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Rip It Up and Start Again Simon Reynolds

2005
Faber and Faber
608 pág.

"Rip it up and start again", cantava Edwyn Collins em Fevereiro de 1983 por cima duma batida moderna (para a altura), em "Rip it Up", single da sua banda Orange Juice. Simon Reynolds teve em 2001 a ideia de pegar nessa frase para escrever um livro sobre o p√≥s-punk, aquela altura esquisita, que Reynolds situa entre '78 e '84 depois do punk, quando as possibilidades eram infinitas. O resultado √© Rip it Up and Start Again, um portentoso monumento √† m√ļsica, √†quilo que a m√ļsica pode fazer, partindo do pressuposto que a m√ļsica pode mudar o mundo.

Ao contr√°rio do que acontece noutros escritos de Simon Reynolds, e at√© √†queles do seu blog, Bliss Blog, onde Reynolds surge verborreico, Rip it Up and Start Again √© uma leitura f√°cil e cativante. Nota-se que Simon Reynolds, o quarent√£o com ar de puto que vemos na contracapa, barba feita, √≥culos de massa, ama realmente a m√ļsica sobre a qual escreve, que por detr√°s de todo o trabalho de pesquisa (e h√° muito), de todas as entrevistas, h√° o prazer da audi√ß√£o e da partilha de toda aquela m√ļsica que transparece na sua escrita e nos agarra, querendo continuar a ler. O livro est√° dividido em duas partes, a parte dedicada ao p√≥s-punk e a parte dedicada √† nova pop, tal como imaginada por Paul Morley, ex-escriba do NME, e uma das figuras omnipresentes ao longo do livro que nos √ļltimos cap√≠tulos se torna o foco da pena de Reynolds como mastermind da editora ZTT do produtor Trevor Horn. Cada parte tem v√°rios cap√≠tulos, divididos por editoras, por g√©neros musicais, por pessoas, por locais ou por datas.

Temos os suced√Ęneos directos do punk, como os Public Image Ltd. de John Lydon, os porta-estandarte de todo o movimento do p√≥s-punk (se √© que se pode chamar-lhe movimento), temos os projectos de Howard Devoto dos Buzzcocks, de Vic Godard dos Subway Sect, tudo aquilo que os ex-punks fizeram para, basicamente, "rip it up and start again". Vemos tamb√©m como Malcolm McLaren, outra das figuras omnipresentes, se espalhou por v√°rios e v√°rios projectos depois de n√£o conseguir tudo aquilo que queria fazer com os Sex Pistols. √Č uma das figuras que, n√£o contribuindo directamente para a m√ļsica, fez muito por ela. G√©nio ou louco (ou os dois), tentava controlar os seus artistas, explorando tabus como a pedofilia e um judeu sem ritmo que acaba a fazer hip-hop ("Buffalo Gals", o seu grande √™xito, perfeito para breakdancers). Em termos de figuras que influenciaram a m√ļsica mas n√£o a fizeram, o livro √© abundante, aparecendo, entre muitas outras menos medi√°ticas, nomes como Geoff Travis (da Rough Trade, primeiro loja e depois editora/distribuidora), Tony Wilson (da Factory) ou John Peel (o m√≠tico DJ da BBC).

Todo o livro parte do pressuposto que o punk foi mais uma revolu√ß√£o ideol√≥gica do que musical. A m√ļsica, em si, nada tinha de inovadora, apenas parecia refrescante, mas era na verdade muito conservadora. O p√≥s-punk √©, ent√£o, o per√≠odo abundante em √≥ptima m√ļsica em que todas aquelas influ√™ncias que foram rejeitadas, nomeadamente o rock progressivo, s√£o abra√ßadas, bem como o reggae, o funk e outros ritmos negros, o krautrock e numerosos outros estilos. Keith Levene, guitarrista dos Public Image Ltd., dizia que muitos dos guitarristas punk faziam por n√£o saber tocar e na realidade tocavam muito melhor do que aparentavam. √Č aqui que entra a perda dos preconceitos todos, bem como a abertura de muitas portas e formas de pensamento. A frase que mais bem caracteriza o p√≥s-punk √© aquela que surge na contracapa, uma cita√ß√£o de Allen Revensine dos Pere Ubu: "Os Sex Pistols diziam que n√£o havia futuro, mas h√° um futuro e estamos a tentar constru√≠-lo." (adaptada para portugu√™s). A lista de nomes focados √© extens√≠ssima, bem como os temas que s√£o focados, mas h√° uma altura no livro em que o p√≥s-punk abre as portas √† nova pop, aquela que, tendo as suas origens na Esc√≥cia, acabou por tornar-se naquilo a que normalmente associamos os anos 80: m√ļsica sobreproduzida e sem sumo, muita parra e pouca uva. Mas, antes disso, houve in√ļmeros pensadores, como Green Gartside dos Scritti Politti, que imaginaram tudo isto. Mas, tal como tudo o que √© bom, esta abund√Ęncia tem de acabar. Simon Reynolds escolhe 1984 como o derradeiro ano para o p√≥s-punk. Depois disso, as bandas foram perdendo a sua for√ßa, o seu vigor, ou tornaram-se conservadoras (uma das figuras centrais do p√≥s-punk, John Lydon, nos anos 90 rejuvenesceu os seus Sex Pistols e no novo mil√©nio tornou-se estrela de um reality show, contra todos os seus ideais de p√≥s-juventude) e pouco relevantes. Mas os discos perduram, e Rip it Up and Start Again fala de todos os mais importantes.

O p√≥s-punk torna-se novamente importante com a onda revivalista do novo mil√©nio. N√£o s√≥ bandas como Franz Ferdinand (guitarras angulares dos Josef K), Interpol (ambi√™ncia negativista dos Joy Division) ou, em exemplos deste ano, Max√Įmo Park v√£o beber ao p√≥s-punk, algumas com bons resultados, outras com maus, algumas c√≥pias, outras n√£o t√£o copionas assim, tamb√©m a vaga de bandas noise e afins baseiam muita da sua m√ļsica nas pesquisas de frequ√™ncias sonoras dos Throbbing Gristle do in√≠cio ou os seus devaneios de percuss√£o nos This Heat. E outros nomes, como LCD Soundsystem, !!!, The Rapture, percebem a import√Ęncia do cowbell e geram-se atrav√©s do punkfunk nova-iorquino e, no caso dos LCD Soundsystem, de toda a cultura brit√Ęnica da m√ļsica de dan√ßa que veio ap√≥s o p√≥s-punk.

Rip it Up and Start Again foi o nosso C√≥digo Da Vinci deste Ver√£o, depois de o termos "perdido" na praia e voltado a encontrar, entre milhares de aventuras, conseguimos finalmente acab√°-lo com o livro intacto. Rip it Up and Start Again √© um livro extenso, que n√£o tinha inten√ß√Ķes de ser o livro definitivo sobre o p√≥s-punk (muito dele est√° escrito na primeira pessoa, e a meio Simon Reynolds at√© come√ßa a falar sobre a sua mulher, Joy Press, tamb√©m ela escriba), mas acaba por ser. Com tantos e tantos livros sobre o punk, √© bom agora algu√©m lembrar-se de escrever um realmente bom sobre o p√≥s-punk. E este consegue ser uma √≥ptima fonte de conhecimento, sem ser chato nem aborrecido, sendo um livro escrito por algu√©m que ama a m√ļsica, percebe a sua fun√ß√£o e o seu espa√ßo na vida das pessoas, e conhece aquilo que a m√ļsica pode fazer. E ainda por cima o livro pode ser encontrado na AnAnAnA.


Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
10/09/2005