Hugo Antunes
Memória sonora
· 06 Dez 2013 · 16:59 ·
© Nuno Martins
“O que exploro e desenvolvo no contrabaixo relaciona-se sem dúvida com uma memória sonora que fui recolhendo até hoje”. Podia perfeitamente não ter sido músico, mas é e ainda bem! Uma autêntica fonte de saber, virtuosismo e criatividade, Hugo Antunes é um dos músicos de quem se fala e não é para menos. O Bodyspace conversou com o contrabaixista que nos falou da sua vida, do seu percurso musical e da forma de estar na música.
Fala-nos um pouco sobre de ti: quem és, como apareceu a música na tua vida, os estudos musicais e a opção pelo contrabaixo.

Nasci e cresci no Barreiro, cidade então industrial. Recordo que no regresso a casa depois dum dia de aulas, o autocarro passava rente às fábricas e eu cerrava os olhos construindo todo um imaginário luminoso, um mundo paralelo, industrial onírico que (talvez) agora (que penso nisso) revisito quando toco, ilustrando-o e talvez tentando reproduzi-lo no contrabaixo. O que exploro e desenvolvo no contrabaixo relaciona-se sem dúvida com uma memória sonora que fui recolhendo até hoje. Desde que me assumi como improvisador que trabalho no sentido de tocar somente o que ouço respeitando e aceitando os colegas envolvidos, o momento e o espaço. Deste processo resultam dias mais interessantes, musicalmente falando, que outros pois tenho dias em que ouço "tudo" e me mantenho conectado e tenho outros em que menos. Aprendi a viver com esta condição e a aceitá-la também. Sem dúvida que o simples facto de diariamente me confrontar com isto me faz evoluir como músico. Faz tudo parte de um processo e sei que, quanto mais profundo mergulhar em mim, quanto mais actuar e partilhar experiências com outros artistas, quanto mais expor a minha rotina, mais sólido daí sairei. Procuro lucidez na entrega. O sangue na guelra sei que o tenho, cedo me foi diagnosticado, há que então acrescentar-lhe uns genes alemães para me manter focado e acrescentar algum sentido crítico. Sinto que hoje em dia as minhas opções musicais são mais coerentes. Talvez seja mais livre... em dúvida que a liberdade de escolha é um objectivo... poder ouvir tudo ao ponto de me manter totalmente no momento musical tendo a possibilidade de escolher o que tocar é algo que persigo. Quem sou? Creio que o saberei responder no fim de tudo... depois de, conectados todos os pontos, tudo fará (algum) sentido, espero... então aí a pergunta será: o que foste?... e a isso não consigo responder agora... sei no entanto que certamente até lá viverei assolado pela dúvida constante de que se o que desenvolvo terá valor artístico... temo que só o tempo o possa responder... porém quero deixar o melhor de mim, algo que as minhas filhas possam recordar com orgulho, algo que possam guardar na prateleira da sua memória como "o que o seu pai fazia quando se ausentava em trabalho". A música esteve sempre presente na minha vida. Desde que tenho memória de mim que me lembro de em casa se ouvirem LPs, da Rita Lee e Carlos do Carmo trazidos à calha pela minha mãe, Pink Floyd, Led Zeppelin e Black Sabbath pela mão do meu pai e do meu tio. Eu e a minha irmã mais velha um dia recebemos como prenda no Dia Internacional da Criança um cheque-brinde que fomos imediatamente trocar pelo que seria o "nosso" primeiro vinil, Piece of Mind dos Iron Maiden! O meu avô materno tocava trombone de vara numa orquestra de swing, mas não é daí que vem o meu contacto com o jazz, pelo menos não conscientemente. A minha atribulada adolescência expôs-me a muita música, tardes passadas numa discoteca dum amigo a ouvir de tudo e noites de Sábado a "ouver" o programa de jazz do José Duarte. Após uma breve passagem por um curso de Direito inacabado e uma experiência profissional de 12 anos como técnico de óptica ocular, decidi inscrever-me numa escola de música. A razão desconheço-a... tinha-me apaixonado pela dissonância e talvez quisesse decifrar tudo aquilo que ouvia. Tinha então 26 anos e apesar de já saber o que queria, "já homem feito", despedi-me do meu emprego com grande amargura para o meu tio, minha rede de protecção neste mundo, grande amigo e sempre uma figura de referência. Comecei então pelo baixo eléctrico na Escola de Jazz Luis Villas-Boas (do Hot Clube de Portugal) mas passados seis meses mudei para o contrabaixo persuadido pelo então presidente do clube, Bernardo Moreira (o “Binau”), que me confrontou perguntando se o que eu ouvia nos discos era um electrodoméstico ou um instrumento acústico... audaz. Passados dois anos saí da escola e "fechei-me" em casa a "descascar" discos, a tocar por cima deles tentando viajar no tempo encarnando naquelas personagens, assimilando o legado dos inovadores dos anos 60 e 70. Já apaixonado pelo contrabaixo atravessei a Europa a conduzir para reencontrar amigos e tocar. Eis que chego a Amesterdão precisamente um dia antes das audições para ingresso no conservatório. Sem inscrição e sem passar pela pré-selecção fui aceite como aluno, vindo a ter aulas com o professor que contra tudo e contra todos fez questão de assumir a responsabilidade de me aceitar nessas condições, sem ter passado pelo processo de pré-selecção. Curiosamente foi esse mesmo professor que mais tarde me fez ver que provavelmente estaria na escola errada ou simplesmente não seria o mais escolástico dos contrabaixistas quando me disse que "teríamos de matar a besta dentro de mim". Ora como eu não tinha abandonado uma promissora carreira de oculista para trabalhar numa "salsicharia" onde todos deveriam ser iguais decidi voltar a Portugal e passar mais algum tempo de qualidade com os meus avós que não ficavam mais novos. À decisão pesou também o facto de o dinheiro não abundar, afinal de contas já tinham passado três anos desde o meu último ordenado. Continuei mesmo assim a estudar tendo chegado a pedir aulas particulares a contrabaixistas que admirava e que acreditava poderem acrescentar algo de substancial ao meu desempenho. Continuei a viajar, fiz um curso de verão em Itália e conheci França a partir de Paris, mas esse grupo deixou de existir e voltei de novo a Portugal onde gravei alguns discos como sideman. Mais tarde e depois de leccionar na escola de artes de Sines fui bolseiro Inov-art e vim para Bruxelas onde resido actualmente.

