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Milton Gulli
Maningue nice Milton, maningue nice


Não há acácias onde nos resguardarmos de uma pandemia que nos obriga à distância dos abraços, dos beijos, enfim, do toque e presença do outro na sua total plenitude. Tudo é sol abrasador que, onde toca, tudo queima. Dizemos tudo, mas não seriamos verdadeiros se, com este pronome indefinido, insistíssemos em catalogar a verdadeira dimensão da natureza humana que, ainda que por força maior, viva aprisionada. Esta dimensão ganha força e cor quando nos guiamos em direcção ao hemisfério sul, onde na mágica Maputo encontramos quem, por vontade e necessidade, ou necessidade da vontade, fez a viagem de Lisboa até à capital de Moçambique para, durante nove anos, tentar tirar do opróbrio a música moçambicana. Sem ilusões e com pele bem forte para amparar os golpes que África pode infligir nos mais impreparados, Milton Gulli, músico dos pés à cabeça, deixou para trás, mas não definitivamente, projectos como Cacique’97 ou The Grasspoppers para fazer nascer, entre outras coisas, a Kongoloti Records, editora que se dedica à cartografia, e amplificação, da cena musical moçambicana. Desta e de outras pérolas nascidas nas cálidas águas do Índico se faz esta conversa com que vos deixamos. Kanimambo Milton.
Para começar, porque é que deixaste Lisboa e foste para Moçambique?

Eu vim a Moçambique pela primeira vez em 2006, com a minha família e fiquei fascinado. Foi toda uma descoberta das minhas origens, cheiros, sabores. Os meus pais já não vinham há quase 30 anos. Em 2011, na altura da crise económica na Europa, mudei-me. Era algo que já estava a preparar há algum tempo e já estava a precisar de mudar um pouco de ares.

Que sociedade e cena artística/musical encontraste?

Em 2006 conheci logo alguma malta da música, de um circuito mais alternativo. Lembro-me da malta dos 340ml, dos Napalma, Dub Africa. Quando cheguei em 2011 comecei logo imediatamente a trabalhar com o Simba no projecto The Heroes e, pouco tempo depois, com o Azagaia, na produção do álbum Cubaliwa. Maputo é um meio pequeno, conheci quase toda a gente em muito pouco tempo. E alguma da malta já me conhecia dos outros projectos que tive em Lisboa e mostraram bastante interesse em trabalhar comigo. Posso dizer que mergulhei muito bem, e rapidamente, no meio musical Maputense.

Consegues traçar um paralelo com a cena industrial portuguesa? Em que ponto se encontra a cena musical moçambicana?

Bem, não sei se é comparável. Aqui quase não há editoras e não existe um circuito musical a nível nacional. Os artistas acabam por tocar muito na sua zona e não viajam para outras cidades dentro do país porque se torna economicamente incomportável. O país é muito grande, as viagens de avião são caras e não existe uma linha férrea que ligue as várias cidades. Os artistas acabam também por fazer muita música da "moda" não se preocupando muito em fazer algo original, salvo algumas excepções. Creio que também ainda não se pegou na música de raiz e se actualizou para a actualidade, usando-se muito ainda as mesmas fórmulas. Em Maputo há uma nova geração, entre os 18 e os 25 anos, proveniente da classe média a experimentar algumas coisas muito interessantes e a criar uma espécie de nicho alternativo. Alguns exemplos são a Tegui, o Mark Exodus, o Pizza w/Pineapples, entre outros. Por outro lado, no aspecto da produção musical as coisas estão muito próximas ao resto do mundo. A democratização dos meios de produção permitem quase a toda a gente que tenha um computador criar qualquer coisa. Há muitos produtores em estúdios caseiros e muita gente a produzir.

A Kongoloti Records surge como antídoto a essas dificuldades?

Sim. Quando cheguei senti que havia essa lacuna. Maior parte dos artistas não tinha vídeo e era muito difícil encontrar música moçambicana online. Pouco tempo depois criei a Kongoloti Records para dar mais visibilidade internacional aos artistas moçambicanos e a outros da lusofonia. Agora, passados todos estes anos, as coisas já são muito diferentes. Os artistas já se preocupam em ter uma presença online, boas fotos e press releases. Muitos artistas já vendem nas plataformas online.

