DISCOS
Oneohtrix Point Never
Rifts
· 13 Jan 2010 · 09:17 ·
Oneohtrix Point Never
Rifts
2009
No Fun


Sítios oficiais:
- Oneohtrix Point Never
- No Fun
Oneohtrix Point Never
Rifts
2009
No Fun


Sítios oficiais:
- Oneohtrix Point Never
- No Fun
Magnífico exercício de memória sobre a actualidade pós-new age.
Preso a um vazio cultural, despido de referências e com uma postura eminentemente ascética, o Noise tem vindo a perder gradualmente a sua relevância no panorama livre / exploratório / inclassificável. Na cauda deste espectro, 2009 viu desabrochar com maior incidência projectos que partilhando afinidades estéticas com a militância noise (edições limitadas e parcos recursos) se têm vindo a desenvencelhar desse emaranhado através da reapropriação de um discutível legado. Falamos da New Age, que devidamente contextualizada se tem vindo a refractar numa estética DIY amíude reconhecível enquanto entidade em alguns círculos. Prontamente apelidada de New New Age, resgata à memória o legado da kösmiche, para o cruzar com referências ao minimalismo de Terry Riley ou as bandas sonoras de John Carpenter. Concluindo um refúgio mental onde nomes mais ou menos obscuros como David Parsons ou J.D. Emmanuel são primordiais e que poderia ser considerada sem grande estrilho de pós-Skaters (para terem uma ideia da importância destes dois drogados/génios).

Centrada nas potencialidades do sintetizador, a música de nomes como Stellar Om Source, Dolphins into the Future ou Steve Hauschildt partilha esse código genético sem se reduzir a um emular indiferenciado de “Blackdance” de Klaus Schultze ou “Stuntman” de Edgar Froese. As idiossincrassias tanto passam pelo naturalismo sonhador de Dolphins Into the Future, como pelas visões cósmicas de Stellar Om Source, mesmo que persista frequentemente um apelo metafísico comum. Daniel Lopatin habita no espaço enquanto Oneohtrix Point Never. Persiste um sentimento de solidão e abandono; a Dark Star de John Carpenter em acessos nostálgicos. Comparativamente aos seus pares, Lopatin não parece tão interessado em almejar estados alterados da psique por via de uma abordagem mais institiva (freeform), mas em seguir uma lógica inerente a cada tema enquanto projecção do seu imaginário singular. Este, passa pelo sci-fi mais humanista, como que inspirado nas visões futuristas do passado, acabando por levar instintivamente a um certo ideal pré-idm sem incorrer nessas criações “mágicas” da IBM, mas igualmente fascinado pelas suas potencialidades. Nesta lógica, a música de Oneohtrix Point Never glorifica a polifonia sintética sem se deter no misticismo fractal ou reapropriações psicotrópicas da cultura popular. Se Sky Limousine ou Dreamer's Cloth habitam um mundo construído em fita, pode-se dizer que Lopatin imagina já as disquetes de 5 polegadas.

Em parte, a remasterização de James Plotkin, vem também reforçar essa mesma ideia, numa cristalização de processos que não estão dependentes da qualidade de gravação. Por outras palavras, as suas virtudes não se prendem com o lo-fi enquanto statement estilístico. Compreendendo música feita desde 2003, Rifts compila diversos lançamentos limitados, editados ao longo dos últimos três anos por editoras como a Deception Island ou a Arbor em dois cd's, num documento essencial para a compreensão da obra do músico norte-americano. Sem recorrer uma estruturação cronológica, Rifts é demonstrativo da singularidade de Lopatin, por não se sentirem rupturas entre os vários espaços temporais presentes ao longos destes 140 minutos de música. Mesmo que conceptualmente exista uma tendência para adoptar uma determinada imagética de acordo com o álbum em questão.

Neste ponto, e sabendo de antemão da coabitação saudável de todos os temas, é interessante comparar Betrayed In The Octagon (correspondente ao lançamento mais antigo) com o mais recente Russian Mind para daí tirar as suas elações. Sonhos diferentes de um mesmo futuro. Alicerçado nas partes I e II de “Woe Is The Transgression”, Betrayed In The Octagon cruza-os com temas mais curtos, no todo mais sorumbático e desolador de Rifts. Especulando, é como se a traição do título tivesse levado a uma destruição quase total, de resquícios de humanidade desesperançados. Próximos do vazio e há muito vetados ao abandono. Já Russian Mind projecta um futuro temente da Guerra Fria, nostálgico na sua glorificação de um programa espacial destinado ao fracasso, mas persistente no ideal de um futuro melhor. Absolutamente maravilhosa, “Physical Memory” é a banda sonora do cosmonauta solitário, a sonhar com a Humanidade que, noutras latitudes (“Imannence”) se deixa desacreditar. O abandono, novamente.

Consonante com esta identidade vincada, referenciar o Vangelis de Blade Runner e Albedo 0.39 em “Lovergirls Precint” ou “Transmat Memories” ou a escola Carptenter em “Terminator Lake” (sim, poderia fazer parte do filme) não será tanto uma questão de pastiche desnorteado, mas antes parte integrante de um mesmo corpo. Algures entre o plano etéreo/saudosista da lindíssima “Ships Without Meaning” (Boards of Canada fascinados com astrofísica) e os sonhos robóticos de “Format & Journey North” existe todo um mundo de possibilidades. Parte fundamental do encanto de Rifts prende-se com essa mesma capacidade de imaginar.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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