Como é a cena jazz e da música improvisada em Bruxelas e na Bélgica em geral? É para ti uma vantagem viver no centro da Europa?

Bruxelas é uma cidade que, apesar de ao longe poder parecer cinzenta e desinteressante, respira muita música proveniente de vários quadrantes. Há toda uma conjuntura que o proporciona, onde não excluo o facto de ser "a" capital europeia que acolhe as instituições e todos os seus funcionários, expatriados, que, pelo seu elevado poder de compra, alimentam o comércio local onde se incluem os clubes e outros locais de concerto. Já dizia Baudelaire que os artistas para subsistir deveriam gravitar num meio que consumisse o seu produto. A própria História desta zona, a antiga Flandres, deixou um vasto legado cultural algo que ficou encardido nas genes dos belgas que aliado ao turismo traduz-se em público nos concertos. Outra das razões pelas quais os músicos aqui se vão fixando é o chamado "estatuto de artista" que, muito simplificando, consiste num subsídio de desemprego mensal pago pelo estado aos artistas no activo que justifiquem que continuam a trabalhar e que auferiram num determinado período de tempo um certo valor monetário. Aqui, como em todo o lado com talvez excepção de Berlim, há mais jazz propriamente dito que improvisação, mas há muitos improvisadores cá a viver e até mesmo os músicos de jazz têm interesse pela improvisação livre. No conservatório há inclusive a possibilidade dos estudantes frequentarem uma cadeira de improvisação livre o que ilustra bem o interesse e reconhecimento institucional pela improvisação como forma de arte. A Bélgica é um dos poucos estados sociais na Europa onde ainda se observa algum investimento no sector artístico que consequentemente se reflecte num retorno monetário mas também cultural o que é muito positivo. Claro que os maiores recursos são canalizados para o jazz e projectos nacionais, meio ao qual não pertenço. Nunca gostei de "meios". Os "meios" conduzem a "fins". Prefiro os "princípios". Os "meios" atropelam os "princípios" para atingir "fins". Bruxelas, geoestrategicamente falando, é central o que me facilita a carreira em termos de mobilidade mas para além disso acolhe nos seus muitos clubes e festivais artistas internacionais. A Europa está em transformação, há um novo mito que dá pelo nome de austeridade e que camufla a finança que fez de refém a sociedade civil dificultando ainda mais a já árdua tarefa do músico. Pior, a cultura não é um pilar desta Europa dos 29 o que me deixa muito apreensivo quanto ao presente.



