta resenha, ou de um fidedigno retrato de um projecto de cara lavada, Presidence tem o dom de reunir de forma livre todas as facetas que têm vindo a lume ao longo destes anos, encetando até em desvios informais a uma fórmula longe de cartografada para a posteridade. Um Gargantua de Brooklyn encharcado em ácidos, envolto em paranóia urbana e estilizado em formas voláteis do lifestyle dessa mesma cidade. Que nunca dorme. É um imenso loft sustentado nessa mesma incoerência, que vai de 2003 até 2009, e que alinha em planos distintos, todas as suas tendências sem recurso a hipérbole.

Compreendendo grande parte do primeiro cd, a suite “Teleportation” transporta para uma bolacha aquilo que de melhor os seus streams têm garantido aos mais atentos. Um flow consequente em seis andamentos, que recupera do fundo do poço aquele reverb que fez de KA uma das obras mestras da alienação pós-modernista. Sem se remeter a um plano unidimensional, inicia-se com aquelas reconhecíveis melodias de sintetizador idiotas/infecciosas e uma batida característica (como se a não querer dançar) que parece nunca fazer sentido (“KAL”), para desembocar nos detritos citadinos de “LIL” a caminho da verdadeira Black Beach. A praia enquanto depósito de entulho. “GOL” é uma peça desconcertante de vozes no vácuo, na senda de “Shatered Skull”. Trespassando para algo que em “KOP” tem direito àquelas batidas light que parecem servir de metrónomo ao tempo que faz em lugar algum. “ASK” é o post-scriptum que deixa tudo isto em aberto. Um excerto do infinito.

Como contraponto a toda esta ameaça subliminar, a respiração subaquática de “Leng” deixa o dub habitar na malha de baixo constante, para que os sons voláteis em seu torno se expandam naturalmente. “Og” fecha o primeiro tomo em 27 minutos de ambientalismo oblíquo, uma faceta quase estática onde se revê de modo mais claro a força anímica que acabará por revestir grande parte do segundo volume. Pequenos acontecimentos, implosões e um sucedâneo de ligeiros nadas que não projectam qualquer tipo de imagem mental. Inventam-se num fluxo sonoro que engole tudo aquilo que de mais espectral existe na kösmiche para encarquilhar em nuvens densas de enorme expressividade sensorial.

Cronologicamente disperso, Presidence retoma-se com uma gravação de sintetizador solo de John Fell Ryan datada de 2003. Gravada no Presidence Day, o tema título são 33 minutos em igual medida Acid House e “Suicide”, sem deixar de colar no cérebro o minimalismo de Tony Conrad. Falsa música de dança, que se atira ao espaço (mental?) sem uma única batida. “The Anti-Noah” é uma espécie de “Infant Dressing Table” (melancolia difusa de Here Comes The Indian) feito em pleno clima de Guerra Fria. Tensão flutuante, escondida em mensagens radiofónicas que se vão dispersando sobre a cortina de fumo do sintetizador fantasma e percussão textural. “The Open Well” é a chamada para as armas. Ou a chegada dos submarinos na latência do acontecimento, interrompido por surtos de teclas que o Jean Michel Jarre faria se o espaço se lhe afigurasse como assustador.

“When You Call” fecha na pior nota estas 2 horas e 20 minutos, com recurso ao lado mais harsh da banda numa inconsequência de 5 minutos demasiado esforçada com a sua própria soturnidade para que se faça valer de alguma consequência estrutural. Consonante com tudo aquilo que se lhes conhece, mas desnecessária tendo em conta tudo aquilo que existe para trás. Tratando-se dos Excepter, não surpreende.

Colosso mutante na forma e no conteúdo, Presidence não irá ficar para a história, mas tal não será necessário quando esta já está escrita nas imediações de KA Quanto muito será apenas comparável na ambição ao majestoso Halve Maen dos extintos Double Leopards. De resto, desde sempre os Excepter se comparam apenas com a sua própria obra. No contínuo desta, Presidence fica enquanto marca indelével de tudo aquilo que têm vindo a desbastar nas mais variadas frentes, sem recurso a uma mise-en-scéne mítica. Longe de algo conclusivo, como apenas poderia ser um álbum duplo desta natureza alienígena. Assim de cabeça, apenas Sign O’ The Times coabita os antípodas acima citados. Aos Excepter, fica-lhes melhor uma existência disforme. Hoje, Presidence é o melhor corpo possível.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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