Assim
como aconteceu com os Kings of Convenience de Quiet Is The New Loud para Riot on an Empty Street, também o Festival Para Gente Sentada (ou Abraçada)
se mudou para o conforto do lar. As folhas secas de Outono foram substituídas
por tapetes, o banco de jardim e os arbustos deram lugar a um biombo e a três
gigantescas molduras – um prenuncio para a noite a guardar que se aproximava
– rodeadas por uma enorme fita vermelha que pendia do tecto – o ideal seria
imaginar que pendia o céu, só para abrilhantar as coisas. Desde logo foi possível
observar que a segunda noite do “Festival dos Sentados” – como foi tantas vezes
curiosamente abreviado – seria de devoção a Devendra Banhart. Mas primeiro,
Kate Walsh, a britânica que visitava Portugal pela terceira vez (em 2004). Acompanhada
do seu guitarrista - Rick Oliver – Kate Walsh apresentou mais uma vez as canções
do seu álbum de estreia, Clocktower Park. O nervosismo natural registado
nas primeiras actuações quase desapareceu – é agora uma mão segura que percorre
as cordas da guitarra acústica pelas canções intimistas que a sua ainda curta
vida – Kate Walsh tem apenas 21 anos – lhe fez escrever. Além disso, Kate Walsh
mostrou ser menina para uma piada ou duas: confessou-nos que a sua guitarra
é temperamental e precisa por isso de afinações constantes e mostrou ainda dominar
alguns termos em português tais como “olá”, “adeus e “posso
beber uma cerveja?”, expressão que – nas suas palavras – é de primordial
importância. Mas no que diz respeito à música propriamente dita, Kate Walsh
percorreu Clocktower Park em quase todas as suas canções: “Animals on
Fire”, canção que compara o poder de uma paixão a animais em fogo, a solarenga
“Quicksand”, “It’s Never Over”, a afirmação do sonho e da esperança, “Junebug”,
“Impressionable” – o melhor tema do disco de estreia, transportador de uma imensa
sensação: “Silence is the voice I miss the most” -, “Star” e “Holes in
my Jacket”.
Para muitos desconhecido, Robert Fisher, o líder dos Willard Grant Conspiracy,
entrou em palco para rapidamente manifestar a sua insatisfação por não tocar
com a sua banda e anunciar que a sua actuação iria centrar-se essencialmente
em canções sobre a morte. E assim foi. Mais uma vez, a guitarra acústica e uma
voz. E algum humor. Fisher reportou-se à noite anterior para contar que, depois
de recolhido ao Hotel, teve de lidar com a mais fácil das indecisões: escolher
entre a cerveja e o whisky. Deixou para o público, a complicada tarefa de descobrir
qual tinha sido a sua opção e prosseguiu com as canções. A sabedoria que Fisher
possui caminhou sempre ao lado das suas canções e a melancolia também, de braço
dado. Numa dessas canções, Rosie Thomas – sempre doce – e Nicolai Dunger deram
uma ajuda na voz, e na harmónica respectivamente. Perto do fim, Robert Fisher
apresentou mesmo aquela que para si é a canção mais triste que conhece, e não
é difícil perceber porquê. A palavras tantas, Fisher faz quase lembrar Will
Oldham - quando em “Death To Everyone”, do seminal I See a Darkness,
diz: ”Death To Everyone is gonna come / And it makes hosing much more fun”
- ao revelar tamanho pessimismo: “Suffering is gonna come / To everyone /
Someday”.
Não vale a pena escondê-lo, o concerto de Devendra Banhart era a razão pela
qual mais de metade das almas que enchiam o Teatro António Lamoso esperavam
ansiosamente. Na primeira canção, Devendra fez-se acompanhar somente da sua
guitarra mas a partir daí – para surpresa de muitos – fez-se acompanhar dos
The Queens of Sheeba, a sua trupe: Andy Cabic dos Vetiver, Kyle Field dos Little
Wings no baixo, Adam Forkner na guitarra e Jona Bechtolt na bateria. Por força
das circunstâncias, as canções de Devendra Banhart, que em disco são pautadas
por um enorme intimismo, ganharam um novo corpo – um corpo de banda. “Will is
my Friend” surgiu, mais emotiva do que nunca, adocicada pelo baixo e pela guitarra
e suavemente balanceada pela percussão. Devendra teceu elogios à comida, ao
vinho do Porto, ao vinho Moscatel - chegou a ler o rótulo de uma das garrafas
que se passeavam pelo palco – mas deixou um aviso: Santa Maria da Feira precisa
de uma loja de fatos; fatos dos Power Rangers, das tartarugas-ninja ou apenas
de tartarugas ou ninjas. Houve tempo para uma canção dos Little Wings, outra
dos Vetiver, uma cover de Neil Young e uma jam do caralho – sim,
do caralho – que se deve ter prolongado por uns quinze minutos: ouviram-se dedicatórias
a John Fahey, elogios multi-continentais, gritos de “ It’s allright to be
a white reggae troll” e “ I believe in Africa” e mesmo os sons do reggae - sim, porra, reggae. “This Beard Is For Siobhan”, repleta
de la la la las, e “This is the Way” surgiram em versões fantásticas;
também surgiram dois ou três encores, cada vez mais intensos e imprevisíveis
– rondou sempre uma estranha atmosfera de nostalgia ou a sensação de se estar,
de repente, na década de 70; um estranho sentimento de distanciamento do presente.
Como reflexo daquilo que se estava a passar em palco, na plateia as coisas começaram
a ganhar contornos de histerismo: pessoas em pé, constantes trocas de lugar,
dança desenfreada, palmas, cânticos e um sentimento quase geral: aquilo que
se estava a passar em palco tarde ou nunca será esquecido.