És claramente um músico com uma carreira em ascensão e prova disso são os projectos em que te encontras envolvido. Descreve-me todos e cada um deles.

Apesar de trabalhar maioritariamente como freelancer há alguns projectos em que regularmente participo seja pela admiração artística e pelo prazer de tocar com os músicos envolvidos, seja pelo resultado final do projecto, ou pela música em si, donde destaco: Malus - Improvisação livre com possibilidade de recurso a amplificadores. Nate Wooley, eu e Chris Corsano. Disco a sair em 2014 pela No Business Records; Scott Field’s Freetet - música extremamente angular e complexa totalmente escrita pelo Scott, um verdadeiro desafio. Como o próprio define "é como os Ramones mas nunca em 4/4". O grupo neste momento é composto pelo Scott, pelo Peter Van Humpfell, por mim e pelo João Lobo; i h8 camera - grupo que explora a improvisação livre com uma orientação mais rock onde alinham no seu núcleo dissidentes dos DEUS e colegas provenientes dessa mesma cena alternativa e indie. Este projecto tem a particularidade de convidar para cada concerto músicos que não pertençam ao grupo como o foi exemplo neste ultimo o Stef Kamil Carlens dos Zita Swan. i h8 camera é composto por: Rudy Trouvé, Teuk Henri, Jeroens Stevens, Elko Blijweert e eu; Sun7 - Grupo reunido pelo trombonista holandês Joost Buis que acolhe várias gerações da improvisação livre e do free jazz europeu. Explora música composta por Sun Ra e originais do Joost com a mesma direcção. Nesta banda participam o Joost Buis, André Goodbeek, Tobias Delius, Jean-Paul Estievenart, Oscar Jan Hoogland, eu e o Paul Lovens; Mount Meru - Música muito original entre a canção e a improvisação composta por um casal belga com raízes na cultura flamenga mas cantado em francês. Neste grupo participam alguns dos músicos mais novos e mais interessantes aqui estabelecidos. Todos eles especiais cada um no seu género: Sanne Huysmans, Niels Van Heertum, Seppe Gebruers, Benjamin Sauzereau, eu e Lander Gyselinck; Cornettada - Trio de piano que explora harmelódicamente a música de Ornette Coleman que reúne Giovanni di Domenico, eu e João Lobo; Embracing Frankie - Crooner, chanson française, pop, dance, rock, tudo combinado num grupo onde me desdobro no baixo eléctrico. Música composta pelo Franki, gravada nos antigos estúdios dos ABBA que será lançada num álbum em 2014.

O teu álbum de estreia como líder, Roll Call, editado pela Clean Feed em 2010, foi aclamado pela critica especializada. No entanto, tem uma formação algo incomum, dois saxofones, duas baterias e um contrabaixo, que funciona como o eixo de tudo o que se está a acontecer. Explica-me o porquê desta instrumentação...

