DISCOS
Gary War
Horribles Parade
· 21 Jan 2010 · 10:26 ·
Gary War
Horribles Parade
2009
Sacred Bones


Sítios oficiais:
- Gary War
- Sacred Bones
Gary War
Horribles Parade
2009
Sacred Bones


Sítios oficiais:
- Gary War
- Sacred Bones
Esperteza ao serviço do ruído ou da canção?
Enquanto terminologia, Noise Pop é hoje um termo ultrapassado. Hiper-generalista, tanto pode servir de abrigo à timidez shoegazer dos anos 90 epitomizada em Loveless, ou à displicência indie dos Pavement ou Flaming Lips (circa In a Priest Driven Ambulance, transfigurada na actualidade shitgaze de Times New Viking e Eat Skull, como ao falso experimentalismo da IDM a querer ser canção. Até os Animal Collective foram em algum ponto cunhados com o termo. É a vitória da distorção e do bizarro. Culpem-se os Sonic Youth. Hoje, são inúmeros os termos para substituir, de forma nem sempre digna, esse encontro de palavras antémicas, cujo antagonismo foi bastas vezes posto à prova. Perdeu por diversas vezes.

Indo mais longe, o próprio uso de noções como Pop e Noise é também ele, muitas vezes, despido de valor categórico. Endless Summer veio acabar com o preconceito do ruído enquanto experiência dolorosa e objectos inclassificáveis como a “Slippi” dos Animal Collective já estão devidamente instaladas no ouvido mais ou menos comum. O uso do ruído enquanto matéria “musical” pode conduzir a resultados brilhantes. Se estruturados em algo vagamente aparentado a uma canção, melhor. Parece até uma fórmula simples, mas já ninguém com bom senso se deixa fascinar por dois ou três acordes óbvios submersos em fuzz. Essa idea simplista resume-se ao disfarçar das debilidades de composição através de um uso exacerbado de efeitos e parafernália sónica. Truques de estúdio até podem distrair durante algum tempo, mas o embuste permanece e é uma questão de tempo até se descobrir o verdadeiro valor da canção. Ou da ausência desta mesma. O que não impede a textura dominante de suster as ambições.

Acoplado a tudo o que é texto sobre Horribles Parade, o termo em questão deu origem às mais diversas dissertações sobre o conceito. No artigo para a Wire, Nick Richardson foi particularmente assertivo nesta questão, separando as águas para concluir que são uma e a mesma coisa. Para a modernidade, isola-se o segundo conceito, e acto contínuo, chega-se ao tão propalado Hypnagogic Pop. Criação recente mas a abrigar toda uma míriade de projectos díspares sobre o tecto difuso da memória de uma memória. O facto de Gary War ter já colaborado com Ariel Pink dá-lhe entrada directa nesse mundo. Que lhe assenta bem. Existe ao longo de Horribles Parade aquela familiaridade estranha patente nas canções de Pink, mas se neste último restam ainda arestas limpas que permitem que estas resplandeçam de um modo mais ou menos directo por debaixo da cortina de fumo, Gary War soterra tudo sobre uma manta de efeitos impenetrável. Tudo. Enquanto Ariel Pink deixa as fitas ao sol para daí construir a sua obra, Gary War prefere lançá-las à água.

Esse uso exacerbado dos efeitos acaba por instalar no álbum um certo sentimento de desnorte, como se todas as coordenadas se alterassem constantemente. O que poderia descambar para a confusão enquanto manifesto estilístico. O talento de War está em conseguir amestrar o turbilhão de flanger, echo ou tremolo em algo conscientemente estruturado, onde mesmo as pontas soltas têm uma razão de ser. Do miasma estreboscópico escapa-se sempre alguma melodia mais memorável, enviesando em rasantes sobre tudo aquilo que é gloriosamente psicotrópico na pop. Transversal às últimas cinco décadas de putos ariscos a brincar com canções, War revela-se capaz de rendilhar as texturas em canções dotadas de diversas partes e sobre diferentes prismas, de modo coerente.

Nesse limbo, Horribles Parade nunca se torna unidimensional. “Highspeed Drift” traz para a frente da mistura uma misteriosa linha de teclado, descartando a existência de um refrão e encadeando sucessivas pontes de voz abafada. O pulso dos Neu! conduz “No Payoff” até à alienação litúrgica de “For Cobra” sobre espuma espectral. Em “Clean Up” ouve-se uma pandeireta, com os anos 70 tão perto em “Orange Trails” a trazerem a sombra de Ariel Pink. Avançando uma década, “Everynight” poderia até ser algo decente vindo dos Zigue Zigue Sputnick com apetite para a destruição, enquanto “Next Year” zomba da folk com recurso ao ruído. Esse elemento que paira sobre todo o álbum e que é atacado enfaticamente em “Scales” e no final com “Using”. Mediados pela melancolia subliminar de “God Trip”. Se, de acordo com as “últimas tendências” a memória enquanto conceito, tem sido continuamente utilizada enquanto recurso para a justificação crítica de objectos musicais, todos os desvios de War são um reflexo notável disso mesmo.

As definições para Horrible Parade serão mais que muitas, e cada qual as criará por forma a engavetar este fascinante objecto num refúgio mental que lhe convenha. Fechando um círculo, também ele disperso, relembro uma entrevista a Mazami Akita de há uns anos. Quando interrogado sobre o que era para ele o Noise, respondeu que era a música pop, por lhe causar desconforto. A não-linearidade desse contínuo entre polos opostos já muito dificilmente terá o poder de chocar. É simplesmente, música esquisita, como diriam muitos pais. E com razão. Conseguir fazer dessa mesma esquisitisse um disco tão apaixonante é o que a distingue dos demais.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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