A constatação que oferece, a médio prazo, o convÃvio com as duas principais parcelas do trabalho do japonês Takagi Masakatsu, em termos musicais como em visuais, é de que as mesmas coexistem sem diferenciação: descrevem paralelamente um mesmo espanto delicado perante as maravilhas eminentes do mundo, satisfazem dois dos sentidos com um caudal de estÃmulos activos que facilmente preencheriam os cinco. Ouvir em disco a radiante electrónica de solstÃcio que produz Takagi Masakatsu, remete logicamente para os seus coloridos visuais e vice-versa. Todavia, as facilidades que oferece a era multimédia rendem a inclusão de ambos os primas artÃsticos num mesmo objecto e Masakatsu acrescentara já um CD-Rom de vÃdeos para Quicktime ao seu debute Pia, quando, em 2001, o formato DVD ainda não era a moeda-de-troca complementar que é hoje.
Sabe-se porém que a melhor forma de contrariar a banalização do DVD passa pelos critérios de selecção do seu conteúdo. Embora funcione como um velhinho VHS (sem menus ou extras de qualquer espécie), a reedição de World is so Beatiful, originalmente lançado pela nipónica Daisy World, inclui gloriosamente fundidas as duas matrizes maiores acima descritas e indissociáveis no caso de Masakatsu. Remetendo a uma primeira fase embrionária (2002-2003), o diário estilizado da viagem global efectuada pelo autor de Journal for People aparenta as qualidades próprias de um permanente brainstorm que sucede a despertar resplandecente. E que melhor meio para exercitar essa vocação que não rodeado por miúdos? Pois, os putos estão por toda a parte nos vÃdeos que compõem em World is so Beautiful: protagonizam o primeiro plano das sobreposições translúcidas, correm em nome da esperança num panorâmico “Run on the Planetâ€, filmado em modo de visão térmica (tipo Predador), servem perfeitamente aos apanhados cândidos que efectua Masakatsu em registo de quem documenta a alegria infantil como na tentativa de perpetuá-la.
A puerilidade e o seu entusiasmo incondicional são de tal forma omnipresentes que transbordam - através do alastrar da cor - os contornos aos rostos dos corpos em movimento. Em “South Beachâ€, doseado a partir de um momento filmado em Cuba, os sóis reflectidos no mar desenvolvem um natural equilÃbrio no espaço partilhado com as silhuetas escuras dos miúdos que aguardam a sua vez de mergulhar numa rocha. Fiel a essa sensibilidade harmoniosa, a naturalidade aplica-se também à música de Masakatsu, onde é muito mais graciosa que propriamente hostil a negociação de território entre o piano e a electrónica cornucópica. Fossem esses pretextos insuficientes para tornar recomendável World is so Beautiful, acrescentariam-se sem demora outros dois de enorme peso: uma primeira versão bem rudimentar da majestosa balada “One by one by one†(que, na sua refinada forma de diamante, integra o EP Air’s Note) e um tocante exercÃcio, de nome “Sorina Streetâ€, em que Masakatsu efectua a compensação humana de que carece uma criança ignorada enquanto toca acordeão nas ruas de Istambul. Fá-lo povoando de coloridas figuras animadas a repetitiva vida a preto-e-branco que leva a tal miúda. Nesse, tal como em outros momentos, World is so Beatiful é abertamente lamechas, mas validamente lamechas por via da arte.