Quando gravei Roll Call terminava o meu estágio Inov-art que de certa forma me tinha proporcionado o contacto com os músicos que acabaria por convidar para o projecto. Até então esta formação nunca tinha tocado junta e eu para além de líder era o denominador comum entre eles. Tudo isto fazia parte do plano inicial, queria um ensemble fresco mas de alguma forma conseguia ter uma ideia da sonoridade do quinteto. Fiz questão de não partilhar antecipadamente o material que iríamos trabalhar na sessão em estúdio para colocar os intervenientes fora da sua zona de conforto. A escolha da instrumentação que, referes e bem, me colocaria no eixo de dois trios, servia não só o que estava descrito nos esquissos que elaborei delineando o que gostaria de abordar na sessão como também nos afastavam da bipolaridade óbvia inerente à formação. Essas direcções somente lhes foram entregues in loco no dia da gravação às quais o Marek apelidou de “modern poems”. Idealizei uma plataforma de debate de ideias onde todos os intervenientes se pudessem expressar livremente como se duma praça pública na antiga Grécia se tratasse. A faixa que o ilustra bem deu o nome ao disco. No estúdio coloquei-nos todos juntos na mesma sala de captação e em circulo facilitando a passagem de tempo de antena no debate de ideias e delineando já como seria misturado: os dois trios saindo em canais separados com o contrabaixo a meio. É um disco específico, quase conceptual, onde explorei fórmulas de improvisação criadas especificamente para este tipo de formação e que hoje em dia utilizo em workshops que dou. Faz parte duma transição que me pareceu natural vindo eu do jazz e isso explica a orientação free-jazz que transparece. Foi tudo captado com microfones dos anos sessenta o que de certa forma também condicionou o resultado final da então minha primeira mistura.

Num registo mais roqueiro, editaste com o Velkro Trio, dos nórdicos Stephan Meidell, Bostjan Simon e do baterista Luís Candeias, “The Future of the Past”. Fala-me sobre esta colaboração.

Velkro é um grupo que surge quando estudava em Amesterdão que então dava pelo nome de Fundbureu. A sua música é muito progressista e orientada para o rock (o meu conceito rock é muito vasto) mas com um teor folk norueguês o que de certa forma se revelou muito diferente de tudo o que fiz até hoje. Para além de ser um excelente guitarrista o Stephan Meidell é um compositor muito interessante com quem o Luís Candeias (baterista) sempre encaixou muito bem. Após a nossa saída da Holanda a manutenção do grupo tornou-se mais complicada, não obstante montamos várias tournées onde em todas elas conseguimos ficar a perder dinheiro algo que para mim, pai de família, se tornou incomportável. É muito difícil manter coeso um grupo que está a surgir quando os seus membros vivem em quatro países diferentes. Há pouco tempo fiz um solo na Louie Louie, no Porto, e passaram o disco na íntegra, deixando-me saudosista porque sempre achei que os Velkro tinham algo de único.

Entretanto, em 2013 editaste Posh Scorsh com Nate Wooley, Daniele Matini, Giovanni Domenico e Chris Corsano. Que podemos esperar deste projecto, foi o embrião para o nascimento do MALUS?

Esse disco resulta da gravação dum concerto com uma formação ad hoc criada para o evento. Muito embora tenha coincidido com uma altura em que Malus estava em tournée, nada tem a ver com este projecto. O que aconteceu foi que a editora Orre estava a assistir ao concerto e, por ter gostado muito, propôs-nos uma edição desse registo.

E vem a caminho um novo trabalho…

Malus lançará o seu álbum de estreia em 2014 pela No Business Records. É um registo sonoro de alguns dos inúmeros locais musicais que o trio pode explorar, género cartão-de-visita. Passámos duas manhãs em gravações na sala de concertos da editora belga DeWerf, que não só nos cedeu o espaço e a imprescindível força humana como todo o backline e meios técnicos necessários. Reunimos quatro horas de gravação de onde escolhemos uma amostra de sensivelmente 45 minutos de material que de certa forma poderá representar o que o grupo desenvolve. O álbum começa acústico, passa por amplificadores (todos usamos) e tem alguns duos. Estamos contentes pelo resultado final, mas acima de tudo por este disco representar um marco na existência de Malus.

