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O Fado continua a ser nosso, e agora é Património da Humanidade
∑ 28 Nov 2011 ∑ 00:40 ∑


A UNESCO já consagrou o Fado como Património Imaterial da Humanidade, dando assim resposta positiva à respectiva candidatura portuguesa. Pouco antes deste reconhecimento oficial conversámos com Pedro de Castro, guitarrista (que costuma acompanhar nomes como Ana Sofia Varela, Ricardo Ribeiro, Kátia Guerreiro ou João Braga) e proprietário da Mesa de Frades, Casa de Fado de Alfama onde se podem ouvir alguns deste fadistas e ainda vozes do calibre de Celeste Rodrigues, Pedro Moutinho ou Joana Amendoeira.



Qual é o seu sentimento em relação a esta possibilidade de o Fado ser considerado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO?

√Č um sentimento estranho. Fico muito feliz se ganhar, por haver um reconhecimento internacional de que o nosso Fado √© um patrim√≥nio que tem uma cultura pr√≥pria e muito interessante, n√£o s√≥ musical como social; por√©m, infelizmente nos √ļltimos anos tem havido uma quantidade de influ√™ncias externas ao Fado que t√™m deturpado esta realidade cultural. O pastel de bacalhau √© uma coisa nossa, mas se lhe misturarmos ovas de esturj√£o e pusermos um ovo de codorniz por cima j√° n√£o √© a mesma coisa. Por exemplo, fiquei muito desgostoso por saber que vai haver agora um espect√°culo em Nova Iorque chamado ‚ÄúOs Embaixadores do Fado‚ÄĚ que, se no primeiro dia tem uma quantidade de fadistas, no segundo tem os Deolinda e os OqueStrada ou os Am√°lia Hoje, que n√£o s√£o Fado nem gostam de fados mas est√£o a viver √† conta da palavra Fado. A pergunta fundamental que tem de ser feita sobre esta classifica√ß√£o √© ¬ęQual √© o Fado agora classificado como Patrim√≥nio da Humanidade? A M√≠sia? A Am√°lia Rodrigues? A Maria Teresa de Noronha? Os Am√°lia Hoje? Referimo-nos a qu√™¬Ľ. Mas fico muito feliz se o Fado, como eu o conhe√ßo, for reconhecido pela UNESCO.

Considera, então, existir algum risco de o Fado ficar "misturado" numa secção muito alargada de world music oriunda de Portugal - ou seja, que, estando o Fado em voga e levando este "carimbo", existe um risco acrescido de projectos musicais que já não são Fado se tentarem colar ao Fado para daí ganharem visibilidade, e essa mistura/confusão ser nociva ao Fado genuíno?

Andam a tentar fazer isso (a tentar matar o Fado como ele √©) h√° muitos anos. O Fado vem de uma origem muito pobre e humilde, muito simples de tocar ‚Äď com a complexidade da simplicidade que tem, sempre teve virtuosos e pessoas que se profissionalizaram, mas na sua g√©nese √© uma can√ß√£o de amadores ‚Äď, mas a partir da introdu√ß√£o de elementos eruditos e intelectuais (dando at√© outro n√≠vel po√©tico ao Fado) em algo muito popular e amador houve uma dualidade: come√ßaram a surgir ‚Äúfus√Ķes‚ÄĚ ou ‚Äúinflu√™ncias‚ÄĚ para camuflar uma certa vergonha que alguns c√≠rculos intelectuais tinham do Fado. E √© isso que faz com que se tente acabar com a origem. Mas, por mais que se tente matar ou deturpar, √© muito complicado porque isto est√° muito enraizado e foi muito bem feito.

E que mais-valias pensa que esta nomeação pode trazer ao Fado?

Vai trazer visibilidade, sem d√ļvida. Se 5% ou 10% da popula√ß√£o portuguesa presta aten√ß√£o ao que realmente √© Fado, haver√° tamb√©m alguma percentagem da popula√ß√£o de outros pa√≠ses que se vai interessar pelo Fado, o que ajudar√° o Fado a chegar at√© mais gente.
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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