Mas a Kongoloti, apesar de tudo, ainda continua a ser uma ilha ou já existem outros projectos semelhantes?

Nestes moldes não existe mais nenhuma. Existem alguns serviços locais de streaming, mas não funcionam como editora.

Em Portugal procura-se a fusão com música de Angola, Moçambique, Brasil, etc... Não te limitaste a fundir como foste viver e criar para Moçambique, em que é que isto mudou a forma de fazeres música?

Quando cheguei a Maputo fiquei muito impressionado com a qualidade técnica dos músicos que é acima da média. Isso acabou por ser um desafio para mim porque não me considero um "músico" na verdadeira definição da palavra, mas mais um curioso com algum talento. Isso obrigou-me a ir estudar mais, a praticar mais e abriu-me outros caminhos novos para criar, compor e produzir. Eu acho que sou melhor músico agora do que quando cheguei. O facto de ter logo começado a produzir outros artistas também abriu novas portas no meu processo criativo. Acho que fiquei menos disperso e muito mais focado no que tenho de fazer para atingir determinado objectivo, ao mesmo tempo lidando com os egos e o processo artístico dos músicos com quem trabalhei.

As tuas músicas parecem uma espécie de cartografia do território e dos seus habitantes…



Obrigado. Sim, a minha música é e sempre foi muito influenciada pelo meio onde vivo. É um processo natural. Moçambique é muito diferente de Portugal em termos culturais, apesar de se falar a mesma língua. Isso influencia muito na maneira de se fazer música. A vivência, os cheiros, os sons que ouvimos constantemente são muita fonte de inspiração.

E todas essas vivências resultam em Quotidiano. Queres falar um pouco mais sobre esse trabalho?

O Quotidiano já está a ser preparado há anos mas como estive sempre envolvido em outros projectos acabei sempre por deixar as minhas coisas a solo para trás. Mas no ano passado decidi começar a fechar as músicas. Fiz uma espécie de retiro de dois meses na zona da praia do Tofo, em Inhambane, onde levei um estúdio portátil. Acabei por montar o estúdio numa escola primária, que estava em período de férias, no meio do mato, perto da praia, onde também montei a minha tenda. Esse tempo afastado das outras obrigações permitiu-me começar a fechar os temas e ainda deu para compor mais três temas, além dos que já tinha. E a meio do ano passado já tinha quase tudo fechado e pronto para ser misturado.

Quando é que será editado? Entre os dois singles já conhecidos desse EP (“Puto” e “Jogador”) sai “A Muhive” com iZem e o London Afrobeat Collective. Fará parte do EP? Que colaboração foi esta?

Eu espero editar o EP em meados de Maio, se tudo correr bem e lançar ainda mais uns dois singles com vídeo.


A Muhive não fará parte do EP. Foi uma participação que fiz com o iZem para a sua recém-criada editora Elis Records. O iZem veio falar comigo há uns tempos a demonstrar interesse em trabalhar comigo. Eu já conhecia alguns trabalhos dele e gostava. Quando estive em Lisboa há um ano e meio, visitei o seu estúdio caseiro e acabámos por fazer dois temas. Um deles foi o A Muhive. Na altura tinha feito apenas uma melodia de voz mas depois trouxe a música para Maputo e acabei a letra cá e gravei.

Este Quotidiano corta com o teu quotidiano nos últimos anos. Existe uma espécie de "anulação" do Milton enquanto músico para seres o "pai" de uma série de outros músicos. Como é lidar com esta dupla vertente?

Sim, um pouco. Quando cheguei a Maputo comecei logo a ser solicitado e depois de criar a Kongoloti Records, essa missão tornou-se mais séria porque já estava a defender os meus artistas e as suas obras, para serem lançadas com a melhor qualidade possível em termos sonoros. Então estive sempre envolvido nesses processos de produção, gestão de carreira, etc. Houve alguns artistas também que descobri neste processo e ofereci-me para ajudar. Eu sentia na altura que precisávamos de mostrar a nova música moçambicana para o mundo, no matter what. Mas depois também descobri que este é um trabalho a tempo inteiro e que exige muito do nosso tempo e energia. Por isso ia trabalhando no Quotidiano nos buraquinhos dos outros trabalhos. Neste momento estou a dedicar-me mais á minha música e aos meus projectos, e apesar de continuar com a label tenho feito cada vez menos trabalhos de produção por opção própria. Mas é uma coisa que gosto de fazer, produzir. Mas não há tempo para tudo.