Como nasceu o projecto MALUS?

Malus surge no seguimento duma relação musical que mantenho com o Nate há uns anos. Como já referi, acredito em relações profissionais a longo prazo. Quando nos cruzamos pela primeira vez há uns anos tocamos em trio com outro baterista e desde logo sentimos afinidade e falámos em gravar. Pensámos em montar uma tournée para o efeito e começámos a propor um ao outro bateristas que poderiam encaixar. Queria incorporar no trio a possibilidade de recurso a amplificadores condição que à partida excluía o baterista que já tinha tocado connosco e lançava para a mesa o Chris Corsano, com quem eu já ambicionava trabalhar. Comentei-o com o Nate, ele adorou a ideia e convidou o Chris que aceitou de imediato. A ideia então foi a de montarmos uma tournée onde improvisaríamos com recurso a amplificadores sempre que possível mas não forçosamente. Em palco tínhamos dois amplificadores de baixo, um para mim, outro para o Corsano e o Nate, como no seu solo, um amplificador de guitarra. Aconteceu que um dos concertos foi totalmente acústico e que noutro um dos sets foi totalmente amplificado, com os instrumentos preparados, o que demonstra quão inesperado o grupo poderá ser. Malus em principio estará em tournée no próximo ano de 2014 e confesso que gostaria muito de voltar a Portugal!

Que importância e que destaque dás a estas colaborações?

Quando te apercebes da solidão e do isolamento a que o teu trabalho te remete, sentes-te por tua conta e risco. Então o mais pequeno gesto poderá ganhar proporções enormes que se quiseres poderá representar tudo para ti. O contacto que tenho com artistas como o Paul Lovens é muito importante no sentido que me servem de barómetro e de astrolábio, situam-me, dizem-me se estarei no caminho certo. Não obstante o Paul tornou-se um amigo na música, um dos bateristas que mais admiro e com quem adoro trabalhar. Descrever por extenso no que isto se traduz é algo totalmente fora do meu alcance porque o que recebo em cada encontro nosso é muito intenso e único... espero conseguir retribuir pelo menos metade daquilo que recebo... já seria muito! Estamos conectados e como ele próprio diz "nós resultamos". Sinto muito carinho pelo Paul e penso muito nele, constantemente. É uma pessoa muito especial. Quando recebi o telefonema do agente convidando-me para o projecto Sun7 uma das primeiras coisas que me disse foi que o Paul Lovens fazia parte da equipa, gelei. Com o aproximar da data gradualmente o sono foi desaparecendo. No primeiro dia de trabalho com grupo cheguei cedo, fomo-nos concentrando à entrada da sala de ensaio trocando galhardetes, íamos chegando aos poucos, uns conhecia pessoalmente outros não, eis que chega o Lovens e como que adivinhando a minha ansiedade foi direito a mim e apresentou-se: "Hi Hugo, I’m Paul." Aquele gesto acompanhado daquele sorriso deixou-me totalmente descontraído. Musicalmente falando todas estas experiências são muito enriquecedoras, profundas, muito especiais e não só me servem de fio-de-prumo como me massajam o pobre ego que de tão amarrotado tanto me destrói a autoconfiança. Músicos com um grande dorso conseguem levar-me a locais no meu íntimo que por mim só talvez não chegaria e muitas vezes alinham-me no caminho certo.



Além do jazz e da música improvisada, sei que também estás envolvido noutras músicas, mais concretamente em projectos de música e performance e de dança improvisada. De que estamos a falar?

A dança e a música sempre andaram de mãos dadas independentemente da orientação musical. Gosto de improvisar com bailarinos que improvisem também. Este interesse levou-me a participar nalgumas performances com a Ana Borges, com o Luís Marrafa e num projecto transversal com sapateado, canto lírico, poesia e música com o nome de “VOUS”.

E participaste no álbum Música para uma performance da Olga Roriz…

Quando leccionava em Sines gravei música para uma peça da Olga Roriz mas sinceramente não me recordo qual, onde, nem quando aconteceu.

De regresso à música improvisada, quero que me recordes o grande concerto que deste com o Carlos “Zíngaro” e com o Miguel Mira. O Nuno Catarino fez-te um convite...

O concerto na APAV representa para mim a solidificação duma amizade musical com o Zíngaro e com o Mira. São músicos com quem quero continuar a trabalhar enquadram-se no que descrevi como relações de longa duração. Gosto muito desta formação, liberta-me, muito graças ao Miguel que pensa e toca como um contrabaixista. Dessa liberdade resulta menos pressão e traz ao de cima o que de mais extremo desenvolvo. Gosto de música caseira, não tenho um carinho especial por world music, nem por música com conotações geográficas. Não sei se gosto de correntes artísticas mas sei que o mim ismo é estéril. O Carlos Zíngaro e o Miguel Mira são artistas são músicos nos quais reconheço personalidade, voz própria. Fico sempre com borboletas na barriga antes dos nossos concertos e fiquei muito feliz com o resultado deste último concerto pelas razões que já descrevi mas acima de tudo pelo que tocámos, por tudo o que musicalmente aconteceu naquele momento.

E porquê aqueles músicos, vocês já tinham tocado antes, certo?

Como tenho vindo a insistir há pessoas, artistas, com quem me cruzo que quero continuar trabalhar sei que essa continuação resulta em bons concertos e traz ao de cima o melhor que há em mim. Tenho esperança que no fim de tudo isto todos nós seremos aqueles pontinhos que quando unidos darão o tal sentido ao todo. Como duma tela se tratasse. Se olharmos muito de perto poderá não passar dum borrão mas à medida que nos formos afastando seguramente que irá tomando forma. Muitas vezes forço o primeiro encontro e foi nesse sentido que contactei o Zíngaro, uma primeira vez para tocarmos em quinteto (“Ode a William Burgess”) e uma segunda para um ciclo de dois concertos que propus aos Magalhães nas “Magasessions”. O Mira já conhecia e havia uma afinidade resultante do trabalho que fizemos juntos como parte do ensemble de cordas no X-Jazz, criado pelo JACC e conduzido pelo Evan Parker. Nas “Magasessions” a ideia foi a de fazermos um solo cada e depois tocarmos em duo. Assim aconteceu mas no segundo dia tocámos em trio também abrindo desta forma a janela de oportunidade para o convite lançado pelo Nuno Catarino para o concerto na APAV.

A forma como abordaste o contrabaixo, tocando-o de uma forma improvável, com recursos recordou-me muito Barry Guy. Qual é o teu conceito de improvisação?

O Barry Guy é uma grande referência para mim e para qualquer contrabaixista, mas não o único. Em todos os contrabaixistas consigo descobrir algo que me prende, até mesmo nos estudantes que cá vêm a casa ter aulas particulares. Acho que isto faz de mim um entusiasta. De momento não ouço música de todo, nem em casa nem no carro. Condiciona-me. Noutro dia o John Edwards deu-me o seu disco a solo e por respeito ouvi-o...voltei a ouvi-lo e escondi-o para nunca mais o encontrar. Respeito muito tudo o que os meus colegas fazem mas quero evitar ao máximo derrame tóxico no que faço. Adoro duos de contrabaixo! Noutro dia cruzei-me com um belga o Peter Jacqmyn. Gostei de tocar com ele mas não tanto do set que tocou anteriormente... ouvi demasiado Kowald nele, foi quase confrangedor. Gostei do nosso duo, ele tem muita energia e comigo de certa forma tocou diferente. Também gostou de tocar comigo e ficou admirado por não me conhecer... "claramente não sou bom em marketing", respondi. Trabalho arduamente o meu instrumento, passo os meus dias em casa a improvisar livremente como se tivesse público a assistir. Acredito que só assim conseguirei trabalhar em profundidade e ao mais alto nível de concentração. Por vezes interrompo-me, volto atrás e desconstruo algo que acabei de descobrir. Faço-o trabalhando os mecanismos técnicos que tornarão possível a sua execução sempre que o ouça. Pratico também transições de arco para pizzicato, de contrabaixo preparado para arco ou pizzicato, simulando momentos musicais. Também me forço a tocar algo que contrarie a minha condição naquele momento específico. Se tocasse todos os dias ao vivo tenho a certeza que não trabalharia tanto neste sentido em casa mas não sendo este o caso tenho de me manter em forma para que a rotina me saia naturalmente, espontaneamente sem barreiras. Em suma, tento improvisar em casa como o faço ao vivo transpondo o que em tempos me foi transmitido por um mestre de full-contact: praticar como se combate e não combater como se pratica. Quando falo em rotina refiro-me ao trabalho efectuado no sentido de solidificar algo que se descobre. Este fenómeno nunca nos deverá cegar quando ao desconhecido nos dirigimos pois o desconhecido é um grande companheiro da improvisação, tão fulcral e necessário para que a música aconteça que sem ele esta perderia frescura, interesse, tornar-se-ia estéril, em não arte.