Dizias que muitos músicos moçambicanos preocupam-se mais em fazer música da "moda". Eles têm a percepção que, provavelmente, teriam mais a ganhar, até em exposição mediática, se explorassem os sons tradicionais e/ou os fundissem com sons mais "contemporâneos", um pouco como o género "Highlife" no Gana? Isto é, uma música mais autêntica…

Esses estilos tradicionais não têm tanta expressão popular aqui como tem a kizomba, o pandza, o afrohouse ou o afrobeats naija, principalmente nas camadas mais jovens. Como o país é maioritariamente jovem, essa é a música que acaba por ser mais consumida. Pensa-se muito no sucesso aqui dentro de casa mas não se pensa no sucesso lá fora. Eu creio que reinventar ou actualizar essas expressões tradicionais acabaria por dar mais visibilidade internacional à música moçambicana, ou então aparecer um novo ritmo que se torne viral, um pouco como aconteceu com o kuduro em Angola ou agora o Gqom na África do Sul.

É um pouco um círculo vicioso. O artista faz música à medida de uma pretensa, ou não, vontade popular. Para além disso não existirá a ideia de que não valerá a pena porque pensam que ninguém vai valorizar o que fazem? Como desconstruir essa ideia?

Têm de existir alguns corajosos que não estejam preocupados com esse sucesso fácil e imediato, mas eu creio que é uma coisa que tem de acontecer naturalmente, na hora certa e no tempo certo, com as condições certas.



Tempo que não será este. Como é que tu e a comunidade musical estão a viver esta pandemia?

Certamente. Creio que toda a comunidade artística está bastante preocupada com o futuro. Foi tudo cancelado ou adiado. Está toda a gente em casa. Não se saberá quando haverá confiança para eventos outra vez. Já há alguns artistas a fazer Lives e alguns DJ sets também. Mas a longo prazo, financeiramente creio que vai ser bastante complicado.

Existirá algum apoio governamental?

A nova ministra da cultura diz que sim. Está a circular um questionário para mapeamento das indústrias culturais e criativas.

Dada a actual situação, é complicado tecer grandes planos para o futuro, mas o que vês para lá da pandemia? Existem planos? Se sim, quais?

De momento não dá para prever grande coisa mas acredito que alguma coisa vai mudar. Algumas coisas que tínhamos como garantidas já não o são. Creio que vai mudar também o relacionamento das pessoas em sociedade. No caso dos artistas começou-se a explorar esta coisa dos lives que, aparentemente tem dado resultados e creio que é algo para continuar. Do meu lado quero lançar mais alguns singles e o meu EP ainda este ano. Os Grasspoppers também andam a cozinhar um novo álbum em tempos de Pandemia. Nos Cacique’97 também já começam a surgir alguns temas para um álbum futuro. Só não saberemos quando poderemos mostrar todas estas coisas ao vivo. Vamos ver como tudo isto anda.

Sabendo que os concertos são o verdadeiro ganha-pão dos artistas e, dificilmente, eles voltarão antes do final do ano, qual é a motivação para continuar a lançar álbuns? A criatividade não se sujeita a confinamentos, mas não será esquisito um músico lançar um álbum, ou mais, e só conseguir tocá-los ao vivo um ano depois, altura em que aquilo que escreveu pode já não fazer sentido para ele artisticamente? Estes álbuns criados em pandemia não perderão força assim que possam subir ao palco? Isto é, crias algo com um determinado mindset e estado de alma, mas quando o puderes tocar ao vivo, talvez, tudo isso tenha deixado de fazer sentido..., ao olharmos para coisas que fizemos há um ano ou dois parecem que não nos pertencem…

É claro que isso pode acontecer mas eu creio que as músicas só se materializam realmente quando as tocamos ao vivo. E todos estes artistas em confinamento vão estar em pulgas até poderem mostrar os seus trabalhos nos concertos. Também podem sempre mostrá-las em lives. Agora há muitos mecanismos para fazer lives até com a banda já pré gravada.


Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com
20/05/2020