E sobre as tuas influências musicais?

Sou um pouco competitivo portanto quando vejo um concerto dum contrabaixista interessante sirvo-me disso como motivação para trabalhar. Não que me sinta influenciado pelo instrumentista em si mas sim impulsionado pelo seu valor. Como sou caseiro vejo muitos concertos online. O Youtube é uma coisa fantástica, vou do Japão a Chicago num clique, para o bem ou para o mal e com tudo o que isso representa. Concentro toda a minha energia no instrumento e confesso que dou por mim muitas vezes a “ouver” vídeos de formações sem contrabaixo, acho-as muito inspiradoras. Não trabalho no sentido de alargar a minha rede profissional. Acredito que se baixar a cabeça e continuar em frente e com a mesma intensidade, mais tarde ou mais cedo chegarei mais longe e a mais ouvintes. Há quem escolha o caminho mais curto mas pergunto-me se chegará tão longe...

Para terminar, como vês a actual cena jazz nacional?

Sinceramente não sigo muito de perto o que se faz em Portugal. Apercebo-me que cada vez há mais músicos a surgir, outros que já surgiram, identifico alguns nichos, alguns centros gravíticos... mas só têm contacto com tudo isto quando lá vou tocar. Parece-me sim que a qualidade técnica média dos instrumentistas é cada vez mais elevada. Por exemplo, e puxando a brasa à minha sardinha, sinto que cada vez há mais contrabaixistas, o que não só é saudável em termos de evolução pela concorrência como faz com que cada vez sejam necessários mais e melhores instrumentos no país. Ganham os luthiers e forçosamente tornar-se-ão melhores, os concertos serão mais interessantes, o público sairá mais satisfeito, toda a gente ganhará com isto. A sociedade civil já se apercebeu deste fenómeno organizando-se, criando escolas, clubes, associações, infra-estruturas necessárias para um arranque mas o trabalho de fundo que verdadeiramente criaria público, tão imprescindível para o desenvolvimento do sector, ainda está por acontecer. Quanto ao valor do que se faz em Portugal será ditado pelo que ficar para a posterioridade, creio. A memória é a cultura dum povo. Se o que criarmos for estéril nunca será um legado pois o autentico será sempre mais resistente à erosão do tempo. Mas pouco sei sobre esta matéria. Nem sei como lá chegar... ou se lá existe. Ouço muito no mundo do jazz falar-se em honestidade. Nada contra quando o assunto são valores, agora não me parece tão pertinente como autenticidade nesta matéria em concreto. Como já referi o mim ismo é uma etapa no processo de crescimento nunca um fim, muito menos uma corrente artística pelo que se me perguntarem qual o caminho para o lá eu responderei que poderá passar por aí mas o lá ficará muito mais à frente. No que diz respeito à arte não creio que haja métodos absolutos mas sei que não se chega lá "dizendo aquilo que pensamos que os outros querem ouvir".
Pedro Tavares